Cidades são mais vulneráveis às mudanças climáticas, mas têm o poder para combatê-las

Combate ao aquecimento global deve ser vencido nas cidades. (Foto: vincent desjardins/Flickr-CC)

Combate ao aquecimento global pode ser vencido ou perdido nas cidades. (Foto: vincent desjardins/Flickr-CC)

Ainda que ocupem apenas 2% da superfície do planeta, ninguém questiona a importância das cidades. Elas concentram mais da metade da população mundial, produzem 80% do produto mundial bruto (PMB), são responsáveis por 78% do consumo mundial de energia e produzem 70% do total de emissões globais de gases de efeito estufa. Além disso, estão crescendo e, em pouco mais de 30 anos, devem abrigar 66% da população. Como contestar, então, que as áreas urbanas carregam a força do combate ao aquecimento global nas mãos?

A habilidade das cidades de assumir esse controle está em pauta nas últimas semanas especialmente após o anúncio de Donald Trump sobre a saída dos Estados Unidos do Acordo de Paris. No momento em que essa decisão equivocada pareceu amedrontar e ameaçar os objetivos mundiais para conter a elevação da temperatura, é a atitude de centenas de prefeitos que chama a atenção.

“O anúncio da administração Trump mina um pilar chave na luta contra as mudanças climáticas e prejudica a capacidade do mundo de evitar os efeitos mais perigosos e dispendiosos das mudanças climáticas. Nos Estados Unidos, são os governos locais e estaduais, juntamente com as empresas, os principais responsáveis pela drástica redução das emissões de gases de efeito estufa nos últimos anos. As ações de cada grupo se multiplicarão e acelerarão nos próximos anos, independentemente das políticas que Washington possa adotar”, diz a carta aberta à comunidade internacional intitulada “We are still in” (“Ainda estamos dentro”, na tradução do inglês) e assinada por quase 200 prefeitos.

O prefeito de Nova York, Bill de Blasio, emitiu um comunicado em que reitera a permanência da cidade no Acordo de Paris e a meta de reduzir em 80% as emissões de gases de efeito estufa até 2050. “Esse [a decisão de Trump] é um punhal apontado diretamente para o coração da cidade de Nova York. Precisamos entender que, se as mudanças climáticas não forem combatidas, uma das maiores cidades costeiras no planeta estará cada vez mais ameaçada. É muito doloroso refletir para o fato de que Donald Trump é de Nova York. Ele deveria saber disso”, declarou Blasio.

De pequenos municípios a grandes metrópoles, a escolha do republicano pode significar até mesmo um impulso nas ações locais. Se cada cidade seguir com suas metas climáticas, agindo de maneira a mudar regulamentações locais e, principalmente, hábitos particulares, os resultados comprovarão a capacidade das cidades de liderar a ação climática. Um relatório divulgado em 2016 pelo Grupo de Liderança Climática do C40 apresenta o provável impacto de milhares de cortes de carbono pelas 84 cidades-membro da iniciativa. De acordo com a pesquisa, 51% das reduções de emissões necessárias para colocar as cidades do C40 em um caminho compatível com as ambições do Acordo de Paris podem ser atingidas através da “Ação da Cidade” – ou seja, por meio de reduções que mudam práticas usuais. Deste número, 46% são ações que podem ser implementadas através de colaborações e parcerias, inclusive entre as próprias cidades.

O apoio do governo nacional é fundamental em inúmeros aspectos, a começar por programas ambientais. Porém, as cidades têm o poder de agir sozinhas e somar políticas para responder às mudanças climáticas. A colaboração entre municípios também fortalece e amplia o impacto de suas decisões.

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Ações climáticas devem ser tomadas para evitar riscos ambientais e econômicos. (Foto: Dylan Passmore/Flickr-CC)

No Brasil, a Frente Nacional de Prefeitos (FNP), os Governos Locais pela Sustentabilidade (ICLEI) e a União Europeia (UE) recentemente assinaram o Pacto Global de Prefeitos pelo Clima e Energia, acordo que suscita uma maior colaboração entre cidades em todo o mundo. A iniciativa busca construir conexões entre os municípios e aumentar a oferta de financiamento para apoiar e capacitar a administração pública em ações locais pelo clima e pela energia renovável. Trata-se da maior coalizão de prefeitos e líderes locais do mundo comprometida com a ação climática.

No início deste mês, representantes das entidades que compõem as Câmaras Temáticas (CTs) do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas (FBMC) estiveram reunidos com o presidente Michel Temer para relatar o estado atual e resultados esperados dos trabalhos das CTs em 2017 e 2018. Na ocasião, o prefeito de Aparecida de Goiânia, Gustavo Mendanha, vice-presidente Estadual (Goiás) da FNP, reafirmou o compromisso dos prefeitos brasileiros com o Acordo de Paris. “Os prefeitos estiveram representados na Conferência do Clima em Paris, há dois anos, e agora estamos aqui, no Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas, para garantir que os discursos possam ganhar corpo e se materializar em projetos e programas relevantes para o enfrentamento dessas questões”, destacou. Segundo ele, os prefeitos são peças-chave no compromisso assinado internacionalmente e contam com o apoio técnico e financeiro do governo federal.

Maior vulnerabilidade

Os gestores locais precisam agir, já que devem proteger suas cidades de impactos ambientais e econômicos. De acordo com o C40, 70% das cidades já estão sentindo os efeitos das mudanças climáticas. Cerca de 90% das áreas urbanas estão em regiões costeiras, o que coloca a maior parte das cidades em risco de inundações devido ao aumento do nível do mar e fortes tempestades.

Um estudo recém lançado na revista Nature Climate Change aponta que os efeitos das mudanças climáticas podem ser dobrados nas cidades devido à chamada “ilha de calor urbano”. A pesquisa analisou 1,692 cidades e concluiu que os custos econômicos do aquecimento global podem ser 2,6 vezes maiores quando considerada a essa ilha de calor do que quando não é. No pior cenário em uma cidade, a perda pode chegar a 10,9% do Produto Interno Bruto (PIB) até o final do século, comparado a uma média global de 5,6% de perda.

A ilha de calor urbano ocorre quando superfícies naturais com vegetação e água são substituídas por concreto e asfalto, materiais que detêm calor, e o efeito é exacerbado pelo aquecimento dos carros e ares-condicionados, por exemplo. Acredita-se que esse efeito vá acrescentar 2°C às estimativas globais de aquecimento nas cidades mais populosas até 2050.

O resultado do estudo destaca a importância das intervenções e esforços nas cidades e não apenas globalmente. “Está claro que até hoje nós subestimamos o grande impacto que as políticas locais podem gerar para a redução do aquecimento urbano”, disse o professor de economia da Universidade de Sussex, Richard S.J. Tol, um dos autores da pesquisa. Os autores expuseram também uma análise de custo-benefício de algumas políticas locais para combater as ilhas de calor, como diferentes pavimentos, que refletem mais a luz solar e absorvem menos o calor, telhados verdes e o aumento da vegetação nas cidades. Em suma, reiterou Tol, “as estratégias de adaptação no nível municipal para limitar o aquecimento local têm uma rede de benefícios econômicos importantes em quase todas as cidades ao redor do mundo”.