As demandas flutuantes na mobilidade urbana

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Terminal BRT lotado no Rio de Janeiro (Foto: Mariana Gil/WRI Brasil)

Gostaria de tratar de um tema que pode ajudar a compreender melhor o tamanho dos desafios a serem vencidos para a oferta universalizada de serviços urbanos básicos, responsáveis pela qualidade de vida das cidades. Refiro-me à natureza das demandas sociais reprimidas por tais serviços. De um modo geral, essas demandas são, sim, substanciais – mas em alguns casos podem acabar ampliadas, ou, melhor dizendo, contabilizadas impropriamente.

Um exemplo: no Rio de Janeiro, uma mulher, com o filho no colo, pega um trem às seis da manhã na estação de Japeri e desce em Ricardo de Albuquerque. Ela vai a uma unidade de saúde em busca de atendimento público para a criança, que, em princípio, exige um atendimento especializado indisponível na sua cidade. Esse motivo de viagem, muito presente nas periferias da Região Metropolitana do Rio, ajuda a engrossar as estatísticas que alavancam os números da demanda de transporte coletivo de alta capacidade.

À primeira vista, não deixa de ser verdade. Porém, se analisarmos mais a fundo o que leva essa mulher a realizar essa viagem no horário de pico, chegaremos à conclusão de que o verdadeiro problema é a falta de assistência de saúde pública adequada na sua cidade – e não necessariamente uma questão de mobilidade urbana a ser resolvida. Diante da necessidade de atendimento de saúde, ela procura a solução disponível mais próxima. Sua escolha, por falta de alternativa, aumenta falsamente a demanda por transporte e também por serviço de saúde na unidade escolhida, localizada em outro município.

Na verdade, falamos de “falsas demandas” ou de demandas transferidas de um serviço público essencial para outro, mas ambos possuem custos e possibilidades de atendimento completamente distintos. Sem dúvida, será muito mais barato e sustentável garantir o atendimento da demanda por serviços básicos nos locais onde são procurados do que procurar alternativas de oferta de transporte para solucionar um conjunto de demandas que, no fundo, não dizem respeito necessariamente à mobilidade. Isso tem muito mais a ver com a distribuição equânime e justa de equipamentos sociais básicos.

O exemplo fictício escolhido serve apenas para demonstrar que, nos serviços públicos essenciais à vida urbana digna, existe uma parcela considerável de demandas não atendidas deslocadas. Distingui-las certamente contribuirá para olharmos com mais otimismo para o futuro. É, portanto, indispensável fazer o exercício de “desidratação” para algum diagnóstico sobre o tamanho dos desafios da urbanização presente nas nossas cidades. Há muitas necessidades que podem estar fora do lugar.

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Vicente Loureiro é diretor executivo da Câmara Metropolitana de Integração Governamental do Rio de Janeiro.