E as pessoas? Abrindo caminhos para comunidades socialmente sustentáveis e resilientes

 

Crianças brincando durante enchente causada por fortes chuvas em Kampung Melayu, Jacarta. (Foto: Kate Lamb/Wikimedia Commons)

Crianças brincando durante enchente causada por fortes chuvas em Kampung Melayu, Jacarta. (Foto: Kate Lamb/Wikimedia Commons)

Este post foi escrito por Cathy Baldwin e Robin King e originalmente publicado em inglês no TheCityFix.

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A rápida urbanização, o crescimento econômico e as mudanças climáticas aumentam a pressão sobre as comunidades urbanas em todo o mundo. Embora fortes estruturas físicas sejam importantes, as relações sociais desempenham um papel fundamental na construção da resiliência das comunidades urbanas durante eventos climáticos adversos.

A resiliência da comunidade é influenciada pela força das redes sociais e da coesão do bairro, duas características que determinam a sustentabilidade de uma sociedade (sobrevivência, saúde e funcionamento). Interagir, se dar bem – com ou sem diferenças sociais ou étnicas – e colaborar em iniciativas em grupo ajudam a sustentar comunidades em épocas normais e a responder resilientemente em tempos de crise. Esses fatores sociais podem melhorar a saúde, o bem-estar dos moradores, a qualidade de vida diária e a capacidade coletiva para lidar e se adaptar a desastres.

Construir ambientes que promovem a interação social pode contribuir para comunidades socialmente sustentáveis e resilientes. Os formuladores de políticas da cidade, os planejadores e os designers podem adotar o “planejamento socialmente consciente”: a intenção de promover a interação social positiva e os impactos sociais através do planejamento consciente, do desenho, da construção e da gestão das cidades.

Projetos de desenvolvimento urbano e estruturas construídas, como habitação, espaços públicos e paradas de ônibus, podem influenciar as pessoas a pensar e se comportar de formas que estimulam a presença de fortes redes e coesão. Os psicólogos rotulam esses comportamentos, pensamentos e sentimentos como “pró-comunidade”, o que significa que eles beneficiam suas comunidades. Uma ação tão simples como cumprimentar os vizinhos normalmente significa que, durante uma crise, as linhas de comunicação já estão abertas. O novo relatório “What about the people? The socially sustainable, resilient community and urban development” (“E as pessoas? A comunidade socialmente sustentável e resiliente no desenvolvimento urbano”, na tradução do inglês), escrito por Cathy Baldwin e Robin King, usa estudos de caso para explorar como ambientes construídos influenciam comportamentos, pensamentos e sentimentos pró-comunidade, avaliando seu impacto na resiliência da comunidade. Conheça três deles:

1. Projetos de vizinhança promovem comunidades socialmente sustentáveis

Dois elementos cruciais – a forma urbana e a participação da comunidade no desenvolvimento urbano – têm maior influência no comportamento, nos pensamentos e nos sentimentos da comunidade.

Barracas ao lado de uma estação de trem em Khayelitsha, Cape Town. (Foto: Stokperdjie/Wikimedia Commons)

Barracas ao lado de uma estação de trem em Khayelitsha, Cape Town. (Foto: Stokperdjie/Wikimedia Commons)

Em Khayelitsha, um município de Cape Town, África do Sul, o Programa de Prevenção da Violência por Atualização Urbana (VPUU) transformou ruas anteriormente degradadas e perigosas em ambientes mais seguros, vibrantes e atrativos. A partir de uma pesquisa e eventos interativos, moradores e profissionais identificaram problemas relacionados à criminalidade, necessidades da comunidade e padrões organizacionais em espaços urbanos. Para impedir o crime nesses locais, os moradores ajudaram a implementar novos recursos, incluindo passarelas para pedestres pavimentadas e iluminação pública, fornecendo “rotas seguras” através de densos assentamentos informais. Esses novos recursos tornaram a comunidade mais segura. A taxa de homicídio caiu 39% entre 2003 e 2010, a maior queda observada em uma comunidade de baixa renda. Impactos sociais positivos adicionais incluem oportunidades de emprego para os moradores e aconselhamento em casos de trauma para mulheres. Essas soluções promovem comportamentos comunitários positivos, como colaboração e sentimentos de orgulho e segurança.

