Fortaleza no caminho da mobilidade sustentável: iniciativas beneficiam moradores e otimizam a integração modal

Ciclofaixa da Avenida Beira-Mar - Fortaleza

Ciclofaixa da Avenida Beira-Mar é um dos resultados do crescimento da rede cicloviária de Fortaleza (Foto: Kaio Machado)

Pode parecer audacioso, mas Fortaleza tem o objetivo de se tornar a cidade mais ciclável do Brasil. Nesse caminho, a mobilidade da capital do Ceará passa por mudanças que beneficiam tanto os moradores quanto os turistas que, além das belas paisagens, agora podem encontrar ciclovias, ciclorrotas e um sistema mais integrado de transporte coletivo.

Ao todo, a rede cicloviária da cidade soma 204,6 km, resultado de um crescimento de 180% desde 2012, quando era de 72,9 km. Dois sistemas incentivam as pedaladas: o Bicicletar, iniciado em 2014, que tem 80 estações de bicicletas compartilhadas pela cidade e surgiu como uma solução de transporte de pequeno percurso para facilitar o deslocamento das pessoas. Atualmente,conta com 133 mil usuários cadastrados e 2.600 viagens por dia, o que já ajudou a evitar que 535 toneladas de gás carbônico fossem emitidas na atmosfera. No último dia 23 de março, foi lançado o projeto Mini Bicicletar, que busca incentivar o uso da bicicleta desde a infância, com ações educativas e opções de lazer para as crianças em espaços públicos.

A outra opção são as cinco estações do Bicicleta Integrada, sistema de bicicletas compartilhadas próximo a estações de transporte que já conta com cerca de 3.600 usuários ativos e visa complementar o transporte coletivo com uma alternativa sustentável. Além disso, aos domingos, são disponibilizadas três ciclofaixas de lazer, com 21 Km de percurso para os ciclistas.

Mas nem só de bicicletas é feita a mobilidade de Fortaleza. Para o transporte individual, existe o VAMO (Veículos Alternativos para Mobilidade), um sistema que oferece 20 carros compartilhados 100% elétricos, distribuídos em cinco estações. Pioneiro no Brasil, o projeto é sustentado por patrocinadores e pelos valores pagos pelos usuários, sem custos para o município. Já para os pedestres, como parte do Programa de Apoio à Circulação de Pedestres, a implantação de elementos de infraestrutura como faixas diagonais, prolongamentos de calçadas e travessias elevadas torna mais seguros os deslocamentos a pé pela cidade.

Confira no gráfico as principais iniciativas de Fortaleza em mobilidade urbana:

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Otimizar a rede de circulação utilizada por pedestres, ciclistas e motoristas tem sido um dos principais objetivos da prefeitura. Com o desenvolvimento do projeto de faixas exclusivas para ônibus, iniciado em junho de 2014, e a inauguração do sistema BRT, houve um ganho de velocidade operacional que ajudou a reduzir em até 31,3 minutos o tempo de deslocamento. Além disso, o projeto de implantação dos binários, iniciado há dois anos, vem reorganizando o trânsito e promovendo o convívio saudável entre os diversos modos de transporte.

Para 2017, devem ser entregues mais 50 km de infraestrutura cicloviária. Até 2018, a prefeitura prevê a implantação de um Anel Cicloviário que vai conectar a cidade com 46 Km de novas infraestruturas.

Foto: Kiko SilvaAs mudanças na mobilidade urbana de Fortaleza buscam tirar cada vez mais os automóveis do centro do planejamento, problema recorrente de cidades brasileiras. Segundo o secretário executivo de Conservação e Serviços Públicos, Luiz Alberto Saboia, a cidade precisava começar a lidar com os seus gargalos. “A população reclamava, com razão, do tempo gasto no deslocamento pela cidade, além da qualidade do serviço prestado no serviço público. Nosso esforço, desde 2013, é dotar a cidade de uma rede de faixas exclusivas que dão mais velocidade aos ônibus, de uma rede cicloviária e de um Plano Diretor Cicloviário, que orienta as ações da administração. Isso sem falar, claro, da priorização do pedestre: as ruas precisam ter condições melhores para que as pessoas se sintam seguras para caminhar”, diz Saboia.

A preocupação com a segurança viária se reflete também na integração da cidade à Iniciativa Global em Segurança Viária da Bloomberg Philanthropies, um compromisso para reduzir fatalidades e feridos no trânsito. Ao todo, dez cidades de todo o mundo são beneficiadas (entre elas, também está São Paulo) e, ao longo de cinco anos, a iniciativa vai investir US$ 125 milhões no suporte técnico para os projetos de intervenções urbanas capazes de salvar vidas nas cidades.

