Carolina Tohá: “Sempre haverá resistência, mas isso não é motivo para não fazer”

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Carolina Tohá, ex-prefeita de Santiago (Foto: Mariana Gil/WRI Brasil)

Primeira mulher eleita pelo voto para ser prefeita de Santiago, Carolina Tohá promoveu uma transformação na capital chilena durante sua gestão, entre 2012 e 2016. Através do Plano Integrado de Mobilidade, a hoje ex-prefeita colocou em curso uma série de intervenções para qualificar o espaço urbano, como melhorias nas calçadas, infraestrutura cicloviária e mais espaço para o transporte coletivo.

As mudanças envolveram a criação de novas áreas verdes, repavimentação de ruas, melhora da iluminação pública, revitalização de áreas abandonadas e o redesenho das principais vias do Centro Histórico a partir do conceito de Ruas Completas, garantindo mais espaços aos pedestres e ao transporte coletivo.

antes-depois

Proposta de redesenho viário do Plan Centro (Imagem: Plan Integral de Movilidad)

Com a priorização dos ônibus, o tempo de viagem caiu pela metade. As calçadas mais amplas levaram a um aumento de 20% a 30% nas vendas, reduziram os níveis de ruído e criaram um ambiente mais confortável para a circulação das pessoas. O investimento em infraestrutura cicloviária também levou a um aumento significativo no uso da bicicleta: de 150 a mais de 5 mil viagens por dia. Como resultado, Santiago foi a vencedora do Sustainable Transport Award 2017, prêmio oferecido às cidades que se destacam na promoção do transporte sustentável.

No último dia 18, Carolina esteve em São Paulo para o seminário que debateu com comerciantes os benefícios da infraestrutura de mobilidade ativa para a economia. Conversamos com a ex-prefeita sobre as mudanças feitas na capital chilena, como convencer os comerciantes de que a mudança no perfil das vias pode ser positiva para as vendas e como a mobilidade afeta o ambiente urbano em seu entorno.

Como convencer tomadores de decisão e comerciantes de que a mobilidade ativa pode beneficiar seus negócios e a economia da cidade?

No caso de Santiago, aconteceu de termos no poder ao mesmo tempo muitas autoridades com uma visão comum nesse sentido. Então dialogamos com os atores envolvidos e os convencemos de que o impacto seria positivo. Claro, muitas dessas pessoas não se convenceram e foram contrárias às intervenções, porque é muito difícil conseguir a unanimidade. Mesmo assim, é sempre preciso buscar o diálogo. Por exemplo: aqui [no Seminário “Economia, comércio e mobilidade ativa] representantes de comerciantes demonstram sua preocupação com o processo de carga e descarga de mercadorias. É uma preocupação legítima, e é necessário que tenha uma resposta. Há pessoas que mesmo recebendo essa resposta continuarão contrárias a essas medidas [de priorização do transporte ativo], mas o diálogo gerou um fruto importante: a consideração de seu ponto de vista e de suas preocupações. Assim, acredito que é preciso mesclar – os que estão convencidos, o comprometimento político e o diálogo –, mas não se pode esperar a unanimidade. Não conheço uma sequer dessas políticas que tenha sido implementada sem resistência. Sempre haverá resistência, mas isso não é motivo para não fazer.

O que mudou na vida das pessoas em Santiago depois das mudanças feitas com o Plan Centro?

Acredito que o principal é que plantamos uma semente. Ainda não é uma colheita, mas a semente de que é possível organizar a mobilidade de outra maneira. Que é possível imaginar um modelo de sucesso que não seja uma via com limite de 120 km/h, mas uma cidade de escala humana. Onde se caminha, onde se anda um pouco mais devagar, mas onde nada está parado. Porque a verdade é que uma cidade a 120 km/h é uma cidade que anda a 3 km/h, essa é a experiência cotidiana. O que mais mudou em Santiago foi exatamente isso, conseguir plantar essa ideia de uma mudança de paradigma – e então começamos a somar vontades. Organizações da sociedade começaram a se unir, novos movimentos acadêmicos começaram a surgir, experiências positivas começaram a ser replicadas em outros municípios. Ainda assim, estamos longe de ver uma quebra no paradigma central. Apenas começamos esse processo.

Plaza de Armas, uma das áreas requalificadas no centro de Santiago (Foto: Greg Poulos/Flickr)

Na sua visão, o que as cidades brasileiras, que enfrentam desafios similares, podem fazer para seguir o exemplo de Santiago?

Não posso afirmar o que é preciso fazer aqui, cada contexto tem suas necessidades e particularidades. Mas acredito, sim, que nossos problemas são similares. E, para mim, o ponto mais semelhante é a maneira como organizamos a mobilidade, que teve como consequência a replicação e por vezes mesmo a ampliação de nossas desigualdades sociais. Porque são as pessoas menos favorecidas de nossas cidades as que vivem mais longe dos centros urbanos, as que mais utilizam o transporte coletivo, as que gastam mais tempo com seus deslocamentos diários, as que vivem com mais insegurança, as que são mais contaminadas por doenças. Nossa prioridade deve ser melhorar as condições para esse grupo, que é ao mesmo tempo muito significativo e pouco favorecido. Lamentavelmente, porém, as políticas de transporte não costumam ter esse foco. Porque o paradigma estava errado. E isso é algo que, na minha visão, as cidades do Chile e do Brasil têm em comum. Agora, a maneira como resolveremos essas questões, quais são os passos, quais são as características da política de transporte, são tópicos que devem ser debatidos e respondidos em cada cidade, de acordo com sua realidade.

Qual a relação entre a maneira como pensamos a mobilidade e o ambiente urbano no entorno?

Mobilidade gera transporte, isso é fato. Mas há um aspecto da mobilidade à qual não prestávamos atenção no passado e que hoje estamos começando a observar: a mobilidade também gera ambiente urbano. A maneira como se planeja e organiza a mobilidade vai determinar a paisagem urbana e a experiência das pessoas de viver nessa cidade. Por isso, é muito importante que, ao tomar decisões referentes à mobilidade, se tenha consciência de seus impactos – da relação com os espaços públicos, comércio, segurança, patrimônio histórico, qualidade da saúde, do bem-estar das pessoas. Todas essas dimensões estiveram ausentes por muito tempo no planejamento da mobilidade. Hoje, devem estar no coração das decisões. São o elemento central de uma perspectiva integrada da cidade. Mobilidade não é apenas meio transporte ou tempo de viagem, é muito mais do que isso.