No dia do pedestre, a relevância da conectividade para a mobilidade a pé

Planejar para o pedestre é pensar em todo o sistema de mobilidade. (Foto: Mariana Gil/WRI Brasil)

Planejar para o pedestre é pensar em todo o sistema de mobilidade (Foto: Mariana Gil/WRI Brasil)

Esse post foi escrito com a colaboração de Paula Santos.

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Hoje, 8 de agosto, é uma data para celebrar todas as pessoas do mundo. Não importa o gênero, a idade, a nacionalidade, a etnia. Nesse Dia Internacional do Pedestre, o TheCityFix Brasil quer lembrar que todos nós somos pedestres. Mesmo que o carro seja o seu principal meio de transporte, você, ainda assim, é um pedestre – do momento que você estaciona seu veículo e caminha até o seu destino. Isso vale também se você usa ônibus, metrô ou bicicleta.

Durante décadas esquecido em estreitas faixas ao longo das vias urbanas, o pedestre ganhou mais espaço no planejamento urbano após a instituição da Política Nacional de Mobilidade Urbana, em 2012. A Lei orienta as cidades a priorizar os modos de transporte não motorizados sobre os motorizados. Isso pode parecer pouco em palavras, mas, na verdade, muda um hábito já radicado nas cidades de privilegiar o carro na comparação com meios mais saudáveis de deslocamento.

Se todos somos pedestres, por que as cidades não são mais caminháveis? Isso acontece por algumas razões políticas, econômicas e culturais. Uma delas diz respeito à forma com que as cidades contam os deslocamentos de pedestres realizados nas cidades. Essa medida fornece informações para os governos decidirem dedicar ou não recursos para qualificar o meio de transporte a pé. Acontece que na maioria das vezes são contabilizados apenas os deslocamentos realizados inteiramente a pé, desde a origem até o destino final. E os outros pedestres?

Aqueles que caminham longas distâncias até o ponto de parada do ônibus ou estação de metrô contabilizariam muito mais pedestres nessa conta. Estes são os responsáveis pelo chamado last mile, ou “último quilômetro”, a parte final do percurso que uma pessoa realiza para chegar até a estação de transporte. Se identificássemos essas pessoas como pedestres, ficaria mais clara a necessidade de pensarmos e planejarmos com atenção o espaço público para as pessoas nas cidades.

No entanto, o fato mais relevante a se pensar quando projetamos o last mile são as condições de caminhabilidade. Por exemplo, uma pessoa não se sentiria estimulada a caminhar nem 100 metros se fosse ao lado de uma rodovia que permita altas velocidades para os automóveis. Porém, pode estar disposta a caminhar mais de um quilômetro se o trajeto for bem pavimentado, arborizado, com fachadas ativas, travessias sinalizadas e tempo suficiente e razoável nos semáforos. Enfim, onde ela se sinta segura.

A segurança para se chegar a um ponto ou estação de transporte coletivo pode determinar a disposição das pessoas de usar o serviço. Além disso, quanto mais usuários optam pelo transporte coletivo, mais qualidade ele terá. Essa troca se mostra em números. Um levantamento feito no ano passado pela Autoridade de Trânsito da Área Metropolitana de Washington (WMATA), nos Estados Unidos, por exemplo, buscou demonstrar os benefícios dos investimentos feitos para pedestres acessarem as estações do sistema de metrô.

Em uma amostra de 62 projetos que receberam investimentos “relativamente pequenos” no valor de US$ 13 milhões para serem realizados, o estudo concluiu um retorno de mais de US$ 24 milhões ao longo dos 30 anos de vida útil dos projetos, um lucro de US$ 11 milhões. Melhorias na infraestrutura para bicicletas foram calculadas a partir da análise de dados dos acidentes de ciclistas. A implementação de 141 projetos para bicicletas estima-se que tenha evitado 84 acidentes por ano na área do entorno das seis estações analisadas. Ao calcular os gastos médios associados a lesões por acidentes de bicicleta, foram economizados US$ 11 milhões.

