Ruas para pessoas, fim dos estacionamentos e ônibus movidos a café: Londres combate a poluição

Futura identidade visual da Oxford Street pedestrianizada ainda não está pronta. A imagem do projeto é apenas ilustrativa. (Imagem: TfL)

Futura identidade visual da Oxford Street pedestrianizada ainda não está pronta. A imagem do projeto é apenas ilustrativa. (Imagem: TfL)

O prefeito de Londres, Sadiq Khan, lançou esse mês o esboço do novo plano para a cidade que, segundo ele, marca uma ruptura com os planos anteriores. E ele não está exagerando, já que entre as novas metas a serem perseguidas até 2029 estão a quase completa proibição de estacionamentos para carros e a construção de 650 mil novas habitações. Enquanto o plano ainda está em sua versão inicial, os esforços da capital inglesa para conter a poluição do ar fazem avançar o processo de pedestrianização de uma de suas principais avenidas centrais, a Oxford Street, e até a apostar em biocombustível derivado do café para mover os ônibus pela terra da Rainha.

“Nós decepcionaremos as futuras gerações se não nos planejarmos adequadamente para acomodar o crescimento de forma sustentável, ambientalmente, economicamente e socialmente”, diz Sadiq Khan no documento. O que ele chama de “Good Growth” (Bom Crescimento), uma nova forma de fazer a cidade se desenvolver, abrange uma revolução na maneira como a população de desloca em Londres e visa uma expansão da mobilidade ativa, tendo o transporte a pé e a bicicleta como as primeiras opções de transporte.

Nesse contexto, o ponto que chama mais atenção no plano é o combate declarado à poluição do ar, aos carros e ao espaço que eles ocupam. Na área central de Londres e em diversas outras novas zonas de desenvolvimento agrupadas em torno de centros de tráfego secundários, novos espaços para estacionamentos serão proibidos. Em poucas áreas menos centrais do núcleo londrino, novos estacionamentos serão permitidos, mas a um padrão máximo de estacionamento residencial (0,25 por unidade de habitação). Além disso, todos os espaços de estacionamento residencial devem fornecer infraestrutura para veículos elétricos ou com taxas de emissão muito baixas (Ultra-Low Emission).

Em outubro, o prefeito já havia lançado uma nova taxação de toxicidade a veículos mais antigos e mais poluentes nas vias de Londres. A cobrança entrou em vigor no dia 23 de outubro e é aplicada em uma zona que envolve todo o centro da cidade. Serão taxados todos os veículos que entrarem na zona determinada entre as 7h e as 18h, de segunda a sexta-feira, que não atendem aos padrões mínimos de emissão dos motores Euro4 para veículos movidos a diesel e gasolina. A nova taxa de 10 libras será somada à tarifa de congestionamento usual de 11,50 libras já aplicada na área. Em outras palavras, veículos que não pertencem a residentes da região terão de pagar 21,50 libras para dirigir para o centro de Londres.

“O predomínio de veículos nas ruas é uma barreira significativa para o caminhar e o pedalar e reduz o apelo das ruas como espaços públicos. Reduzir vagas de estacionamento pode facilitar o desenvolvimento de altas densidades e apoiar a criação de espaços mistos e vibrantes que são projetados para pessoas em vez de veículos. Com o crescimento populacional, a rede viária não pode absorver os carros adicionais que resultariam de uma continuação dos níveis atuais de propriedade e uso de automóveis. Implementar os padrões de estacionamento previstos nesse plano é, portanto, uma medida essencial para apoiar a entrega de novas habitações em toda a cidade”, diz o plano.

O documento destaca que a provisão de estacionamento não deve ser uma razão para reduzir o nível de habitação a preços acessíveis. Além disso, os estacionamentos em novos empreendimentos residenciais deverão oferecer cotas mínimas de espaços para pessoas portadoras de  deficiências físicas.

