Em oito anos, carros movidos a combustíveis fósseis não serão mais vendidos

Os baixos custos do carro elétrico deve inverter a lógica atual e tornar os carros a diesel obsoletos. (Foto: Hatters!/Flickr-CC)

Os baixos custos do carro elétrico deve inverter a lógica atual e tornar os carros a diesel obsoletos. (Foto: Hatters!/Flickr-CC)

É difícil de imaginar, mas já há quem afirme que em oito anos nenhum veículo a diesel será vendido em nenhuma parte do planeta. O economista Tony Seba, da Universidade de Stanford, fundador da consultoria de tecnologia RethinkX, aposta que a eletrificação nos levará a essa realidade em 2025.

Estamos à beira de uma das mais rápidas, profundas, mais consequente ruptura na história dos transportes.

É assim que a transformação que estamos por viver é definida pelo relatório “Rethinking Transportation 2020-2030“, da RethinkX (“Repensando o Transporte 2020-2030”, em tradução livre). A partir da análise de dados de mercado, consumo e dinâmicas regulatórias, os pesquisadores chegaram a conclusão de que, até 2030, após dez anos de aprovações regulatórias para os veículos autônomos (AVs), 95% das distâncias percorridas por passageiros nos Estados Unidos serão via veículos autônomos elétricos sob demanda. Veículos esses que pertencerão a companhias, não pessoas, dentro de um novo modelo chamado “transporte como serviço” (TaaS, na sigla em inglês de “transport-as-a-service“).

O “ponto de inversão” ocorrerá nos próximos dois a três anos: as baterias dos veículos elétricos (EV) serão capazes de superar 320 quilômetros percorridos, os preços desses veículos cairão nos Estados Unidos e os carros com motor de combustão interna entrarão em um círculo vicioso de custos crescentes. “O que a curva de custos nos mostra é que, até 2025, todos os veículos novos serão elétricos, todos os ônibus novos, todos os carros novos, tratores, vans, qualquer coisa que se mova sobre rodas será elétrica, globalmente”, aponta Seba.

“O modelo TaaS terá enormes implicações nas indústrias de transporte e petróleo, dizimando porções inteiras de suas cadeias produtivas, fazendo com que a demanda e os preços do petróleo caiam e modificando investimentos. Por outro lado, essa mudança também vai gerar trilhões de dólares em novas oportunidades de negócios, excedente de consumidores e crescimento do PIB”, relata o estudo. Os cálculos dos pesquisadores indicam, por exemplo, que uma família americana média economizará mais de 5,6 mil dólares por ano em custos de transporte, o equivalente a um aumento de salário de 10%. Isso deve manter um adicional de um trilhão de dólares por ano no bolso dos americanos até 2030, potencialmente gerando a maior infusão de gastos dos consumidores da história.

O processo que nos levará a esse cenário é simples. A aprovação de veículos autônomos fomentará um mercado altamente competitivo entre as empresas existentes e as novas pré-TaaS na expectativa de recompensas extraordinárias de trilhões de dólares em oportunidades de mercado e efeitos de rede. Provedores da plataforma pré-TaaS como Uber, Lyft e Didi já estão envolvidos, e outros se juntarão a essa corrida.

Capacidade das baterias devem determinar a expansão dos elétricos. (Foto: Håkan Dahlström/Flickr-CC)Neste ambiente de competição, as empresas oferecerão serviços a preços variando próximo ao custo. Como resultado, suas frotas passarão rapidamente de veículos de motor de combustão interna conduzido pelo homem para veículos elétricos autônomos (A-EV) devido a fatores-chave de custo, incluindo taxas de utilização de veículos dez vezes maiores, tempos de vida de veículos e custos de manutenção, energia, financiamentos e seguros muito menores. Assim, o TaaS vai oferecer alternativas de transporte por preços muito menores – de quatro a dez vezes mais baratos por milha do que comprar um carro novo e de duas a quatro vezes mais barato do que dirigir um veículo existente em 2021.

Para o meio ambiente, o TaaS poderá reduzir ou até eliminar a poluição do ar e os gases de efeito estufa do setor de transportes, contribuindo para melhorar a saúde pública. Além disso, acredita-se que o sistema também reduzirá a demanda de energia em 80% e as emissões de escape em mais de 90%. “Supondo uma disrupção concomitante da infraestrutura elétrica solar e eólica, nós poderemos ver um amplo sistema de transporte livre de carbono até 2030”, avalia o estudo.

Ainda, o grupo de Tony Seba prevê uma união do transporte privado e do público e um caminho para o transporte gratuito no modelo TaaS (como uma categoria do TaaS que sugere viagens compartilhadas – equivalente ao Uber Pool ou Lyft Line): “O papel das autoridades de transporte público irá mudar radicalmente de possuir e administrar meios de transporte, para administrar provedores do TaaS para garantir acesso a transporte de baixo-custo, equitativo e universal”.

Uso de diesel: o início do fim

O domínio desse novo modelo, conforme postula o relatório da RethinkX, deve ter início nas cidades, nas grandes áreas urbanas, e depois se espalhar para as pequenas cidades e então para as áreas rurais. E talvez já esteja começando.

Recentemente, a Sociedade dos Fabricantes e Comerciantes de Motores do Reino Unido reportou uma queda de 20% na produção de carros movidos a diesel no mês de maio em relação ao mesmo período do ano passado, tendência que vem se repetindo a cada mês. Isso representa uma queda da participação de mercado de 50% a 43,7%. O jornal inglês The Guardian atribui essa estatística à grande campanha negativa que circula sobre o impacto do diesel ao meio ambiente e à saúde das pessoas.

Apenas no Reino Unido, a poluição do ar foi ligada a aproximadamente 40 mil mortes prematuras por ano e 37 de 43 áreas do país excederam os limites legais do principal poluente no ar, o dióxido de nitrogênio, muito do qual provêm de motores a diesel.