Espaços Públicos: o que o planejamento urbano pode ganhar com a tecnologia

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Inovações tecnológicas podem modernizar o planejamento urbano e tornar políticas públicas e diretrizes mais eficientes e precisas (Foto: Steve Juvertson/Flickr-CC)

Nossas impressões de uma cidade são formadas principalmente pela qualidade dos espaços públicos. Se não forem agradáveis e conservados, se transmitirem uma sensação de insegurança, dificilmente voltaremos. O bom planejamento desses espaços deve ser a regra, não a exceção. Na série “Espaços Públicos”, exploramos diferentes aspectos relacionados aos espaços públicos que determinam nossa experiência cotidiana nas cidades. Este é o último post da série e mostra como a tecnologia pode contribuir para otimizar e qualificar o planejamento urbano.

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Ao longo das últimas décadas, o mundo viveu o crescimento da população urbana, que até 2050 deve chegar a dois terços da população mundial. Em paralelo, novos avanços tecnológicos facilitaram, otimizaram e/ou automatizaram uma série de atividades do nosso dia a dia. No entanto, mesmo com o número cada vez maior de pessoas vivendo nas cidades e a evolução da tecnologia, o planejamento urbano não se modernizou no mesmo ritmo, e ainda não somos capazes de construir espaços verdadeiramente propícios ao nosso bem-estar e felicidade.

A priorização do transporte motorizado, entre outros fatores, continua a gerar ambientes urbanos prejudiciais à saúde física e mental e sem a resiliência necessária para se adaptar ao futuro. Em uma de suas citações mais famosas, Jan Gehl comentou que “nós sabemos mais sobre o que são ambientes saudáveis para gorilas, tigres siberianos e ursos-pandas do que sabemos sobre um bom ambiente urbano para o homo sapiens”. Apesar de vivermos hoje na era do big data, a qualidade dos dados que possuímos sobre as cidades ainda é consideravelmente pobre. São dados que carecem de substancialidade e são, em sua maioria, desatualizados – e mesmo assim é a partir dessas informações que ainda formulamos as normas e políticas que orientam a construção de nossas cidades.

Contudo, a democratização da internet e dos smartphones, junto ao surgimento de novas tecnologias a cada dia, traz oportunidades de mudar a maneira como planejamos ruas, espaços públicos, bairros e a cidade como um todo.

Exposição no Centro de Planejamento Urbano da cidade de Liuzhou, na China (Foto: UTSEUS/Flickr-CC)

A queda dos preços e a miniaturização dos processadores permite a implantação de sensores em quase tudo: uma rede de sensores interligados em nossos relógios, roupas, calçados, lixeiras, carros, celulares e casas coleta e cria um fluxo de dados constante do qual muitas vezes sequer temos conhecimento. Precisamente, conforme artigo de Euan Mills, líder do programa Futuro do Planejamento, da Future Cities Catapult,  “2,9 milhões de e-mails enviados por dia, 20 horas de vídeos subidos no YouTube por minuto, 50 milhões de tweets por dia, sem contar a infinidade de posts nas redes sociais, buscas no Google e compras na Amazon que são continuamente monitorados”.

A combinação dessas vastas quantidades de dados com o poder de processamento pode ser aplicada no planejamento urbano e permitir que as cidades:

  • criem ferramentas capazes de monitorar e nos ajudar e compreender, de forma mais rápida e eficiente, o que faz com que bons espaços públicos sejam bons espaços públicos;
  • construam políticas públicas mais específicas e que possam ser regularmente ajustadas com base nos resultados, mensurados pelos dados;
  • tornem os processos de tomada de decisão mais inclusivos e transparentes.

Na prática, a tecnologia já modificou a maneira como vivemos e utilizamos as cidades. Aplicativos amplamente disseminados como Airbnb e Uber mudaram a maneira como ocupamos o ambiente urbano e nos deslocamos. Além deles, outras inovações mais sutis – mas igualmente impactantes – também estão alterando a forma como planejamos deslocamentos cotidianos: é o caso das informações em tempo real sobre o trânsito possibilitadas pelo Waze; o Citymapper, que integra todos os meios de transporte disponíveis para o cálculo da melhor rota; sem falar nas possibilidades de compartilhamento de bicicletas, oferta de caronas e espaços de co-working.

Para além do modo de vida, porém, inovações como essas (e as que ainda estão por vir) também têm o potencial de mudar radicalmente a maneira como planejamos e construímos as cidades. Se utilizadas nos processos de planejamento, podem traçar estratégias mais precisas e eficientes.

Tecnologia: oportunidades para o planejamento urbano

A tecnologia otimiza e qualifica o planejamento urbano ao permitir, por exemplo, a simulação do espaço urbano e sistemas de monitoramento em tempo real. Não apenas para elementos quantificáveis, mas para tudo o que é necessário saber sobre as cidades a fim de que o processo de planejamento urbano seja o mais preciso possível: se as habitações e construções estão sendo ocupadas, como as ruas são utilizadas e mesmo como as pessoas se sentem em parques e espaços públicos.

Já é possível observar passos nessa direção. Soluções como o UrbanPlanAR, por exemplo, exploram a realidade aumentada para simular novas edificações no local onde serão instaladas antes da construção. Outras, como Land Insight e Urban Intelligence, estão criando crescentes bancos de dados sobre políticas e aplicações de planejamento. A consolidação de dados ajuda a criar ferramentas que avaliam automaticamente as propostas de desenvolvimento em relação às políticas de planejamento e normas construtivas, antevendo uma série de aspectos, tais como: o impacto microclimático que a construção terá no entorno, em termos de bloqueio do vento e/ou da luz do sol; impactos visuais do empreendimento no bairro; qualidade habitacional; e até mesmo a viabilidade econômica.

A possibilidade de monitorar os impactos das políticas de planejamento permite que as gestões municipais estabeleçam planos mais flexíveis, que criem, essencialmente, lugares onde as pessoas queiram viver ou estar. Em vez de publicações fixas e estanques, podem ser instrumentos de mudança, adaptáveis conforme as necessidades da população e as mudanças no próprio ambiente urbano.

Acima de tudo, é preciso assegurar que os dados sejam abertos e acessíveis à população, que as ferramentas de planejamento sejam transparentes e que as políticas públicas e diretrizes sejam claras e responsáveis. Trata-se de qualificar as cidades e democratizar o próprio planejamento urbano. O resultado: cidades mais bem planejadas, com espaços públicos mais bem construídos e preparados para o ambiente em constante mudança característico das cidades.

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Este texto foi adaptado a partir do artigo “Planejando com números: a tecnologia pode nos ajudar a criar espaços melhores?”, de Euan Mills, publicado na coletânea “Making good – shaping places for people” (em português, “Fazendo o bem – formando espaços para pessoas”), produzida pela Centre for London e disponível aqui.