Londres: os riscos e benefícios do crescimento urbano compacto

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Londres: capital inglesa é um exemplos dos benefícios e desafios do crescimento compacto (Foto: Pedro Szekely/Flickr)

Islington é a área mais densa do Reino Unido – no entanto, ao vagar pelas ruas tranquilas do bairro no norte de Londres, é difícil imaginar quantas pessoas vivem ali. Belos terraços, praças elegantes e uma série de parques disfarçam o fato de que são quase 14 mil pessoas por quilômetro quadrado na região.

Em comparação, qualquer um passando por Southwark, na margem oposta do Tâmisa, percebe de imediato a quantidade de pessoas que vivem e trabalham na área. Novos edifícios pairam sobre as vias mais largas enquanto construções antigas ocupam o miolo do bairro. Os carros vagarosamente atravessam a congestionada rotatória e o ar é carregado de poluição. Ainda assim, Southwark tem menos de 10 mil moradores por quilômetro quadrado – significativamente menos denso do que muitos de seus bairros vizinhos do norte, como Kensington, Chelsea, Hackney, Camden, Tower Hamlets e, claro, Islington.

Se bem gerenciado, o aumento do número de pessoas vivendo e trabalhando em determinada área pode gerar diversos benefícios para uma cidade. A produtividade cresce à medida que as pessoas gastam menos tempo e dinheiro em seus deslocamentos e contam com um ambiente que as propicie compartilhar conhecimentos e ideias de forma mais livre. Os negócios podem reduzir os custos de produção se tiverem acesso a mais fornecedores e potenciais funcionários. E é mais barato oferecer serviços como saúde, coleta de lixo e transporte conforme mais pessoas os utilizam.

Contudo, também há riscos. Pela primeira vez, pesquisadores estimaram o valor monetário desses benefícios, revelando tanto os efeitos positivos quanto negativos para as pessoas. Os resultados foram publicados no primeiro relatório da Coalizão para Transições Urbanas (do inglês Coalition for Urban Transitions), uma rede de mais de 20 organizações dedicada a fortalecer o desempenho econômico, social e ambiental das cidades.

Ganhos de produtividade, custos com habitação

Consolidado a partir de uma série de artigos já publicados sobre o tema, o relatório “Desmistificando o crescimento urbano compacto” demonstra que o aumento da densidade populacional gera retornos econômicos significativos. Os autores descobriram, por exemplo, que um aumento de 10% no número de pessoas que vivem e trabalham em determinada área leva a um aumento na produtividade de US$ 71 (ou R$ 224) por pessoa por ano. O melhor acesso a oportunidades de emprego vale US$ 62 (R$ 196), e a serviços e amenidades, US$ 49 (R$ 155). O aumento da densidade populacional também está associado a melhoras ambientais, incluindo a preservação de áreas verdes e mais eficiência energética. Se todas as outras variáveis forem consideradas iguais, isso implica que cidades compactas como Hong Kong, Nova York e Paris tendem a ser mais ricas e sustentáveis que cidades esparsas como Houston ou Melbourne.

Café em Inslington, Londres: acesso a serviços e amenidades é um dos benefícios de uma cidade compacta (Foto: Lucy Fisher/Flickr)

Uma cidade mais compacta, todavia, não é uma solução mágica – também existem riscos associados ao aumento da densidade populacional. É necessário um processo de planejamento urbano atento e cuidadoso para mitigar esses riscos e alcançar o potencial econômico e os benefícios já citados.

Em primeiro lugar, o mesmo aumento de 10% no número de pessoas que vivem e trabalham em determinada área também pode causar mais congestionamentos, com um custo estimado de US$ 35 (R$ 110) por pessoa por ano. Assim, o investimento em transporte coletivo, ciclovias e infraestrutura para pedestres é essencial para garantir que as pessoas possam se deslocar sem carro.

Um segundo ponto diz respeito ao custo da habitação: o aumento de 10% na densidade eleva os gastos com moradia a US$ 240 (R$ 757) por pessoa por ano. Tamanha alta nos preços pode ser benéfica para quem possui um imóvel próprio ou alugam para outras pessoas, mas torna-se um desafio para os inquilinos. Na medida em que são as famílias de renda mais baixa que tendem a procurar imóveis para alugar, há o risco de que as políticas de uma cidade compacta acentuem a desigualdade.

As administrações municipais podem evitar esse aumento nos custos com habitação por meio de políticas habitacionais que garantam o aumento da oferta. Um fluxo constante de novas casas e prédios entrando no mercado pode ajudar a reverter o aumento dos preços causado pela densidade.

As lições de Londres

No século XIX, Londres deu início a uma série de ambiciosos projetos de infraestrutura que continuam a moldar a cidade até os dias de hoje. A primeira linha de metrô do mundo foi aberta na capital inglesa em 1863; hoje, o London Underground, como é chamado o metrô da cidade, transporta uma média de cinco milhões de passageiros por dia.

Na década de 1860, uma vasta rede de esgoto e drenagem foi construída para atender às três milhões de pessoas que viviam em Londres na época. Esses canos foram responsáveis pelo fim das ondas de disenteria, febre tifoide e cólera que atingiam a cidade e são utilizados até hoje por mais de oito milhões de londrinos. Investimentos como esses, feitos a partir de uma visão de longo prazo, permitiram que as pessoas passassem a viver e trabalhar mais próximas, ajudando a sustentar o crescimento econômico e populacional da cidade por mais de um século.

Uma caminhada em Londres hoje permite perceber que a cidade está lutando para gerenciar bem a densidade populacional. Apesar da nova expansão do Crossrail (sistema de trem) e da proliferação de ciclovias e dos icônicos ônibus vermelhos em diversas ruas, muitas pessoas continuam a depender do carro para seus deslocamentos. Como resultado, Londres têm o pior índice de qualidade do ar na Europa Ocidental – a exposição em um dia normal equivale a fumar 15 cigarros.

Os problemas vão do transporte à habitação. Os preços dos imóveis em Islington dobraram na última década, um período em que os salários permaneceram estagnados. O crescente valor dos imóveis são a principal preocupação de inquilinos em dificuldade e potenciais compradores. A cidade precisa construir mais de 50 mil casas por ano para acompanhar o crescimento da população e, ao mesmo tempo, reparar décadas de negligência com o estoque habitacional. As falhas da política habitacional de Londres ficaram claras com o incêndio que atingiu a Grenfell Tower em junho deste ano.

Milhares de pessoas mudam-se para Londres todos os anos em busca das oportunidades econômicas e sociais oferecidas pela cidade. O dinamismo da capital inglesa deve-se – e não pouco – à alta densidade populacional. Por outro lado, o sistema de transporte saturado e os preços oscilantes dos imóveis ressaltam a importância de intervenções estratégicas por parte do governo municipal para gerenciar os riscos do adensamento populacional. Investimentos de larga escala no transporte coletivo e em habitação são fundamentais para assegurar que cidades compactas também sejam habitáveis e financeiramente viáveis para as pessoas.

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Este post foi escrito por Sarah Colenbrander e publicado no CityMetric e no TheCityFix.

Sarah Colenbrander é pesquisadora no Instituto Internacional para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento e economista sênior na Coalização para Transições Urbanas. O relatório “Desmistificando o crescimento urbano compacto” foi desenvolvido para a Coalizão pela Organização para a Cooperação Econômica e Desenvolvimento (OECD).