Mobilidade de baixo carbono é fundamental para deter o aquecimento global

Planejamento urbano eficiente pode contribuir para a redução da demanda de energia nos transportes. (Foto: Uwe Schwarzbach/Flickr)

Planejamento urbano eficiente pode contribuir para a redução da demanda de energia nos transportes. (Foto: Uwe Schwarzbach/Flickr)

As emissões de carbono globais relacionadas à energia podem ser reduzidas em 70% até 2050, afirma um novo relatório desenvolvido pela Agência Internacional de Energia Renovável (IRENA) e pela Agência Internacional de Energia (IEA). Para isso, os países comprometidos com o Acordo de Paris precisam reforçar e acelerar os objetivos com que se comprometeram. Esse número só será possível a partir de investimentos em tecnologias de baixo-carbono para a geração de energia, transporte, construções e indústria. Em escala global, apenas o setor de transporte é responsável 20% das emissões de gases de efeito estufa (GEE) relacionadas à energia, compostas quase inteiramente de CO2 da combustão de óleo. Trata-se, portanto, de um setor crucial no combate ao aquecimento global.

Segundo informações do relatório, as emissões do setor aumentaram mais de 30% desde 2000, em grande parte como consequência de um aumento na frota de veículos em 300 milhões neste período. Mais da metade do aumento nas emissões de CO2 é proveniente do grupo de países que integram o G20 (as maiores economias mundiais), mais China e Índia, onde a crescente demanda por mobilidade para as classes médias em expansão resultou em 130 milhões de veículos adicionados à frota automotiva.

O aumento das emissões de CO2 relacionadas aos transportes acompanha quase exatamente o aumento da procura de energia nos transportes, dada a forte dependência do setor de combustíveis derivados do petróleo. Em outras palavras: cada aumento percentual da demanda de energia nos transportes provoca um aumento proporcional das emissões.

Por outro lado, a intensidade das emissões de CO2 dos novos automóveis vendidos na Europa, por exemplo, diminuiu quase 30% desde 2000, com a taxa de melhoria acelerando após 2009, quando foi introduzida a primeira norma de emissões. O resultado europeu comprova a eficácia e a importância de ajustes nas normas adotadas em cada país. A própria oferta de petróleo de menor custo pode dificultar fortemente o desenvolvimento de tecnologias e alternativas eficientes ao uso dos derivados de petróleo no setor de transportes.

Em algumas cidades, a mudança de hábito em relação aos meios de transporte já resultou em quedas significativas no número de carros privados em uso. Em Paris, por exemplo, a introdução dos programas Vélib’ e Autolib’, que disponibilizam bicicletas compartilhadas e carros elétricos, respectivamente, e a implantação de mais corredores de ônibus e ciclovias, contribuíram para uma redução de 25% no uso do automóvel individual.

No Brasil, os transportes são responsáveis por 46% das emissões de GEE no setor de energia. Desde que o Acordo de Paris entrou em vigor, em 4 de novembro de 2016, o país assumiu o compromisso de implementar ações para o cumprimento das metas estabelecidas em sua Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC), documento que comunica internacionalmente as medidas que serão tomadas aqui para lidar com as mudanças climáticas e como o Brasil se direcionará para um futuro de baixo carbono.

Para isso, o país trabalha atualmente na elaboração de uma Estratégia Nacional de Implementação e Financiamento da NDC e lançou um documento-base para os debates que serão organizados este ano pelo Ministério do Meio Ambiente. O Programa Mobilidade Urbana de Baixo Carbono em Grandes Cidades, idealizado pelo Ministério das Cidades, pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e pelo Instituto de Energia e Meio Ambiente (IEMA), aparece no documento-base como instrumento de suporte do governo federal à atuação municipal na mobilidade urbana, cumprindo importante papel para a implementação dos princípios, diretrizes e objetivos tanto da Política Nacional de Mobilidade Urbana (PNMU) quanto da Política Nacional sobre Mudança do Clima (PNMC).

Para que as metas do Acordo de Paris tenham 66% de chance de serem cumpridas, são necessárias medidas excepcionais

Considerando o uso de energia global em geração de energia, transporte, construções e indústria, o relatório estima que o orçamento global de carbono entre 2015 e 2100 precisa ficar em 880 giga toneladas (Gt). Atualmente, as NDCs vinculadas ao Acordo de Paris sugerem que o setor de energia vai emitir cerca de 1.260 Gt até 2050 – mais de 60% acima do orçamento projetado. Para mudar essa perspectiva, o estudo projeta uma transição energética de “escopo, profundidade e velocidade excepcionais”, considerando que as emissões relacionadas à energia chegarão ao pico antes de 2020 e depois precisariam cair 70%. A geração de combustíveis fósseis precisaria ser reduzia pela metade até 2050, enquanto as fontes de baixo carbono teriam que triplicar globalmente para representar 70% da demanda de energia em 2050.

As agências responsáveis pelo relatório descrevem, então, um cenário de 66% de probabilidade de o mundo atingir os objetivos do Acordo de Paris, como uma maneira de contribuir para a meta que visa manter o aumento da temperatura abaixo de 2°C até o fim do século. Os transportes representam atualmente 27% da demanda final de energia e quase 40% do uso direto de combustíveis fósseis em setores de uso final. Considerando esse cenário, as novas políticas a serem desenvolvidas no setor de transportes deveriam contemplar cinco pontos principais:

  • Economia de combustível rigorosa e normas de emissões.
  • Suporte a veículos elétricos e à infraestrutura de que necessitam para operar, incluindo linhas de catenária (de alimentação elétrica) para caminhões.
  • Maior tributação dos combustíveis à base de petróleo.
  • Qualificar os processos de planejamento urbano e aumentar a oferta de transporte coletivo de baixo carbono.
  • Padrões internacionais de eficiência de combustível para a aviação e navegação e incentivos para biocombustíveis.