Um bom exemplo das ações da Iniciativa Bloomberg em Fortaleza é a primeira Área de Trânsito Calmo, localizada no bairro Rodolfo Teófilo. Foram implementadas medidas de desenho urbano para oferecer mais espaço e segurança para pedestres e pessoas com mobilidade reduzida. Inaugurado em 2016, o projeto inclui sinalização especial, três travessias elevadas para pedestres, 14 prolongamentos de calçadas e um painel eletrônico educativo. A velocidade máxima de 30km/h foi implementada para os veículos, o que promove, além do grande benefício em segurança no trânsito, a melhoria da qualidade de vida e o estímulo à vida urbana e aos serviços do entorno, com bons resultados na redução da poluição sonora e do ar.

Saboia, que também coordena o Plano de Ações Imediatas em Trânsito e Transporte de Fortaleza (PAITT), programa que exerceu grande influência na seleção da cidade para integrar a iniciativa, entende que o desafio diário da administração é melhorar a infraestrutura e o desenho urbano, principalmente para a população mais vulnerável: “Fortaleza se projeta para o futuro como uma cidade de vanguarda, que supera suas próprias metas e trabalha para se tornar referência em muitas áreas. Queremos promover o comportamento mais seguro no trânsito e garantir uma fiscalização mais efetiva, com foco na segurança viária. A partir do momento em que temos uma melhor infraestrutura e conseguimos prevenir acidentes, salvar vidas e evitar o sofrimento de tantas famílias, temos também um custo menor para o sistema de saúde e, assim, conseguimos investir ainda mais na prevenção e em outras intervenções para melhorar a cidade”.

O coordenador da Iniciativa Bloomberg em Fortaleza, Dante Rosado, destaca que a cidade é muito importante para o projeto e está conseguindo implementar uma série de intervenções e mudanças, que servem de referência não só para as outras nove cidades da iniciativa, mas também para outras capitais e cidades brasileiras. “Trabalhar com segurança viária requer mudar o comportamento das pessoas e isso não é fácil de se conquistar no curto prazo. É preciso esforço para alcançar mudanças no curto e médio prazo, algo que nós estamos conseguindo e que pode ser observado nos índices cada vez maiores de redução das mortes provocadas por acidentes de trânsito na cidade”, enfatiza.

(Foto: Queiroz Netto)O WRI Brasil Cidades Sustentáveis é uma das instituições parceiras da iniciativa e trabalha no apoio técnico aos projetos de segurança viária da cidade. Como parte do programa, parceiros como Vital Strategies, Banco Mundial e Associação Nacional de Transportadores na Cidade (NACTO), este último a partir de 2017, também estão apoiando as cidades participantes no caminho para aumentar a segurança através de um melhor desenho das ruas. “Temos oferecido apoio às iniciativas de mobilidade sustentável em Fortaleza através da disseminação das melhores práticas internacionais em desenho viário seguro e da capacitação das equipes técnicas nesses conceitos. Como exemplo, usamos um trecho de projeto bastante desafiador da Av. Domingos Olímpio como estudo de caso em um de nossos workshops técnicos, onde discutimos soluções de desenho mais tarde implantadas pela cidade, oferecendo aos ciclistas uma improtante conexão cicloviária e mais segurança nos deslocamentos por aquela região. É um grande prazer ver de perto e contribuir com todos os avanços de Fortaleza para uma mobilidade sustentável, o que torna a cidade um exemplo de boas práticas a outras cidades do Brasil e do mundo”, conta Rafaela Machado, especialista em Segurança Viária do WRI Brasil Cidades Sustentáveis.

Apesar de planejar mais avanços, Fortaleza já vive os resultados das mudanças em busca de uma mobilidade urbana mais sustentável. “Apesar de algumas iniciativas terem gerado críticas num primeiro momento, a população abraçou as melhorias na infraestrutura cicloviária e as faixas exclusivas para os ônibus. O maior desafio é mudar o comportamento das pessoas no dia-a-dia, seja no respeito às ciclofaixas ou às faixas exclusivas”, comenta Saboia.

“O que nos motiva a trabalhar é a determinação de que é preciso agir para construir uma cidade com ruas e calçadas mais seguras e melhor de se viver. É muito gratificante ver que as coisas estão mudando e que muitas vidas estão sendo salvas com esse trabalho. Isso é impagável. Nossa expectativa é divulgar índices cada vez menores de mortes e de acidentes e melhores condições de trânsito, principalmente para pedestres, ciclistas e usuários do transporte público”, conclui Dante.

 

Post originalmente publicado no site do WRI Brasil Cidades Sustentáveis.