Como o uso misto e a preservação de prédios históricos qualificam os bairros

Antigas construções muitas vezes são encontradas à sombra de arquiteturas futuristas. (Foto: Mark Morgan/Flickr-CC)

Antigas construções muitas vezes são encontradas à sombra de arquiteturas futuristas. (Foto: Mark Morgan/Flickr-CC)

Muitas cidades reconhecem a importância e o significado de seus antigos prédios ou construções que, pequenos ou grandes, resistem ao tempo para continuar a contar um pouco do passado daquele local, fazem reviver lembranças ou então suscitar a curiosidade de quem observa e procura saber mais sobre a história. Muitas outras não dão o mesmo valor para esses prédios e acabam cedendo o espaço a projetos imobiliários que buscam cada vez mais áreas para edifícios cada vez mais altos. Já outras apenas permitem que o tempo e a falta de preservação os derrubem. Um estímulo para mudar os dois últimos cenários pode estar nas revelações de estudos já realizados a respeito: cidades com edificações mais antigas e menores registram mais altas densidades, diversidade, maior número de pequenos negócios e atividades empreendedoras e mais habitações acessíveis.

Ideias ultrapassadas podem às vezes usar novas edificações. Novas ideias devem usar antigas construções. Cidades precisam tanto de edifícios antigos que é provavelmente impossível que ruas e bairros dinâmicos possam crescer sem eles. Jane Jacobs

A frase de Jane Jacobs resume o objetivo do trabalho da iniciativa ReUrbanism. Criada pela organização norte-americana National Trust for Historic Preservation (NTHP), o ReUrbanism (“reurbanização”, em tradução livre) trabalha junto às cidades para desenvolver formas de adaptar o uso de prédios como ferramenta fundamental para o crescimento econômico e a promoção de comunidades vibrantes. A famosa urbanista é, de fato, uma das maiores inspirações para o projeto, que segue os mesmos princípios de comunidades mais inclusivas, equitativas e criativas defendidos por Jacobs.

O velho e o novo em um mesmo cenário. (Foto: Dun.can/Flickr-CC)A ideia difundida pela ReUrbanism é a de que, para transformar os lugares onde vivemos em lugares que amamos, antigas construções são componentes vitais e insubstituíveis e sua presença fortalece e enriquece esses locais. “Esses espaços surgem organicamente onde as pessoas escolhem se reunir e a partir das histórias locais que gostariam de ver preservadas”, diz o site da organização.

O grupo desenvolveu o Atlas do Reurbanismo, ferramenta que mapeou 50 cidades para explorar as conexões entre os elementos físicos do desenvolvimento urbano e uma variedade de 40 aspectos econômicos, sociais e ambientais. É importante destacar que a pesquisa não considerou apenas construções antigas grandiosas ou consideradas históricas, mas qualquer obra que eles consideram com um papel local, uma personalidade.

Dessa forma, descobriram que, em uma cidade como Nova York, ao comparar áreas com edificações grandes e novas com quarteirões antigos, cheios de “personalidade”, menores e com datas variáveis de construção, os últimos possuem quase duas vezes mais empresas pertencentes a mulheres e a minorias; o dobro do número de empregos em pequenos e novos negócios; além de maior diversidade entre os residentes em termos de raça, nacionalidade e orientação sexual.

Um relatório elaborado pelo NTHP uniu os dados coletados em três cidades com fortes mercados imobiliários e antigos e extensos tecidos urbanos: São Francisco, Seattle e Washington D.C. O grupo chegou, então, a conclusões semelhantes: bairros mais antigos e de uso misto são mais caminháveis; pessoas jovens gostam e preferem morar em prédios mais velhos; a economia criativa prospera em bairros mais antigos e de uso misto; a vida noturna é mais ativa em ruas com uma variedade ampla de idades das construções; distritos mais antigos de negócios e de uso misto possuem maior densidade populacional, sem grandes alturas.

Cadeias de lojas, restaurantes e bancos se acomodam em novas construções. No entanto, bares locais, restaurantes estrangeiros, lojas de penhores combinam com edifícios mais antigos. Centenas de empresas convencionais, necessárias à segurança e à vida pública das ruas e bairros e valorizadas pela sua conveniência e qualidade pessoal, podem ser instaladas com sucesso em edifícios antigos, mas são inexoravelmente mortas pela elevada sobrecarga das novas construções. Jane Jacobs

Estruturas antigas podem dar personalidade aos locais. (Foto: marc falardeau/Flickr-CC)Para praticar ações sustentáveis de reuso, reciclagem e reinvenção, a NTHP identificou os 10 princípios do ReUrbanismo:

  1. Cidades só são bem-sucedidas quando funcionam para todos.
  2. Locais antigos proporcionam a particularidade e a personalidade que geram o sucesso.
  3. Bairros antigos são motores econômicos.
  4. Novas ideias, e a Nova Economia, prosperam em prédios mais antigos.
  5. Preservação é a reutilização adaptativa e vice-versa.
  6. Preservação é saber administrar mudanças.
  7. Cidades são para pessoas, não veículos.
  8. O prédio mais verde é aquele que já está construído.
  9. A densidade pode ser atingida de diversas formas.
  10. Todas as comunidades têm histórias e lugares que importam.

Toda a pesquisa da organização norte-americana nos faz concluir que uma cidade inteligente é construída também com o que o passado nos oferece, e não só o futuro. Soluções prontas podem estar esquecidas em cada bairro, basta apenas enxergá-las com a importância que merecem. Elementos cada vez mais perseguidos pelas cidades, como caminhabilidade, densidade, diversidade e vitalidade nas ruas, podem ser conquistados com o novo e o velho mesclados, contando o passado e o futuro.

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    Interessante!

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  • Pedro Taddei Neto

    Conheço mo NTHP (nascido NTCH) desde a década de 1990, qdo estive lá. Suas iniciativas são muito úteis sobretudo pq dispensam ao máximo o aporte de recursos públicos, fiscais ou parafiscais, como a renúncia fiscal, etc. O ReUrbanismo é a versão contemporânea de outros programas deles, como o famoso “Main Street Program”, que reúne centros históricos de centenas de cidades americanas e de uma centena no exterior . Reflete bem os ventos dominantes, que propugnam a flexibilização das regras urbanísticas. A ferramenta fundamental para isso foi criada no exterior na década de 1970, com a transferência do direito de aproveitamento dos terrenos nos EEUU e o teto legal de densidade na França. Por aqui denominada “solo criado”, vem sendo aplicada no Brasil sob um formato desidratado. Provavelmente o que nos falta para o sucesso de iniciativas do gênero é a maior imbricação da legislação urbanística com as finalidades urbanísticas (qualidade do ambiente urbano, qualidade de vida dos usuários, eficácia e eficiência da ação pública na área, mobilização e convergência da atuação privada na área, etc). E não maior protagonismo do Estado. Desse temos mais que o necessário. Para ficar nos EEUU :- o NTHP é uma organização privada, que se financia com doações (não incentivadas) e venda de serviços (como a locação de bens históricos). Por lei federal tem a incumbência de identificar, inventariar e proteger o Patrimônio Histórico Nacional (a autoridade federal é o National Parks Authorit); outro exemplo é a Associação para o Plano da Região de N. York, uma ONG, fundada por Lewis Munford (o famoso professor de história da arquitetura) pela década de 1930; tb tem financiamento privado e vende seus serviços para a Região , as Prefeituras e os Estados recobertos pela aglomeração urbana de N. York. Em outro momento volto ao assunto.