Ir de bicicleta para o trabalho: os benefícios são ainda maiores

A infraestrutura para o pedalar pode influenciar na saúde pública. (Foto: Sergio Trentini/WRI Brasil Cidades Sustentáveis)

A infraestrutura para o pedalar pode influenciar na saúde pública. (Foto: Sergio Trentini)

Pensar na bicicleta como meio de transporte diário é vencer a ideia de que não temos mais tempo para praticar exercícios físicos e, por isso, não levamos uma vida mais ativa. Em tempos em que os benefícios da bicicleta já são bem claros, um novo estudo, talvez o maior já feito a respeito, traz ainda mais evidências sobre os efeitos positivos que pedalar garante à saúde.

A bicicleta como meio de transporte está presente até mesmo na Nova Agenda Urbana, documento que tem o objetivo de guiar a maneira como as cidades são planejadas para os próximos 20 anos. Ela é incluída não apenas nas recomendações do setor de transporte, mas também em políticas de inclusão e espaços públicos. Essa importância é comprovada por levantamentos que ressaltam os benefícios econômicos e sociais de pedalar.

Pesquisas anteriores já indicavam os benefícios da bicicleta e da caminhada para a saúde cardiovascular do ser humano. Desta vez, o novo estudo, publicado no British Medical Journal, analisou os hábitos de 263.540 pessoas (52% mulheres) com uma idade média de 53 anos, que estavam em um emprego remunerado ou trabalhavam por conta própria, e nem sempre trabalhavam em casa. Os entrevistados foram perguntados sobre os meios de transporte que normalmente utilizam: carro, transporte coletivo, caminhada, bicicleta ou uma combinação das opções. A partir daí, foram divididos em cinco categorias: não-ativos (usuários de carro e transporte coletivo); apenas pedestres; ciclistas (incluindo pessoas que também se deslocavam a pé); uso misto com caminhar (pedestres e não-ativos); uso misto com pedalar (ciclistas, não-ativos e incluía pessoas que também se deslocavam a pé).

Os pesquisadores acompanharam os participantes por cerca de cinco anos, contabilizando as ocorrências de doenças cardiovasculares, câncer e morte. Foram levados em consideração as diferenças de sexo, idade, privações físicas, etnia, fumantes, índice de massa corporal, outros tipos de atividade física praticados, tempo gasto sentado e dietas alimentares. Todas as possíveis diferenças de risco associadas aos acidentes viários também foram contabilizadas na análise, enquanto os participantes que já tinham doença cardíaca ou câncer foram excluídos da análise.

Os resultados impressionam

Pedalar ao trabalho está associado a um risco 41% menor de morrer (por qualquer causa) do que fazer esse deslocamento de carro ou transporte coletivo. Ciclistas têm 52% menos risco de morrer por doença cardíaca e um risco 40% menor de morrer de câncer. Eles também têm 46% menos risco de desenvolver doenças cardíacas e um risco 45% menor de desenvolver câncer.

A bicicleta pode ser usada também para completar um deslocamento ao trabalho. (Foto: Priscila Pacheco/WRI Brasil Cidades Sustentáveis)

A bicicleta pode ser usada também para completar um deslocamento ao trabalho. (Foto: Priscila Pacheco/WRI Brasil)

Os ciclistas de modo misto tiveram um risco 24% menor de morrer por todas as causas, um risco 32% menor de desenvolver câncer e um risco 36% menor de morrer de câncer. Quanto maior a distância do deslocamento, a maior a tendência de haver redução no risco de morte, tanto para ciclistas quando para pedestres. E mesmo as pessoas que pedalam apenas parte do trajeto ao trabalho já têm benefícios. Esse dado é muito importante, já que muitas pessoas não consideram usar a bicicleta ao trabalho por se tratar de uma distância muito grande. Porém, esquecem que o caminho pode ser dividido em mais de um meio de transporte.

Caminhar ao trabalho não está associado a um risco menor de morrer por todas as outras causas. No entanto, as pessoas que caminham ao trabalho sofrem risco 27% menor de ter uma doença cardíaca e um risco 36% menor de morrer por causo disso. Os pesquisadores ressaltam que, para os que caminham ao trabalho, as distâncias mais longas garantem benefícios mais significativos: por se tratar de um exercício menos intenso do que pedalar, o transporte a pé é menos benéfico que a bicicleta.

As conclusões do estudo representam um bom ponto de partida para os tomadores de decisão passarem a investir na cultura da mobilidade ativa, já que ambos podem fazer uma grande diferença na saúde pública. É de grande importância para a qualidade de vida da população incentivar especialmente o uso da bicicleta como meio de transporte, criando malhas cicloviárias de qualidade e conectadas, sistemas de aluguel de bicicletas, programas de compra de bicicletas subsidiadas, e instalando elementos que facilitem o estacionamento de bicicletas ou o transporte delas no transporte coletivo. Para os que andam a pé, a qualidade das calçadas e o acesso seguro ao transporte coletivo também são fatores decisivos no fomento ao caminhar.