Manifesto pela Mobilidade Ativa chega às mãos de Patrícia Espinosa

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Patrícia se surpreendeu com o número de movimentos organizados que tratam o tema da mobilidade ativa no Brasil (Foto: Arquivo Pessoal/Aline Cavalcante)

No último dia 3 de agosto, a Secretária-Executiva da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (UNFCCC), Patrícia Espinosa, abriu seu gabinete em Bonn, na Alemanha, para conversar com essa que vos fala, uma ativista incansável na luta por cidades que respeitem pedestres e ciclistas.

Como já contei neste outro post, o convite partiu do ex-prefeito da Cidade do México e hoje presidente da United Nations Global Network on Safer Cities (Rede Global das Nações Unidas em Cidades Seguras), Marcelo Ebrard, durante minha passagem pela conferência What Design Can Do – Climate Change, realizada em Amsterdã em maio desse ano.  Me preparei bastante para essa conversa. Fui estudar quem era Espinosa, sua função e qual o papel da UNFCCC para as negociações de clima.

Sobre a UNFCCC

Vou resumir rapidamente o que aprendi. A UNFCCC foi adotada durante a Cúpula da Terra do RJ, em 1992, e é constituída por 195 países, as “Partes” da Convenção. Ela é uma convenção universal de princípios, reconhecendo a existência de mudanças climáticas antropogênicas – ou seja, de origem humana – e dando aos países industrializados (ou desenvolvidos) a maior parte da responsabilidade para combater os efeitos das mudanças no clima da Terra.

A Conferência das Partes (COP), constituída por todos os Estados Partes, é o órgão decisório da UNFCCC. Reúne-se a cada ano em uma sessão global onde as decisões são tomadas para cumprir as metas de combate às mudanças climáticas. As decisões só podem ser tomadas por unanimidade ou por consenso entre os países.

A COP21, realizada em 2015 em Paris, foi um marco nas negociações de clima ao conseguir que todas as nações se comprometessem com o objetivo de manter o aquecimento global abaixo dos 2°C até 2030 ao assinar o Acordo de Paris.

Dentro desse contexto, Patrícia Espinosa tem um papel muito importante como Secretária-Executiva da Convenção. Ela – em nome de todo o secretariado – é hoje a figura que busca encontrar formas diplomáticas de “cobrar” os países por seus compromissos, garantir que os processos andem mais rápido e elaborar as regras de aplicação do acordo.

O Manifesto

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Mobilidade a pé e de bicicleta precisam ser incentivadas ao redor do mundo. (Foto: Daniel Hunter/WRI Brasil)

Pensando que ela é essa pessoa que está no auxílio à ratificação das metas do Acordo, ajudando os países a planejarem e cumprirem os compromissos assumidos por eles, elaborei, em parceria com cerca de 20 entidades, o Manifesto pela Mobilidade Ativa: Foco em caminhar e andar de bicicleta como meios de transporte relevante, pacífico, humano e de emissão-zero.

O objetivo do documento é estabelecer diante das Nações Unidas um marco público e político sobre a importância da mobilidade ativa – o estímulo à bicicleta e ao caminhar – como formas reais, simples, rápidas, de baixo custo e de alto impacto para se reduzir desigualdades sociais e as emissões de gases de efeito estufa e de poluentes locais em cidades do mundo todo.

No documento, encontram-se alguns compromissos globais, orientações e pedidos para impulsionar a mobilidade ativa, especialmente nos países do sul global e em desenvolvimento – onde as indústrias automobilísticas e petrolíferas têm bastante força nessa guerra, emissões e omissões.

Além do Manifesto pela Mobilidade Ativa, eu também entreguei a Patrícia:

“Estou muito surpresa com a qualidade dos documentos que recebi e em saber que existem tantos movimentos organizados em torno dessa temática no Brasil. De fato, a mobilidade ativa é algo fundamental para o desenvolvimento das cidades, mas é como se pedestres e ciclistas estivessem implícitos no debate, ou seja, estão presentes nas negociações mas não estão tão claros como deveriam. Obrigada a todos por terem conseguido me trazer esse olhar mais fortemente. Acredito que as Agências ligadas à ONU precisam ampliar suas atuações nessa agenda urbana e contem comigo para isso. Vou ajudar no que for possível para que isso ocorra”, comentou Patrícia durante a entrega dos Manifestos.

Conversar com a mexicana Patrícia Espinosa me proporcionou um novo respiro, um novo gás na luta por cidades mais calmas e seguras, inclusivas e diversas. Temos muito trabalho pela frente e a cada novo espaço de incidência que se abre fica nítido pra mim que precisamos estar cada dia mais juntos, fortes e articulados para promover a transformação por todos os lados, com clareza e consciência sobre nosso papel no jogo.

Vamos em frente!  

Agradeço a todas as organizações e pessoas que assinaram o manifesto e deram apoio para que esse encontro acontecesse. Em especial Movimiento Progresista do México, Fundación Pensar e What Design Can Do pela oportunidade e todo suporte e ao Engajamundo pela inspiração e aulas de negociação climática. Leia mais no site da UCB

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Aline Cavalcante é jornalista, empreendedora social no oGangorra e luta pelos direitos de pedestres e ciclistas nas cidades desde 2009. Seu trabalho a tornou reconhecida internacionalmente após a participação como personagem principal no documentário Bikes vs Cars.