Febre chinesa das bicicletas compartilhadas sem uso de estações chega a outros países

Bicicletas compartilhadas estão por todos os lugares nas cidades chinesas (foto: Wikimedia Commons)

Bicicletas compartilhadas estão por todos os lugares nas cidades chinesas (Foto: Wikimedia Commons)

Há uma revolução ocorrendo na mobilidade urbana neste momento e não é guiada por veículos motorizados. Pelo contrário, é capaz de desestimular o uso do carro e não é poluente. Baseada em aplicativos móveis e com raízes na cultura do compartilhamento, a novidade simplifica um serviço nem sempre eficiente e coloca o transporte ativo sob os holofotes: está chegando uma nova era das bicicletas compartilhadas. Sem estação, estacionadas em qualquer lugar e liberadas por smartphone, elas se tornaram uma febre recente na China.

Os serviços convencionais de bikes compartilhadas, comuns em muitas cidades brasileiras, tem alguns problemas recorrentes: estações às vezes vazias, às vezes cheias (o que impede a devolução), distantes umas das outras e, geralmente, presentes apenas nas regiões mais centrais (e rentáveis). Com a vantagem de ter bicicletas muito baratas à disposição e uma população altamente adepta a novidades tecnológicas, startups chinesas perceberam a oportunidade para criar um sistema sem estações, gerido pelos próprios usuários, e inundaram cidades como Pequim e Xangai de bicicletas. O crescimento é tão rápido que está gerando imagens como essa:

Bikes abandonadas pelas ruas chinesas (Foto: reprodução/Twitter)

Bikes abandonadas pelas ruas chinesas (Foto: reprodução/Twitter)

A Ofo, por exemplo, uma das maiores empresas que emergiu dessa tendência, diz ter mais de um milhão de bicicletas espalhadas por cidades chinesas e divide o mercado com a Mobike e a Bluegogo. As magrelas não precisam ser presas a estações, bicicletários, postes ou algo parecido. Há um sistema com uma tranca que simplesmente bloqueia a roda traseira da bicicleta, que pode ser literalmente abandonada em qualquer lugar da cidade em que a viagem terminar. Os valores, cobrados por tempo de uso, são irrisórios.

Esperança de solução para o chamado último quilômetro entre uma estação de transporte e o destino final das pessoas, esse tipo de sistema também tem seus problemas, como a imagem acima revela. Inundar as cidades de bicicletas não é necessariamente positivo. Muito se fala que, mais do que oferecer uma alternativa sustentável de transporte, o que essas empresas estão fazendo é publicidade. Janette Sadik-Khan, ex-secretaria de Transportes de Nova York, que hoje atua cooperando com diversas cidades pelo mundo, é uma das pessoas que faz essa critica. “Essas companhias parecem estar usando (as bikes) mais como veículos de marketing e usando as ruas para ganhos privados”, disse Janette ao Techcrunch. Ela destaca que sistemas de sucesso, como o Citibike em Nova York, por exemplo, são planejados em conjunto com as cidades.

Essa é justamente a abordagem da Social Bicycles, ou SoBi, criada justamente por um ex-funcionário de Sadik-Khan, em Nova York. Por ter trabalhado no departamento de trânsito da cidade, Ryan Rzepecki diz saber o quão importante é fazer parcerias com as administrações dos municípios. Com uma abordagem menos agressiva, a Sobi tem mais de mil bicicletas em cidades como Santa Monica, Portland e outras.

No sistema da SoBi, há incentivos para que as bicicletas sejam reunidas em locais específicos, o que facilita para os usuários e busca reduzir problemas de estacionamento em locais inadequados. O aplicativo demarca áreas específicas para a devolução. Caso contrário, uma taxa extra é cobrada. E, se o usuário estacionar em um lugar sugerido pelo sistema, ganha créditos.

Esse tipo de incentivo a um uso mais organizado e respeitoso com as cidades ainda começa a decolar nos apps chineses, que em geral iniciaram seus serviços sem consultar o planejamento das cidades onde atuam. A cidade de Pequim, por exemplo, já reagiu. O governo municipal afirmou que vai debater regras de estacionamento, controle e manutenção das magrelas até junho e que espera a cooperação das empresas. Diante das críticas de que apenas despejam bicicletas nas cidades, sem fazer manutenção e ocupando espaços importantes, as startups começaram a incluir recompensas para os usuários que contribuem com o sistema, denunciam problemas ou devolvem a bicicleta em um local mais adequado.

A dúvida que fica é como as cidades americanas e europeias vão adotar ou transformar esse modelo. A Mobike já deu as caras em Singapura e há boatos de que está se movimentando para o Reino Unido. A Bluegogo iniciou, de forma controversa, a operação em São Francisco. A Ofo está chegando a Cambridge.

Assim como foi com o Uber, as empresas chinesas estão fazendo investimentos importantes e contam com grandes investidores. De uma forma ou de outra, a novidade irá transformar os sistemas de bicicletas compartilhadas pelo mundo. O fato de facilitar a vida dos usuários, estimulando o transporte ativo, sem dúvida é positivo para as cidades. Pode até ser uma forma de incentivar as gestões municipais a investir em infraestrutura cicloviária. Mas atuar quase clandestinamente, inundando os espaços urbanos, sem contato com o planejamento urbano das cidades e com bikes muitas vezes sem manutenção, torna-se um risco para todos. A morte de um menino de 11 anos em uma dessas bicicletas suscitou debates jurídicos.

Se o Uber tinha grandes opositores, como os taxistas e os operadores de transporte coletivo, as novas bicicletas compartilhadas ainda não têm inimigos fortes, embora o lado negativo do serviço já tenha começado a aparecer. Como qualquer solução inovadora, deve ser vista como oportunidade, desde que seja em benefício da coletividade.