Revitalização de bairros em São Paulo mostra o poder do diálogo entre sociedade e poder público

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São Paulo: movimento de moradores para revitalizar bairros leva à criação da lei de gestão participativa das praças (Foto: lu/Flickr-CC)

Construir um bairro sustentável pede tecnologias e práticas que potencializem as condições já oferecidas pelo ambiente e promovam o uso eficiente de recursos como água da chuva e iluminação natural. Estimular um estilo de vida mais sustentável e mudar a maneira como se relacionavam com o lugar onde moravam foram os desejos que moveram moradores das Vilas Jataí, Beatriz e Ida, em São Paulo, a transformarem seus bairros.

O processo se desenrolou a partir de um movimento espontâneo dos próprios moradores. Mais especificamente, conforme conta o Estadão, em uma barraca de festa junina onde as pessoas deixavam post-its com seus desejos para o bairro. O conteúdo dos bilhetes – menos violência, grandes prédios, grandes comércios – deixava transparecer a vontade de viver um lugar mais humano e uma rotina mais tranquila.

File:Praça Waldir Azevedo 01.jpgAs mudanças tiveram início na Vila Ida, mais especificamente na Praça Valdir Azevedo (à esquerda), depois que o grupo adquiriu um imóvel abandonado da prefeitura que passou a ser utilizado como sede. Em um primeiro momento, o processo envolveu a criação de sistemas para captação da água da chuva, a busca e a recuperação de nascentes.

Dezesseis nascentes foram encontradas na região dos três bairros. Uma das principais foi o Córrego das Corujas, na Vila Beatriz. Desde 2010, quando o trabalho de recuperação começou, a qualidade da água deu um salto: enquanto nos primeiros anos os testes de qualidade indicavam ruim ou péssimo, no início deste ano pela primeira vez a água do córrego foi considerada boa.

Outra mudança importante na revitalização dos bairros foi a transformação dos canteiros centrais das vias, até então apenas blocos de cimento, em jardins de chuva. A prática, aliada a ruas mais arborizadas, contribuiu para o aumento da permeabilização das ruas, reduzindo alagamentos.

Nova lei

Por conta própria e por meio de solicitações à administração municipal quando o necessário, o grupo de moradores conseguiu implantar mudanças significativas no lugar onde moram. E o processo de renovação empreendido gerou resultados para além dos limites dos bairros: foi o piloto para a criação da lei de gestão participativa das praças de São Paulo, sancionada em maio de 2015:

A gestão das praças do município de São Paulo será agora realizada de forma compartilhada, prevendo não apenas a atuação do poder público, mas também a participação dos cidadãos na implantação, revitalização, requalificação, fiscalização, uso e conservação desses espaços. (…) Com a gestão participativa, a Prefeitura busca, entre outras coisas, a sustentabilidade do espaço urbano, a valorização do patrimônio ambiental, histórico, cultural e social das praças de São Paulo e a fruição desses espaços públicos pela comunidade, considerando as características do entorno e as necessidades dos próprios cidadãos.

O exemplo dos três bairros paulistanos traz uma conclusão importante: o diálogo entre a população e o poder público pode levar a transformações positivas na realidade. Integrando saberes de ambos os lados – tanto preceitos técnicos quanto os conhecimentos da comunidade local – é possível construir, de forma coletiva, espaços urbanos mais sustentáveis e saudáveis para seus moradores.