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Menos carros nas ruas, menos poluição, mais transporte ativo

O espaço das vias incentiva ou desestimula o transporte ativo. Ruas precisam ser pensadas para as pessoas (foto: Pedro Mascaro/WRI Brasil)

Semanas atrás, grande parte dos brasileiros tiveram de repensar seus hábitos de transporte. A greve dos caminhoneiros restringiu a distribuição de gasolina no país e fez pessoas que utilizam o carro como principal meio de transporte assumirem novas estratégias para manter a sua rotina. A situação acabou se tornando uma oportunidade para enxergar quanta poluição tem origem no carro e como o transporte a pé ou de bicicleta pode, sim, ser viável. Quando uma pessoa escolhe usar o carro em vez do ônibus significa dizer que ela contribui com 45 vezes mais emissões de dióxido de carbono na atmosfera e 30 vezes mais de monóxido de carbono. Saber disso torna mais fácil entender porque São Paulo, a maior cidade brasileira, registrou queda de 50% na poluição do ar no período da crise do abastecimento de combustíveis.

O dióxido de carbono é o gás que contribui para o aquecimento do planeta e o monóxido de carbono também é um gás tóxico e poluente. A comparação acima sobre o impacto na poluição do ar quando se usa o carro ou o ônibus foi feita com base nas informações do Inventário Nacional de Emissões Atmosféricas por Veículos Automotores Rodoviários do Ministério do Meio Ambiente considerando ônibus urbanos com média de ocupação de 80 pessoas e carros com média de 1,5. Um ônibus ocupa 17 vezes menos espaço em uma via para transportar o mesmo número de pessoas que 40 carros transportariam, dado fácil de ser visualizado. Já a poluição do ar não é tão fácil de ser vista, mas é simples entender por que um veículo que transporta até 80 pessoas é mais sustentável e irá gerar menos poluição do que cerca de 40 veículos.

No entanto, o modelo de planejamento ainda em voga segue incentivando o uso do transporte individual. Em 2015, carros e motos foram responsáveis por 78% das emissões de gases de efeito estufa (GEE) associadas ao transporte rodoviário de passageiros, de acordo com relatório do Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa (SEEG). Desse total, 71% corresponde aos automóveis, 16% aos ônibus urbanos e 7% as motocicletas.

(Foto: Pétria Chaves CBN/Flickr-CC)Talvez os dados gerados pela crise do abastecimento sirvam de alerta. Segundo o diretor do Instituto de Estudos Avançados (IEA-USP), Paulo Saldiva, revelou, houve uma redução de 50% da poluição na capital paulista devido à diminuição da circulação de carros e ônibus na cidade. Os dados foram registrados por duas estações de medição do Sistema de Informações de Qualidade do Ar da Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb): Ibirapuera e Cerqueira Cesar. Saldiva comparou os dados relativos aos índices de monóxido de carbono (CO), dióxido de nitrogênio (N2O) e partículas inaláveis na atmosfera. “Esse é um episódio raro e vamos estudar suas consequências na saúde pública. Quem sabe, essas evidências quantitativas sirvam de argumento para a criação de políticas públicas”, disse Saldiva.

O resultado de uma pesquisa lançada nesta semana pela Rede Nossa São Paulo indica que 76% dos paulistanos apoiam a adoção de medidas que restrinjam a circulação de veículos para diminuir a poluição do ar na cidade. Entre as ações mais defendidas pelos entrevistados estão a inspeção veicular que verifica os níveis de emissões dos automóveis (30%), a limitação da circulação de veículos no centro (21%) e ampliar o horário de duração do rodízio (16%).

Encontrando alternativas

Não ter disponível o carro – e em alguns casos o ônibus – para os deslocamentos diários durante a paralização dos caminhoneiros motivou a população brasileira a encontrar a solução nos modos mais sustentáveis de transporte: a caminhada e a bicicleta.

Em cinco capitais brasileiras, houve aumento de 34% no número de viagens. São Paulo, Recife, Rio de Janeiro, Porto Alegre e Salvador registraram 118 mil viagens com bicicletas compartilhadas entre os dias 21 e 27 de maio, ante 88 mil usos na semana anterior. Os dias 27 e 28 (domingo e segunda-feira) registraram os recordes de utilização. O número de cadastrados no sistema passou de 10.038 na semana anterior para 19.926 no dia 27.

Em Belo Horizonte, o aumento do uso da bicicleta também foi alto. Na semana entre os dias 24 e 30 de maio, o único contador de tráfego de bicicletas, localizado na ciclovia da Avenida Bernardo Monteiro, no Bairro Funcionários, registrou a passagem de 3.238 ciclistas, número 76,5% maior do que a média das três semanas anteriores.

O incentivo ao transporte ativo deve ter origem no planejamento urbano. Sem mais ciclovias, calçadas e acessos adequados, as cidades apenas vão permanecer com o atual padrão carrocêntrico. Seguir com esse modelo significa continuar pagando o preço de cidades que não andam e que reduzem cada vez mais a qualidade do ar, que veem os congestionamentos crescerem resultando em perdas econômicas devido à queda de produtividade e que seguirão lamentando as mortes no trânsito.

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