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CEO da Mobike vê as bicicletas compartilhadas sem estação como parte do transporte público

A Mobike chegou a oito milhões de bicicletas em apenas três anos e agora busca a integração do serviço com o transporte coletivo (foto: Kentaro IEMOTO/Flickr)

SM_wang-150x150A Mobike chegou a oito milhões de bicicletas em apenas três anos e agora busca a integração do serviço com o transporte coletivo (foto: Kentaro IEMOTO/Flickr)

A equipe do WRI conversou com o CEO da Mobike Davis Wang durante o Transforming Transportation deste ano para conversar sobre a explosão global da empresa, os próximos passos para uma mobilidade urbana mais integrada e o lugar que a Mobike ocupa no cada vez mais povoado mercado global de transporte.

“Há oportunistas na indústria que estão tentando fazer dinheiro rápido e não se preocupam com a sustentabilidade, não têm nenhuma responsabilidade social”, diz ele. “A diferença entre a Mobike e outras empresas é que nós percebemos que a Mobike pertence, de certa forma, à esfera do transporte público.”

Quais são os principais desafios de mobilidade que a Mobike está tentando endereçar?

Davis Wang: Há vinte anos, a China era conhecida como “reino das bicicletas”. Havia cerca de meio bilhão de bicicletas nas ruas. Desde então, treinamos com sucesso 300 milhões de pessoas a dirigir um carro, mas o problema é que não há espaço suficiente.

Três anos atrás, começamos a Mobike porque queríamos fazer algo bom para as cidades e para o transporte. Nossa missão foi persuadir as pessoas a usar bicicletas novamente após 20 anos de popularidade em declínio. Pensamos que as bicicletas compartilhadas poderiam ser a solução para o problema. Uma bicicleta pode ser usada por muitas pessoas, e com a ajuda da tecnologia, estamos tentando persuadir as pessoas a usar essas bicicletas.

Colocamos nossa primeira bicicleta nas ruas em setembro de 2015. Passamos de uma bicicleta para 8 milhões de bicicletas, de uma cidade – Xangai – para mais de 200 cidades em 15 países diferentes. Temos uma forte convicção de que, ao aumentar a presença de bicicletas compartilhadas sem estações implantadas de maneira inteligente, podemos tornar as cidades lugares melhores para viver.

Você vê semelhanças ou diferenças em termos de desafios e soluções entre os países para os quais vocês expandiram?

Wang: Engarrafamentos e poluição atmosférica estão entre os muitos desafios da mobilidade urbana das cidades modernas, tanto dentro como fora da China, razão pela qual queríamos expandir globalmente. As diferenças que vemos estão no comportamento dos usuários e nas políticas locais. A indústria desenvolveu-se rapidamente na China antes que qualquer política existisse, levando à oferta excessiva em algumas cidades chinesas – é por isso que vimos aquelas pilhas de bicicletas que tomaram as manchetes. A partir desses erros aprendemos a trabalhar com o poder público. Em todas as novas cidades, trabalhamos em estreita colaboração com os governos locais em um plano de implantação personalizado, oferecendo uma excelente experiência que beneficia tanto os nossos usuários como o próprio município.

Por que a Mobike foi tão bem-sucedida em mudar o comportamento dos usuários e crescer tão rápido?

Wang: Bicicletas compartilhadas não são uma novidade. O compartilhamento de bicicletas por estações existe desde a década de 1960. O que permitiu que a Mobike se expandisse tão rapidamente foi a conveniência. É muito parecido com as cabines telefônicas fixas: eram convenientes, mas não tão convenientes. A Mobike é como o advento dos telefones celulares: quando você precisa fazer uma ligação, você simplesmente faz isso de qualquer lugar, sem ter que ir a uma cabine telefônica.

O preço que oferecemos também é superacessível, tanto na China como no exterior. Quando você está decidindo comprar uma bicicleta ou não – gastar mais de US$ 300, além do custo da manutenção regular –, você também precisa pensar em onde estacioná-la, onde armazená-la em sua casa e você precisa se preocupar sobre um possível roubo.

