Espaços Públicos: o valor econômico e o valor simbólico

Cidades dependem de cada rua, cada parque para vibrar como um lugar que as pessoas querem estar. (Foto: La Citta Vita/Flickr-CC)

Cidades dependem de cada rua, cada parque para vibrar como um lugar que as pessoas querem estar. (Foto: La Citta Vita/Flickr-CC)

Nossas impressões de uma cidade são formadas principalmente pela qualidade dos espaços públicos. Se não forem agradáveis e conservados, se transmitirem uma sensação de insegurança, dificilmente voltaremos. O bom planejamento desses espaços deve ser a regra, não a exceção. Na série “Espaços Públicos”, exploramos diferentes aspectos relacionados aos espaços públicos que determinam nossa experiência cotidiana nas cidades. Neste segundo post, abordamos a relação entre espaços públicos e seu valor simbólico e imobiliário.

Lara Caccia e Laura Azeredo contribuíram para este post.

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As ruas dão a cara de uma cidade. É onde tudo acontece, é onde a comunidade convive. Junto a elas, os parques e praças transformam a vida urbana no que diz respeito ao bem-estar e a saúde da população. A qualidade desses espaços públicos os valorizam, promovendo uma série de consequências sociais e econômicas. As pessoas são atraídas por locais onde elas se sintam mais à vontade e que gerem um sentimento de pertencimento. Negócios e investimentos também são atraídos por locais bem estruturados, mantidos e administrados. Uma cidade que busca a qualidade de vida das pessoas e, ao mesmo tempo, a competitividade global precisa estar atenta às tendências da agenda urbana. A necessidade de criar comunidades vibrantes, saudáveis e que priorizam o transporte sustentável leva as cidades a se repensarem e a se redesenharem por um futuro onde o espaço público e do público sejam tratados como prioridades no planejamento urbano.

A característica de um lugar diz respeito a pelo menos dois principais elementos: localização e contexto. O primeiro geralmente é avaliado conforme a valorização imobiliária do local e da faixa de renda da população que lá vive. O segundo se refere às questões socioeconômicas e aos múltiplos fatores que definem a forma como bairros funcionam em seu cotidiano.

Um elemento importante da complexidade dos mercados imobiliários depende da forma como os locais podem estar sujeitos a diferentes usos da terra. Antigas teorias assumiam que “uma linha reta” de distância do centro da cidade poderia explicar o custo do transporte e que este, por sua vez, explicaria a distribuição do uso da terra na cidade. No entanto, hoje já se sabe que é o conjunto de correlações entre a configuração espacial, o uso funcional da terra e os padrões de tráfego e ocupação – e sua relação direta com os processos sociais, culturais e econômicos – que influenciam a evolução do uso do solo ao longo do tempo e sua própria valorização.

O conceito de placemaking contribui para o debate sobre o valor do solo. Ele diz respeito ao processo de planejar espaços públicos de qualidade que contribuam para o bem-estar da comunidade local e é um elemento essencial, pois remete à ideia de identidades locais. Já a valorização imobiliária diz respeito ao valor dos terrenos. A implantação ou requalificação de espaços públicos, sejam eles parques ou o próprio espaço da rua, tem o potencial de influenciar a dinâmica do mercado imobiliário da região. A renovação desses espaços visa a benefícios como melhorar a qualidade de vida da população local ou atrair novas atividades econômicas.

Mais do que espaços livres, espaços de convivência. (Foto: Patrik Nygren/Flickr-CC)

Mais do que espaços livres, espaços de convivência. (Foto: Patrik Nygren/Flickr-CC)

O contexto também é muito importante nessa análise. A ideia de espaços públicos e o valor que eles representam para a população pode variar muito entre a região central e a periferia das cidades, já que o próprio uso da rua em bairros predominantemente residenciais, onde a convivência já se dá de maneira mais próxima e natural, difere das zonas centrais. Até o mais simples espaço urbano pode ter grande importância simbólica para as pessoas que por ali circulam todos os dias ou até ocasionalmente.

Espaços públicos podem causar a associação entre indivíduos vindos de lugares e realidades completamente diferentes, mas que se cruzam graças a caminhos comuns. Bill Hiller, professor de arquitetura e morfologia urbana da Universidade de Londres, sugere em seus estudos que esses movimentos criam uma “comunidade virtual”, a qual só é percebida quando a copresença leva a interações, comunicações ou transações.

Essa relevância simbólica do local pode também influenciar no valor imobiliário de seu entorno. É preciso lembrar que quando falamos em espaços públicos também estamos falando em calçadas, ciclovias e acessos ao transporte. A possibilidade do uso de modos ativos, por exemplo, é um fator de impacto no mercado imobiliário, segundo pesquisadores. Um estudo do pesquisador Fábio Tieppo, desenvolvido para o Núcleo de Economia Regional e Urbana da Universidade de São Paulo, mapeou os imóveis próximos das ciclovias na capital paulista e concluiu que apresentavam uma valorização muito alta, e que, conforme aumentava a distância entre o imóvel e a ciclovia, a valorização caía rapidamente. Além disso, diversas pesquisas também apontam para áreas onde a caminhabilidade também é um fator de valorização dos imóveis de regiões das cidades.

Calçadas, ciclovias, parques, praças, todos esses locais são de vital importância para a vida na cidade. O vínculo da população com esses espaços não pode ser perdido, assim como a conexão e a sociabilidade entre as próprias pessoas. A busca pelo crescimento e desenvolvimento urbano passa por enxergar e dar valor a esses espaços e deve sempre estar em primeiro plano no planejamento de gestores.

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Este texto foi adaptado a partir do artigo “Localização o valor do espaço urbano”, de Alan Penn, publicado na coletânea “Making good – shaping places for people” (em português, “Fazendo o bem – formando espaços para pessoas”), produzida pela Centre for London e disponível aqui.