Transforming Transportation 2018: para construir um futuro digital para todos, precisamos de transporte para todos

Dar es Salaam’s new bus transit system (BRT) is decreasing transportation costs, and easing traffic throughout the city. Dar es Salaam, Tanzania's commerical hub, is considered one of the fastest growing urban centers in the region, with a population that has been growing rapidly at a rate of 6.5%, up from 2.5 million inhabitants in 2002 to 4.4 million in 2012. It is projected that the population could reach 10 million by 2027, thus attaining ‘mega city’ status. The construction of the BRT, which was completed in 2015, was financed in part by a from $290 million credit from the International Development Association, the World Bank’s fund for the poorest countries. Photo: Hendri Lombard / World Bank

Utilizando o poder da tecnologia, os serviços da nova mobilidade podem levar a um transporte mais verde, seguro, inclusivo e eficiente para todos (Foto: World Bank/ Flickr)

Este post foi escrito por Ani Dasgupta e José Luis Irigoyen e publicado originalmente no TheCityFix.

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Progressos exponenciais em como coletamos, processamos e utilizamos dados estão modificando nossas sociedades e economias de forma considerável. Mas a nova economia digital depende fundamentalmente de um facilitador físico. Amazon e Alibaba, por exemplo, não existiriam sem uma maneira eficiente de entregar produtos em todo o mundo, seja por meio de rodovias, navios ou drones. A vaga de emprego para a qual você se candidatou via Skype pode exigir uma viagem para Londres ou Dubai, onde você espera se locomover facilmente.

De fato, como pano de fundo da globalização, o processo de digitalização está aumentando a necessidade de transportar pessoas e mercadorias ao redor do planeta. A crescente pressão sobre os transportes, à medida que as economias crescem, está desencadeando tendências insustentáveis de segurança e para o meio ambiente. As necessidades de locomoção cada vez mais são atendidas ao custo das futuras gerações.

Será que a revolução digital, que depende tanto de uma mobilidade eficiente em escala local e global, pode nos ajudar a repensar o transporte? Para ser uma parte da solução de questões como mudanças climáticas, pobreza, saúde, segurança pública e empoderamento feminino, a resposta precisa ser sim. O transporte precisa ir além de ser um facilitador da economia digital e também fazer uso do poder da tecnologia.

Os sistemas de transporte dominantes em operação hoje contam com invenções que nasceram durante a revolução industrial. Como mostra uma pesquisa do WRI, novas tecnologias digitais estão começando a mudar isso, criando modelos de negócio inteiramente novos e sacudindo o mercado. Em muitas cidades, é possível pedir um táxi ou um carro compartilhado ao clique de um botão. As pessoas podem sair do ônibus e pegar um trem sem obstáculos entre um modo e outro. Bicicletas estão a cada esquina e podem ser desbloqueadas e conectadas ao smartphone com facilidade. E a qualquer momento os veículos autônomos também farão parte desse arranjo, quem sabe até entregando mercadorias na porta da sua casa. Juntos, esses serviços da “nova mobilidade” estão remodelando de forma radical a paisagem do setor de transportes.

Mas não em qualquer lugar. Mesmo que novas opções de transporte cheguem às pessoas e empresas em algumas cidades, o rápido crescimento tem predominado em outras, em especial no sul global. As taxas mais velozes de urbanização estão na África e na Ásia, onde viverão 90% dos 2,5 bilhões de novos habitantes que as cidades devem abrigar até 2050.

O crescimento sem planejamento e desconectado não está apenas deixando muitas pessoas de fora da nova economia digital, como também agrava outros problemas. Acidentes de trânsito encerram 1,25 milhão de vidas a cada ano e os números seguem aumentando nos países em desenvolvimento, que já registram 9 de cada 10 mortes. O setor de transportes é responsável por 23% de todas as emissões relacionadas à energia, e esse índice pode chegar a 33% até 2050. O número de mortes causada pela poluição do ar em todo o mundo aumentou 20% desde 1990, atingindo a marca de 4,2 milhões por ano.

Os serviços da nova mobilidade podem nos ajudar a superar esses desafios, levando a um transporte mais verde, seguro, inclusivo e eficiente para todos.