“Melhorar o acesso de pedestres e ciclistas não apenas faz o Metro mais atraente para aqueles que já vivem e trabalham a uma distância caminhável e ciclável de cada estação, mas ainda ajuda a aumentar o número de passageiros à medida que essas melhoras vão ocorrendo ao redor das estações. Juntos, ao melhor conectar existentes e futuros usos do solo, investimentos relativamente pequenos podem ter benefícios duradouros para o Metro, seus fundadores, e a região”, afirma o relatório.

Mais pessoas podem ser levadas ao transporte coletivo conforme o acesso for facilitado. (Foto: Mariana Gil/WRI Brasil)

Mais pessoas podem ser levadas ao transporte coletivo conforme o acesso for facilitado (Foto: Mariana Gil/WRI Brasil)

Os pesquisadores ressaltam ainda que melhorar o acesso a pé às estações tem ligação direta com o aumento das receitas vindas das tarifas do sistema. “Melhorar o acesso de bicicletas e pedestres às estações do Metro ajuda a estabilizar o número de passageiros diários e reduzir o crescimento do subsídio público ao sistema”, diz o texto.

A pesquisa deixa claro que melhorias na infraestrutura para pedestres aumentam o número de usuários do transporte coletivo, que por sua vez gera mais receita e tem condições de melhorar a qualidade de seu sistema, fator que também atrai passageiros ao sistema. É um simples processo de causa e consequência. A qualificação do last mile se prova imperativa para que o transporte coletivo se torne a melhor opção para os deslocamentos diários ante o transporte individual.

Acessos seguros

O bom planejamento de infraestruturas para pedestres é um fator fundamental para o incentivo à mobilidade sustentável. “À medida que as cidades constroem e ampliam seus sistemas de transporte, cresce a necessidade de delinear um processo integrado de planejamento, implantação e avaliação de projetos que garantam qualidade e conforto aos usuários, especialmente nas áreas do entorno das estações de transporte coletivo de média e alta capacidade, que atraem diariamente milhares de pessoas”, diz a publicação do WRI Brasil, Acessos Seguros – Diretrizes para qualificação do acesso às estações de transporte coletivo.

O guia trata a necessidade de melhoria da acessibilidade no entorno das estações levando em conta as características especiais e particulares de cada local. Essas especificidades vão desde o número de pessoas que circulam na região, até o uso do solo – residencial, comercial, empresarial, etc. – e as características históricas e ambientais.

“É fundamental que se tenha uma compreensão da área da estação para determinar quais os principais problemas e questões prioritárias a se intervir. Com base na coleta de dados, será possível fazer uma documentação sistematizada visando à elaboração do plano de ação, assim como do projeto para o entorno de estação”.

O conteúdo da publicação apresenta ainda cinco princípios de projeto a serem incorporados na concepção ou melhoria do entorno de estação de transporte de média e alta capacidades.

– Prioridade para pedestres e ciclistas;
– Integração eficiente com outros modos de transporte;
– Maior segurança e proteção;
– Gestão de estacionamento;
– Qualificação do espaço público.

A calçada é um dos elementos vitais para a promoção do caminhar, para fazer com que mais pessoas percebam as vantagens de andar a pé em vez de apenas sentar dentro de um carro, especialmente em deslocamentos curtos. Para que desempenhem o papel de promotoras da mobilidade a pé, as calçadas devem representar muito mais do que um caminho pavimentado. O guia 8 Princípios da Calçada – Construindo cidades mais ativas, desenvolvido pelo WRI Brasil, traz um olhar completo para o universo das calçadas, com integração entre regulamentação, planejamento e execução.

Segundo a publicação, a construção de calçadas deve seguir oito princípios de forma complementar e interligada para que o conjunto possa caracterizar uma calçada adequada: dimensionamento adequado, acessibilidade universal, conexões seguras, sinalização coerente, espaço atraente, segurança permanente, superfície qualificada e drenagem eficiente. Todos esses elementos permitirão que todas as pessoas possam se locomover com segurança.

As cidades devem compreender que o desenho urbano irá afetar a maneira como que a sociedade se comporta. Reconhecer as vantagens do transporte a pé e o efeito que investimentos em infraestruturas seguras podem causar no incentivo ao transporte coletivo é o primeiro passo para um planejamento holístico que transformará a mobilidade urbana de hoje em diante.