Quando investir em mobilidade é uma questão de saúde

Ciclofaixa com segregação física através de “tartarugas” em Joinville. (Foto: Mariana Gil/WRI Brasil)

Ciclofaixa com segregação física através de “tartarugas” em Joinville. (Foto: Mariana Gil/WRI Brasil)

Vivemos em uma sociedade em que o papel do planejamento de uma cidade é visto como algo descentralizado e isolado por departamentos e áreas afins. Muito dessa visão vem do fato de que o poder público estabelece seu organograma baseado, em muito, na segregação orçamentária instituída pela legislação. Todavia, as mesmas leis que segregam também instituem a integração de políticas públicas na execução dos serviços oferecidos à população. Infelizmente, não é o que normalmente ocorre.

Falta aos gestores e servidores entenderem que o planejamento urbano é muito mais que definir questões urbanísticas aos lotes ou criar e manter um sistema viário. Falta-lhes uma visão holística de gestão da cidade, como, por exemplo, entender que investir em mobilidade ativa é questão de saúde pública. Um estudo recente da Universidade de Glasgow, na Escócia, publicado no The British Medical Journal, mostrou a redução da incidência de câncer e doenças cardiovasculares em pacientes que se locomovem ativamente.

Assim, investir na qualificação de calçadas e cicloestruturas não somente contribui para a melhora da mobilidade urbana, mas, também, para a qualidade de vida dos habitantes através da redução da incidência de doenças relacionadas ao sedentarismo. Londres, por exemplo, está focada na implementação de “Ruas Saudáveis” – um plano de qualificação e incentivo ao caminhar e pedalar nas jornadas curtas do dia a dia. Para suportar os investimentos necessários, a capital inglesa apresentou um estudo que comprova que, se os londrinos caminharem ou pedalarem vinte minutos por dia, seu sistema público de saúde economizaria 1.7 bilhão de libras em tratamentos durante 25 anos.

Larga ciclovia em Londres; ao fundo, a pista dedicada aos veículos automotores. (Foto: Luiz Fernando Hagemann)

Larga ciclovia em Londres; ao fundo, a pista dedicada aos veículos automotores. (Foto: Luiz Fernando Hagemann)

Vale lembrar que a legislação brasileira permite que o poder público destine verbas carimbadas à saúde para o investimento em mobilidade ativa, ou até em transporte público, visto os benefícios a qualidade de vida e redução de gastos pelo SUS advindos de tais investimentos. Entretanto, a falta dessa visão holística ou, permita-me expandir, o medo do debate político em torno de tema tão sensível, evita que o poder público invista em mobilidade urbana sustentável que gera de fato elevação dos níveis de qualidade de vida de nós cidadãos.

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Este post foi escrito por Luiz Fernando Hagemann e originalmente publicado no Cidadão Urbano.

Luiz Fernando Hagemann é arquiteto urbanista formado pela IST/SOCIESC (2012). Foi Coordenador de Projetos na Fundação Instituto de Pesquisa e Planejamento para o Desenvolvimento Sustentável de Joinville (IPPUJ), aonde desenvolveu os Planos de Mobilidade Urbana de Joinville e de Transportes Ativos (PDTA). Foi membro do Conselho da Cidade e da Comissão de Ações para Humanização e Segurança no Trânsito (COTRAN) em Joinville. Atualmente é mestrando em Urbanismo Sustentável na Bartlett School of Planning/University College London.