Desafio da Amazon demostra importância do transporte coletivo nas cidades

Washington, DC, candidata na corrida para a segunda sede da Amazon, tem uma extensa infraestrutura de ciclismo. (Foto: World Resources Institute)

Washington, DC, candidata na corrida para a segunda sede da Amazon, tem uma extensa infraestrutura de ciclismo. (Foto: World Resources Institute)

A empresa de comércio eletrônico Amazon, instalada em Seattle, anunciou recentemente que busca uma grande metrópole norte-americana para instalar sua segunda sede. A notícia fez com que cidades como Los Angeles, Chicago e até a canadense Toronto tentassem sobrepor suas ofertas em um esforço para ganhar a gigante corporação. O que chama atenção nos requisitos pedidos pela Amazon é a preferência explícita por cidades com bom acesso ao transporte coletivo.

A Amazon é apenas uma entre uma série de companhias que estão claramente mirando áreas urbanas com melhor acesso ao transporte coletivo. Empresas tão diferentes quanto GE, McDonalds, Caterpillar e Aetna estão se mudando de parques de escritórios localizados em subúrbios com menos acesso para prédios de escritórios em regiões centrais das cidades. Esse fluxo reflete a tendência da maior parte da população globalmente conforme as cidades se tornam centros de atividade e crescimento econômico cada vez mais importantes.

Particularmente em mercados desenvolvidos, preferências geracionais e imperativos econômicos em uma economia digital cada vez mais competitiva estão guiando a atual onda de urbanização. Enquanto a geração “baby boomer” foi conhecida pela sua migração aos subúrbios, a geração “X” caracterizou a busca dos jovens pelos centros urbanos desenvolvidos, e a geração do milênio seguiu o exemplo, devido à preferência de viver próximo às oportunidades de emprego, ao transporte coletivo e a opções de entretenimento. Nos Estados Unidos, por exemplo, a parcela da população de 25 a 34 anos que prefere bairros próximos (em um raio 4 quilômetros da região central da cidade) quintuplicou entre 1990 e 2000. Do total da população urbana nos Estados Unidos, a porcentagem dessa faixa etária de jovens adultos cresceu de apenas 25% em 1990 para 40% em 2015.

As empresas vêm seguindo os millenials em direção às cidades, pois isso permite que aproveitem as vantagens dos efeitos de rede e recrutem uma mão de obra altamente qualificada, ambos elementos cruciais para o sucesso na atual economia digital. Pesquisadores afirmam que pessoas inovadoras são mais produtivas quando vivem próximas a outros colaboradores em potencial, salientando os motivos pelos quais centros de criação como o Vale do Silício, Nova York, Londres, Tóquio e Toronto permanecem há anos entre as cidades mais inovadoras. Na verdade, todas essas cidades estão entre a “elite global” no Índice Global de Cidades da consultoria A.T. Kearney, em parte como resultado de seus fortes ecossistemas para negócios e inovação.

A clara preferência da Amazon pelo transporte coletivo de qualidade destaca ao mesmo tempo os desafios e as oportunidades para as cidades durante a atual onda de urbanização. Em diversas partes do mundo, a rápida urbanização resultou em congestionamentos cada vez maiores e serviços de transporte coletivo esgotados. O sistema de metrô da cidade de Nova York, por exemplo, passou por fortes dificuldades nos últimos anos à medida em que o número de usuários aumentou rapidamente (e agora enfrenta uma retração). A lotação do metrô de Londres também aumenta continuamente ano após ano, levando as autoridades públicas a alertarem que o crescimento populacional poderia sobrecarregar o sistema nos próximos 15 anos.

Para enfrentar os desafios impostos pelos congestionamentos, as cidades irão precisar cada vez mais implementar soluções de transporte inovadoras que atendam às necessidades e preferências da crescente população urbana. Como discutido no Relatório Tendências Globais 2017-2020, “A Centralidade da Governança“, as áreas urbanas estão explorando cada vez mais o uso de novas tecnologias, como veículos autônomos, viagens compartilhadas e entregas por drones.

As cidades estão também reorientando antigas tecnologias para ajudar a reduzir congestionamentos e melhorar o transporte coletivo. Por exemplo, o BRT – que usa faixas dedicadas e estações especiais de embarque e desembarque de ônibus – atualmente passa por um ressurgimento popular. Estações de bicicletas compartilhadas também estão decolando, ao combinar a inovação de plataformas de compartilhamento e dispositivos móveis com o tradicional meio de transporte que é a bicicleta. Ofo e Mobike, duas companhias líderes do meio, valem ambas três bilhões de dólares e estão se expandido progressivamente pela China, Singapura, Estados Unidos e Reino Unido, entre outros.

Não existe uma solução única para os congestionamentos; é a mescla de novas tecnologias e sistemas que ajudará as cidades a lidarem com os desafios do transporte. As áreas urbanas que forem capazes de enfrentar os congestionamentos de maneira local e adequada à sua realidade terão uma vantagem competitiva, atraindo talentos e empresas, que por sua vez trazem mais oportunidades de trabalho, prosperidade e aumentam a qualidade de vida.

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Este post foi escrito por Paul A. Laudicina e publicado no TheCityFix.

Paul A. Laudicina é sócio e presidente emérito da A.T. Kearney e presidente do Global Business Policy Council. Além de mais de 40 anos de experiência no setor privado, Paul atuou no setor público, inclusive como diretor legislativo do então senador Joseph Biden de 1977 a 1982.