2. Experimentos nas comunidades que mensuram efeitos sociais e psicológicos

Residentes revitalizam quadras de bairro em Portland. (Foto: Jan Semenza)

Residentes revitalizam quadras de bairro em Portland. (Foto: Jan Semenza)

Enquanto o projeto de Khayelitsha proporcionou benefícios sociais e econômicos distintos, um projeto em Portland identificou benefícios mensuráveis de saúde clínica. A comunidade autorizou, concebeu, projetou e revitalizou três quarteirões para pedestres com o objetivo de melhorar as redes entre a comunidade e o bem-estar das pessoas. Com o apoio de profissionais de desenvolvimento urbano, os moradores implementaram recursos como murais de rua, bancos, caixas para plantios, quiosques de informações com quadros de avisos e jardins suspensos. Os psicólogos entrevistaram sistematicamente 265 participantes antes e depois da intervenção dentro de um raio de dois quarteirões. Eles mediram a saúde mental, o senso de comunidade, as conexões sociais e as melhorias observadas através do empoderamento, participação e ação coletiva da comunidade.

3. Ambientes construídos influenciam o comportamento comunitário antes e durante os desastres

Em muitos assentamentos informais, como em Surat, na Índia, a resiliência da comunidade é inibida pela pobreza, por estruturas construídas com baixa qualidade e pela falta de planejamento em casos de desastres naturais por parte do governo da cidade. Incluir essas comunidades na gestão da vizinhança é o fator mais imediato a abordar.

Em áreas onde os residentes têm redes fortes mas são vulneráveis às inundações, por exemplo, o realojamento requer uma compreensão diferenciada das relações sociais e das estratégias organizacionais que permitem a resiliência. Em Jacarta, na Indonésia, os diversos moradores dos bairros ribeirinhos (kampungs) têm fortes conexões sociais uns com os outros e coesão, em parte devido à proximidade entre as habitações de baixa qualidade e organizações formais que fazem cumprir a participação na limpeza dos bairros (kerja bakti) e sistemas de segurança (ronda).

Comunidade ribeirinha de Manggarai, Jacarta. (Foto: Mario Wilhelm)

Comunidade ribeirinha de Manggarai, Jacarta. (Foto: Mario Wilhelm)

Durante as inundações, os residentes usam suas redes de comunicações informais como um sistema de alerta, reunindo recursos e participando de atividades de limpeza. Apesar das tentativas de realocação, alguns residentes do kampung podem retornar às suas habitações originais se suas redes e sistemas de suporte também não forem transferidos. A habitação adequada é uma prioridade urgente, mas, antes de mover as populações, os planejadores devem pesquisar as características espaciais e organizacionais dos bairros para manter as conexões sociais.

Projetar para conexões sociais e coesão é o cerne da resiliência comunitária

Ao examinar o desenvolvimento urbano e catástrofes naturais em 12 países, o relatório revela os comportamentos e os sentimentos que decorrem da coesão social e das conexões entre as pessoas de uma comunidade. Esses fatores emergem sob a influência da forma urbana e da participação social e são comuns entre comunidades socialmente sustentáveis e resilientes:

  • sentir-se conectado e ligado emocionalmente ao bairro e a comunidade;
  • sentir-se seguro e protegido;
  • monitorar o bairro;
  • residir a longo prazo;
  • interagir regularmente com vizinhos e participar de eventos;
  • ser socialmente coeso;
  • ter espírito comunitário;
  • ter voz e influência no planejamento do bairro e governança.

Os projetos envolveram diferentes etapas criativas para influenciar esses comportamentos que os planejadores urbanos podem aproveitar para implementar o planejamento socialmente consciente.

  1. Incorporar objetivos sociais claros no planejamento.
  2. Conduzir pesquisas sociais para entender a interpretação local do cenário urbano e documentar as necessidades sociais e os pontos fortes da comunidade.
  3. Empregar a participação e o engajamento democrático e inclusivo na comunidade.
  4. Combinar as evidentes necessidades e pontos fortes das comunidades com decisões conscientes no planejamento e desenho.
  5. Permitir que as comunidades participem do planejamento, implantação, construção e administração dos espaços e infraestruturas.
  6. Criar ramos de oportunidades de desenvolvimento econômico.
  7. Incluir a comunidade em monitoramentos e avaliações contínuos, garantir que os objetivos sociais sejam honrados e gerar futuros aprendizes.

Os planos de sustentabilidade e resiliência dos governos tendem a priorizar os elementos físicos das cidades, mas uma mudança maior é necessária. A adoção do processo de planejamento socialmente consciente tornará as cidades mais robustas e receptivas às necessidades de seus moradores. O relatório oferece uma perspectiva global e evidências de 12 países para mostrar sua “relevância e aplicabilidade em todos os lugares”. À medida que os eventos climáticos adversos aumentam, as pessoas, bem como o planeta, devem ser protegidas.

O relatório completo está disponível no site da Universidade Oxford Brookes