A mobilidade compartilhada, potencializada pelas tecnologias digitais, pode aumentar o índice de ocupação dos veículos, reduzindo as emissões per capita. Sistemas acessíveis de compartilhamento de bicicletas e transporte sob demanda (como o Uber) podem ajudar as pessoas a percorrer a “última milha” (o trecho final de um deslocamento; da estação até o trabalho, por exemplo) de forma mais fácil, aumentando a atratividade do transporte coletivo.

Tanto no transporte de passageiros quanto no de cargas, plataformas digitais contribuem para aumentar a eficiência do serviço ao oferecer novas maneiras de atender à demanda. Novas plataformas para compartilhar e despachar caminhões de carga, por exemplo, têm ajudado a evitar que os veículos voltem vazios de uma entrega.

Veículos autônomos são mais inteligentes, mais leves e prometem um cenário de mais eficiência, menos carros nas ruas e uma redução significativa de acidentes. Os acidentes, aliás, não são o único desafio que a nova mobilidade pode ajudar a endereçar. Violência e assédio são preocupações de passageiros e pedestres, principalmente mulheres e outros representantes de grupos vulneráveis – antigos problemas para os quais novos sistemas de alerta para smartphones e aplicativos para reportar ocorrências estão trazendo novas soluções.

De forma similar, os dados abertos permitem que cada vez mais pessoas enxerguem de forma abrangente quais opções de transporte estão à sua disposição, avaliem a melhor escolha – ou reivindiquem mudanças. No Haiti, o Bando Mundial está usando dados para compreender os padrões de mobilidade da população e planejar sistemas de transporte coletivo mais inclusivos e integrados, que atendam às necessidades das pessoas e reduzam os custos e tempos de viagem. Em países onde os dados de transporte costumavam ser escassos, essa é uma mudança radical, com o potencial de aumentar o acesso a oportunidades de trabalho e serviços essenciais.

Todos esses progressos geram incontáveis oportunidades, mas a tecnologia sozinha não será suficiente. O mundo precisa de políticas ambiciosas que mantenham a demanda pelo transporte sob controle e criem os incentivos certos para que pessoas e empresas abracem a mobilidade sustentável.

Sem um planejamento cuidadoso, carros autônomos poderiam aumentar os congestionamentos, a poluição e o espraiamento urbano; sistemas de compartilhamento de bicicletas sem estações poderiam gerar enormes prejuízos; e serviços de transporte por aplicativo poderiam tirar a competitividade do transporte coletivo. Precisamos auxiliar os legisladores a gerenciar com atenção a adoção dos novos serviços de mobilidade para evitar armadilhas e maximizar os benefícios – além de encontrar mais formas de levar esses benefícios aos mais vulneráveis.

Há um bônus tremendo em entender essa dinâmica e fazê-la operar da melhor forma. O Global Mobility Report, estudo recém lançado, utiliza dados da Agência Internacional de Energia para mostrar que, considerados os custos totais, uma mobilidade mais eficiente e sustentável poderia gerar uma economia de até US$ 70 trilhões em todo o mundo até 2050.

Nos anos que estão por vir, temos uma única chance de construir sistemas de transporte e cidades que levem a todos habitação, oportunidades de emprego, serviços e todas as promessas da economia digital. Para isso, soluções digitais inteligentes precisam ser um elemento central em qualquer estratégia de mobilidade sustentável. Com a tendência de crescimento das áreas urbanas, que devem abrigar até 70% da população mundial até 2050, não é só a promessa de cidades e sistemas de transporte melhores que se coloca no horizonte, mas a de um mundo melhor.

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Transforming Transportation é a conferência anual correalizada pelo Banco Mundial e pelo WRI Ross Center for Sustainable Cities em Washington D.C. Este ano, o tema do evento é “mobilidade sustentável para todos na era digital”. Assista ao vivo e acompanhe o debate no Twitter pela #TTDC18.

Ani Dasgupta é o Diretor Global do WRI Ross Center for Sustainable Cities, o programa do WRI que trabalha para ajudar as cidades a crescerem de forma mais sustentável e a melhorar a qualidade de vida das pessoas em países em desenvolvimento.

José Luis Irigoyen é o Diretor Sênior de Transporte e Tecnologias de Informação e Comunicação da Global Practice, do Banco Mundial.