De acordo com os cálculos das agências, seria necessário um investimento total de mais de 120 trilhões de dólares relacionado à energia até 2050 para ser alcançado o cenário de 66%. Cerca de metade desse investimento teria de ser destinado à oferta de tecnologias, incluindo combustíveis limpos, biocombustíveis e eletricidade (geração, transmissão e distribuição). A outra metade seria alocada na procura de tecnologias de baixo carbono, incluindo o investimento em tecnologias mais eficientes para o consumo consciente de energia e materiais nos setores de utilização final.

O investimento calculado para tecnologias de redução de emissões diretas nos setores de uso final é de 26 trilhões de dólares. O setor de transportes (principalmente o investimento adicional em veículos elétricos para a substituição de veículos convencionais) representaria 65% deste total acumulado: a frota de automóveis elétricos precisaria crescer cerca de 50% por ano nos próximos 15 anos para alcançar as metas do cenário de 66%.

Mudança de tecnologia e comportamento

carros elétricosAliado a um esforço em curto prazo para reduzir o consumo de combustível dos veículos convencionais, os principais meios para descarbonizar o transporte no cenário de 66% são a eletrificação (incluindo veículos de passageiros e de cargas) e um avanço substancial no uso de biocombustíveis na aviação e na navegação. Em 2050, cerca de 60% de todos os combustíveis no setor dos transportes teriam de ser de baixo carbono – uma mudança significativa ante os 3% atuais.

Um planejamento urbano eficiente também pode contribuir para a redução da demanda crescente de energia ao facilitar uma “mobilidade inteligente”, afirma o estudo.

A coordenação previa entre os urbanistas e os planejadores de trânsito é importante, nomeadamente quando se prevê o desenvolvimento de um sistema de transporte, mas também porque ajuda a garantir a disponibilidade de espaços dedicados aos pedestres e às redes de transporte coletivo. A mobilidade inteligente vai além do uso das tecnologias de informação e comunicação para otimizar os fluxos de tráfego. A conscientização também é vital, uma vez que o transporte inteligente depende de trocar conhecimentos e boas práticas.

O compartilhamento de viagens e as caronas, que hoje já aparecem como promessas para amenizar os congestionamentos nas grandes cidades, são considerados no estudo, porém serão mais profundamente analisados nas futuras projeções das instituições. O relatório ressalta, ainda, que o uso de serviços de transporte disruptivos precisa ser introduzido nos hábitos da população e que são necessários esforços mais profundos para a mudança de comportamento das pessoas.

Muito além das novas tecnologias e recursos, a população precisa deixar de recorrer apenas ao transporte individual e motorizado para qualquer deslocamento e passar a optar pelo transporte coletivo, bicicleta ou caminhada. Essa mudança é parte fundamental da construção de cidades inteligentes. Ao incentivar mudanças culturais, o planejamento urbano e da mobilidade pode ser um dos pilares para a redução das emissões originadas no transporte a partir, por exemplo, de uma rede de ciclovias densa e conectada, da oferta de transporte coletivo de qualidade e baixo carbono e da disponibilização de infraestrutura para os modos elétricos.

  • Mulbert Fumagalli

    O texto é bastante otimista, porem temos que entender o outro lado da moeda, existe na cadeia produtiva do petróleo grandes “chefões” que remam do lado contrário da IRENA, muitos participam das reuniões se fazendo de interessado, porem o que eles querem na verdade é como irão trocar seus lucros extraídos do CO2 pela energia de combustível limpo.
    O bando que controla o mercado do transporte no brasil não tem um pingo de sentimento ou preocupação com o mundo, querem sim lucro, lucro, acumular capital independente de quem viva ou morra para isto. Quando se diz que tem de gastar 120 trilhões de dinheiros fortes do mundo é fazer uma propaganda contra a possibilidade de atingirmos a meta pretendida estas agencias criadas pelo sistema visão apresentarem soluções porem sempre coleção o valor destas soluções, ou seja, sempre no mesmo sistema “capitalismo”; Já é a hora de buscarmos outro sistema para atingirmos as matas desejadas. Dizem quanto gastariam porem não comparam com quanto iriamos ganhar, afinal o que ganhamos não os interessa, mas sim quanto eles ganharão, lamento mas se não tivermos a coragem de radicalizarmos e quebras o sistema nada do que quisermos mudar iremos atingir as metas desejadas.
    Vivo em um Pais onde as pessoa se quer tem saneamento básico, jogão lixos na rua, se veem como o único ser com direito de tudo, mais de 40 mil crianças em orfanatos, os abusos sexuais a crianças são vistos quase que normal e os preconceitos a qualquer um que por motivos fúteis ou raça diferente, fica difícil querer falar de um mundo em equilíbrio, quando a própria sociedade está deteriorada, só atingiremos o equilíbrio quando tivermos uma sociedade equilibrada; O problema da poluição é muito simples, termos que ter uma sociedade consciente e é ai que tudo se complica, não adianta combatermos o problema temos que agir na causa, os senhores feudais tem que entender que estamos precisando de uma nova era, fica difícil termos um grande desenvolvimento tecnológico em uma sociedade que se quer sabem ler.