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Dez mandamentos para criar cidades melhores

Em seu livro “Dez formas de projetar uma cidade” (em tradução livre), o urbanista catalão Joan Busquets estabelece um decálogo daquilo que, em sua visão, seriam as maneiras de se intervir nas cidades de modo a torná-las lugares melhores para viver, mais dinâmicas e sustentáveis. Resumidamente, são as seguintes:

Construção de edifícios com sinergia urbana, ou seja, aqueles capazes de alavancar no seu entorno importantes transformações urbanas, impactando, inclusive, a imagem da cidade. O museu Guggenheim, em Bilbao, talvez seja um dos mais icônicos exemplos deste tipo de edificação.

Museu Guggenheim (Foto: Wojtek Gurak/Flickr)

Construção ou remodelação de grandes artefatos urbanos. Trata-se de operações em ambientes de grande centralidade, onde há intensa movimentação de pessoas e pode ocorrer uma multiplicidade de sistemas de transporte. Uma profunda remodelação urbana na região da Central do Brasil, no Rio de Janeiro, a exemplo do que vem ocorrendo em áreas semelhantes mundo afora, seria uma iniciativa local deste mecanismo.

Implantação de projeto urbano minimalista de poucos investimentos, mas de grande impacto em questões essenciais na vida da cidade. A implantação de ciclovias no coração de Manhattan, em Nova York, com baixíssimos custos, demonstra que, às vezes, é possível fazer muito com poucos recursos.

A criação de paisagem dentro da cidade, substituindo estruturas urbanas obsoletas ou esteticamente agressivas, aproveitando o espaço retomado para uso público qualificado, recuperando a presença do verde. A demolição do Viaduto da Perimetral e a implantação da Orla Conde em seu lugar, também no Rio de Janeiro, é um exemplo exitoso deste modelo de intervenção urbana recomendada pelo autor.

Orla Conde (Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil)

Operações urbanas de escala intermediária de múltiplo uso e com variadas funções são outra intervenção indicada. A experiência acumulada pela cidade de São Paulo na promoção de tais operações serve de inspiração e de atestado de viabilidade, guardada, é claro, as devidas proporções da capacidade de produção de seu pujante mercado imobiliário.

Projeto de inspiração no passado, propondo clima ou ambiente de outras épocas através de estilos de construir, com apelo ao imaginário das pessoas. Os exemplos do Novo Urbanismo apresentados pelo autor têm características distintas, mas buscam um certo enfoque “revival”. Não temos exemplos semelhantes por aqui. Destacaria, entretanto, o projeto do Bairro Cidade Pedra Branca, localizado na periferia de Florianópolis, em Santa Catarina. Trata-se de uma comunidade planejada com diversidade da tipologia construtiva com variados usos e atividades previstas. Concluído, deverá abrigar até 40 mil habitantes e gerar perto de dez mil empregos.

Ações de “reciclagem” de espaços abandonados, como antigas instalações industriais e portuárias transformadas em parques públicos e com marcante presença do verde. O autor aponta como projeto referente para esta estratégia a operação urbanística-ambiental no Vale do Ruhr, na Alemanha. Tentando encontrar um paralelo por aqui, creio que o projeto paisagístico do Parque Madureira, construído a partir do remanejamento de torres de linhas de transmissão de energia, sirva como exemplo desse tipo de intervenção.

Reabilitação urbana de centros históricos, empreendendo novas ações a fim de renovar sua força e assegurar sua persistência e respeitando o patrimônio histórico, os edifícios monumentais e os tecidos urbanos consolidados. O autor utiliza como exemplo o projeto de reabilitação do centro histórico de Quito, no Equador: apesar de sua extensão e complexidade, apresenta resultados significativos, mesmo se consideramos as limitações econômicas daquele país.

Masterplan Urbano/Metropolitano enquanto estratégia para reorientar os territórios urbanos, diante de novas dinâmicas econômicas e institucionais. Os planos urbanísticos estão evoluindo em conteúdo e estrutura, propondo ações de modernização dos sistemas urbanos, indicando possibilidades de desenvolvimento social mais justo e também mais adequado aos recursos ambientais e energéticos disponíveis. Busquets cita os planos de Londres, Los Angeles, Tóquio e Xangai como referências. Tomo a liberdade de incluir o Plano Diretor da Grande Paris, enquanto experiência longeva e exitosa. Já na quarta edição, o primeiro plano foi elaborado há mais ou menos 80 anos. Este processo de planejamento de longo prazo tem permitido à capital francesa criar cenários possíveis e encontrar alternativas exequíveis na busca de um futuro melhor.

Investigações experimentais em urbanismo, através de procedimentos especulativos, visando encontrar novas formas de entendimento e leitura da condição urbana atual. Desafios como a densificação do tecido suburbano; novos conteúdos programáticos e componentes espaciais provocados pelas novas situações urbanas; e a integração da área central com o restante da cidade são citados pelo autor. Creio que a experiência de construção da cidade de Masdar, nos Emirados Árabes, sirva também como referência na aplicabilidade dos novos conceitos urbanos. A conclusão do projeto proposto e o acompanhamento rigoroso dos resultados obtidos por suas inovações urbanísticas, tecnológicas e comportamentais poderão indicar, em futuro próximo, alguns caminhos a seguir.

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Vicente Loureiro é diretor executivo da Câmara Metropolitana de Integração Governamental do Rio de Janeiro.

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