A mobike é mais barata e conveniente. Acredito que é assim que conseguimos persuadir mais de 200 milhões de pessoas a usar o serviço em apenas dois anos.

Quais considerações importantes os líderes do poder público deveriam levar em conta na concepção de cidades para pessoas e não para carros?

Wang: A indústria do transporte geralmente é bastante tradicional. Os táxis existem há 100 anos, mas o que aconteceu nos últimos dois anos trouxe uma quebra de paradigma ao setor. Pense em como a Uber está tentando mudar os táxis a partir de tecnologia e dados. Antes, você nunca saberia o desempenho de um motorista. Agora, tudo pode ser quantificado.

O impacto que a Mobike teve no compartilhamento tradicional de bicicletas é similar. Estamos gerando muitos dados – quase 30 terabytes por dia. Podemos compartilhar esses dados com os governos das cidades e os líderes políticos para contribuir com a otimização do planejamento de transporte.

Há trinta anos, todas as cidades da China tinham vias exclusivas para a bicicleta, mas após o desenvolvimento em massa de carros, foram engolidas. Agora, os prefeitos estão tentando reconstruir pistas de bicicleta, mas em quais ruas? A Mobike fornece mais de 30 milhões de passeios a cada dia e, a partir dos dados, podemos aprender quais rotas estão sendo usadas mais, a velocidade de viagem, etc. Podemos compartilhar todos esses dados com os formuladores de políticas públicas e ajudá-los a tomar as melhores decisões sobre infraestrutura para bicicletas e gerenciamento de trânsito.

Quando apoiamos as cidades no tema do compartilhamento de bicicletas, muitas vezes as maiores preocupações são sobre a sustentabilidade financeira. Qual o seu conselho a quem quer criar modelos de negócios que se integrem com os objetivos do governo das cidades?

Wang: Um dos principais benefícios para as cidades é que nosso modelo não requer financiamento público. Quando trazemos a Mobike para uma nova cidade, desenvolvemos um plano de lançamento muito detalhado que inclui orçamentos e um período de retorno. Compartilhamos esse plano com os líderes políticos para que eles possam ver como nossas finanças são sólidas.

Podemos melhorar a eficiência do sistema, graças à tecnologia e ao design das bicicletas. Vamos comparar duas cidades: em Nova York, eles têm 7 mil bicicletas, mas 120 funcionários, então cada pessoa é responsável por 50 delas. Em Xangai, um funcionário da Mobike supervisiona 3 mil bikes. Também desenhamos as rodas das nossas bicicletas com 5 raios, e não os típicos 32, que são mais frágeis. Colocamos em circulação mais de dois milhões de bicicletas de cinco raios e menos de 10 rodas quebraram no ano passado. Com estas bicicletas especialmente projetadas, podemos reduzir significativamente os custos de gerenciamento. Não somos como a Gucci; nós somos como o Walmart. Tentamos manter uma margem de lucro superbaixa para que mais pessoas possam usar nosso produto.

As bicicletas são apenas o começo para nós. Vemos o potencial de usar nossa experiência na aplicação de redes móveis para conectar ônibus, veículos elétricos, carros alugados e muito mais para desenvolver um transportes público com alta eficiência e tecnologia. Para cumprir esse objetivo, estamos desenvolvendo um programa piloto em uma cidade chinesa, onde tudo está conectado e podemos trabalhar juntos em como otimizar o transporte público, e o governo pode até mesmo comprar esses serviços de nó, enquanto fornecemos acesso a dados para o planejamento.

A Mobike apoiou recentemente os Princípios de Mobilidade Compartilhada. Você pode nos dizer por que a Mobike assinou?

Wang: Há oportunistas na indústria que estão tentando ganhar dinheiro rápido e não se preocupam com a sustentabilidade – eles não têm nenhuma responsabilidade social. A diferença entre a Mobike e outras empresas é que percebemos que a Mobike pertence, até certo ponto, à esfera do transporte público. Uma vez que você pertence a essa esfera, você tem que cumprir com suas responsabilidades. É por isso que ficamos felizes em participar dessa iniciativa, junto com outras empresas da área, para contribuir e alcançar a sustentabilidade no transporte público.

 

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