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Pensando em Transporte: pesquisas origem-destino a cada 2 anos, o método pioneiro de Recife

Recife é a única cidade brasileira que aplica sua pesquisa Origem-Destino de forma online. (Foto: Bruno Campos de Souza/WRI Brasil)

A série “Pensando em Transporte” apresenta os aprendizados das cidades que integram o Grupo de Benchmarking QualiÔnibus, coordenado pelo WRI Brasil com o apoio da FedEx Corporation. A cada mês compartilhamos as novidades e boas práticas de uma cidade diferente.

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Pense em todos os deslocamentos que estão sendo realizados nesse exato momento em sua cidade. Eles mantêm as “cidades vivas”, permitem às pessoas o acesso ao trabalho e de volta às suas casas, ao estudo, a serviços de saúde, a opções de entretenimento, possibilitam que o comércio esteja abastecido. Enfim, nossas vidas e as cidades dependem do transporte todo o tempo. Para que todas as viagens ocorram diariamente, a infraestrutura e os serviços de transporte precisam estar preparados para atendê-las. Para tanto, os planejadores da cidade precisam conhecer as características desses deslocamentos. Tais informações dependem da origem e do destino das viagens, dos modos de transporte disponíveis e das decisões pessoais, dados não tão simples de se obter. Esse é o objetivo das Pesquisas Origem-Destino, ou Pesquisas OD: coletar, por meio de entrevistas, informações sobre as viagens que as pessoas realizam para planejar adequadamente os espaços públicos e os transportes coletivos.

Os resultados desses levantamentos são usados para desenvolvimento e atualização de planos de mobilidade, estruturação e modificações em sistemas de transporte coletivo (como inclusão, exclusão ou modificação de linhas, implantação de novos sistemas ou expansão dos atuais), planejamento da infraestrutura urbana (ciclovias, calçadas, travessias, vias de tráfego, espaços de estacionamentos), entre outros. Enfim, tudo o que diz respeito ao transporte e ao espaço urbano pode ser melhor planejado tendo uma base de dados confiável sobre as viagens que ocorrem na cidade.

(Foto: Bruno Campos de Souza/WRI Brasil)As pesquisas OD, em geral, são amostrais e domiciliares: algumas habitações são selecionadas para participar do estudo e representar o total de domicílios da cidade. Essas ações têm um custo alto, necessitam de uma grande mobilização e, por isso, são realizadas em grandes intervalos, geralmente a cada 10 anos. Para os longos períodos em que não há pesquisas, são utilizadas estimativas, muitas vezes incapazes de considerar a implantação de grandes empreendimentos e mudanças no uso do solo recentes. Devido aos custos, muitas cidades não conseguem manter a periodicidade de 10 anos e outras, inclusive, nunca realizaram uma pesquisa desse tipo.

Visando superar algumas das dificuldades das Pesquisas OD tradicionais, Recife passou a adotar, em 2015, Pesquisas OD aplicadas online . O novo modelo de pesquisa permite uma periodicidade de dois anos, garante a abrangência espacial e das faixas de renda necessárias para validação estatística da amostra, tem custos baixíssimos para o poder público e reduz o tempo de tabulação e de análises dos resultados. Recife, que tinha realizado Pesquisas OD apenas em 1972 e a seguinte 25 anos depois, em 1997, pôde, pelo novo método, realizar edições a cada dois anos e aumentar a amplitude de suas aplicações. A Pesquisa de 2015/2016 teve alcance municipal e atingiu 84 mil pessoas, já a de 2017/2018, com abrangência metropolitana, está em andamento e já atingiu mais de 150 mil pessoas. A próxima edição é planejada para 2019.

O sucesso do novo método foi possível graças a três importantes ações: a sanção da Lei de Informação da Mobilidade (lei nº 18.205/2015), a divulgação da Pesquisa pela imprensa e as parcerias específicas. A Lei de Informação da Mobilidade permitiu que a Secretaria de Planejamento Urbano (SEPLAN), por meio do Instituto da Cidade Pelópidas Silveira (ICPS), pudesse exigir que empreendimentos considerados polos geradores de viagens prestassem informações coletadas por meio de formulários. Entre os empreendimentos abrangidos pela lei municipal estão estabelecimentos de ensino, estabelecimentos comerciais com mais de 200 funcionários e conjuntos de lojas ou salas comerciais com mais de 2.500m². O descumprimento da Lei impossibilita a renovação de alvarás de localização e funcionamento para o empreendimento.

(Foto: Bruno Campos de Souza/WRI Brasil)São solicitados a participar da pesquisa funcionários dos empreendimentos e pessoas que utilizam os serviços prestados pelos estabelecimentos. Ao responder o questionário da Pesquisa OD, a pessoa recebe um código que deve apresentar ao seu empregador, sua instituição de ensino e a de seus filhos. A exigência acabou levando os próprios estabelecimentos notificados a participar da Pesquisa OD a auxiliar na divulgação e incentivar as pessoas a responderem o questionário. Além disso, para engajamento, a Pesquisa OD é divulgada em diferentes canais de comunicação, como televisão, rádios e jornais, além de serem realizadas ações específicas com a população por meio de oficinas participativas.

Todas as respostas recebidas passam por um software de validação, desenvolvido especialmente para a Pesquisa OD, que verifica respostas incompletas, incoerentes ou em duplicidade. Além disso, para garantir a representatividade do resultado, é verificado se a amostra atende a todos os estratos de renda da população e todas as zonas de tráfego. Caso faltem pesquisas em estratos específicos, são aumentados os esforços para atingir aquele público.

Recife é a única cidade brasileira que aplica sua pesquisa Origem-Destino de forma online (relatórios, banco de dados e outras informações sobre a Pesquisa OD podem ser encontrados aqui). A cidade compartilhou essa boa prática no Grupo de Benchmarking QualiÔnibus, coordenado pelo WRI Brasil. Formado desde 2017, o grupo é composto por diferentes cidades e regiões metropolitanas do Brasil que veem no incentivo ao uso do transporte coletivo uma forma de melhorar a mobilidade urbana.

Se você conhece outras boas práticas como esta ou deseja saber mais sobre o Grupo de Benchmarking, entre em contato pelo e-mail qualionibus@wri.org.

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Por Mariana Barcelos, analista de Mobilidade Urbana do WRI Brasil

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