Para promover essa expulsão dos carros particulares, Londres já está em obras para aumentar a disponibilidade e a conectividade do transporte coletivo, especialmente através de novas linhas férreas e a extensão das linhas de metrô. Já as bicicletas ganharão cada vez mais espaço com o incremento de rotas de ciclovias, a exigência de bicicletários para as empresas e uma nova zona que determinará ainda mais espaço para as bicicletas nas novas construções nas margens do Tâmisa.

Mobiliário urbano será um dos pontos fortes da Oxford Street. (Imagem: TfL)

Mobiliário urbano será um dos pontos fortes da Oxford Street. (Imagem: TfL)

Pedestrianização

Com a meta estratégica de chegar em 2041 com 80% de todos os deslocamentos londrinos sendo realizados a pé, de bicicleta ou de transporte coletivo, Sadiq Khan busca uma cidade mais saudável e com índices de poluição controláveis. Já em curso há anos, o projeto de pedestrianização da Oxford Street agora está saindo do papel e pretende acabar com os níveis críticos de poluição na região.

A rua é um ponto-chave para a cidade já que é um centro de enorme popularidade para o comércio e também um corredor de ônibus vital para o trânsito da região. A missão de remover todos os veículos de pelo menos 800 metros parece inimaginável pela complexidade de adaptar as rotas do transporte coletivo. Ainda que os carros particulares já estejam banidos da Oxford desde a década de 1980, 200 ônibus circulam por hora nos horários de pico. Porém, a cidade aposta em novas linhas e estações de trem e metrô, novos itinerários de ônibus, entre outros recursos muito bem calculados para vencer o desafio.

Para criar um espaço atraente e confortável para os pedestres, o plano é nivelar toda a rua, removendo os meios-fios entre a rua e as calçadas. Pinturas, mobiliário urbano e elementos verdes também irão compor um belo cenário. A pedestrianização da Oxford Street busca não apenas transformar a rua, mas toda a região. Segundo o projeto, a iniciativa irá:

  • Facilitar o transporte a pé em toda a área;
  • Criar espaços públicos bonitos, seguros, acessíveis, inspiradores e cheios de vida e que tratam de alguns dos seríssimos e prementes problemas da escassa segurança viária e qualidade do ar na região da Oxford Street;
  • Apoiar no crescimento das empresas para que elas respondam ao bairro à medida que se transformam e criam novas vagas de trabalho,
  • Igualmente proteger e melhorar a qualidade de vida dos residentes da área.

Ônibus a café

No final de novembro, o Transport for London (TfL), órgão do governo responsável pelo sistema de transporte de Londres, anunciou a parceria com a companhia de tecnologia limpa Bio-bean para começar a usar um biocombustível derivado do café para abastecer alguns dos ônibus da cidade.

Biocombustível B20 contém um biocomponente de 20% que contém parte do óleo de café. (Foto: CAPTAIN ROGER FENTON/Flickr-CC)

Biocombustível B20 contém um biocomponente de 20% que contém parte do óleo de café. (Foto: CAPTAIN ROGER FENTON/Flickr-CC)

De acordo com pesquisas realizadas pela Bio-bean e a multinacional Shell, londrinos descartam cerca de 200 toneladas de café por ano. São mais de 20 milhões de xícaras de café consumidas todos os dias na cidade. Com esses dados na mão, Arthur Kay, fundador da Bio-bean, percebeu que, por serem ricos em calorias, resíduos de café tinham alto potencial energético e poderiam ser transformados em combustível.

A fábrica da empresa pode reciclar anualmente 50 mil toneladas de resíduos de café (obtidos através de parcerias com cafeterias e fábricas do Reino Unido) e os usa para extrair óleo do café. Combinado com outras gorduras e óleos para criar um biocomponente de 20%, o material é misturado com diesel mineral para criar um biocombustível B20, derivado do café.

Até agora, 6 mil litros de óleo de café foram produzidos, quantidade suficiente para ajudar a abastecer um ônibus durante um ano. Porém, segundo os criadores, o projeto tem potencial para crescer mais, já que a quantidade de resíduos de café produzidos em Londres é suficiente para criar um composto puro de biocombustível B20 em larga escala capaz de ajudar a abastecer um terço da frota de ônibus da cidade.