O que está impedindo a América Latina de fazer a transição para ônibus limpos?

O BRT transmilênio, em Bogotá (Foto: Andrés Cortés/ Comité Internacional de la Cruz Roja / Flickr)

O BRT Transmilenio, em Bogotá (Foto: Andrés Cortés / Comité Internacional de la Cruz Roja/Flickr)

As 18 cidades latino-americanas que já assinaram a Declaração de Intenções para Ônibus Urbanos Limpos de 2015 estão enviando sinais claros ao mercado sobre o compromisso de fazer a transição de suas frotas para ônibus limpos. O momento para uma transição é agora, já que muitas cidades da região, como Bogotá e Santiago, estão se preparando para renovar parte de suas frotas de ônibus nos próximos dois anos – uma oportunidade que não se apresentará novamente no futuro próximo.

Como essas cidades reconheceram, a transição para ônibus que emitem poucos ou nenhum poluente pode criar benefícios econômicos, ambientais e de saúde. Em geral, esses veículos têm custos de operação mais baixos do que os tradicionais, devido à redução do consumo de combustível e da manutenção, e cidades como Londres já usufruíram dessa economia. Os ônibus limpos também podem ajudar a combater a poluição do ar e as mudanças climáticas. Níveis menores de poluição sonora e vibração tornam a viagem mais agradável para os passageiros e condutores, além de melhorar a vida de quem vive às margens de um corredor de ônibus.

No entanto, a adoção de ônibus mais limpos ainda está em fase inicial em toda a região. As frotas de ônibus urbanos são, na maior parte, abastecidas com diesel. Em comparação com Europa, China e EUA, a adoção avança lentamente. Somente em 2013, Santiago, no Chile, testou seu primeiro ônibus elétrico, e em 2015 Campinas (SP) anunciou planos para adquirir dez ônibus elétricos, o que seria a maior frota no Brasil. Somente Bogotá conseguiu um modesto sucesso, com mais de 300 ônibus híbridos que já fazem parte de sua frota.

O que está atrasando as cidades latino-americanas e o que pode ser aprendido com modelos de negócio de sucesso pelo mundo sobre formas de acelerar a transição para ônibus menos poluentes?

Mapa mostra a adoção de ônibus limpos pelo mundo e a falta de exemplos latino-americanos (Gráfico: Xiangyi Li /WRI)

Mapa mostra a adoção de ônibus limpos pelo mundo – em azul os elétricos e em laranja os híbridos – e a falta de exemplos latino-americanos (Gráfico: Xiangyi Li /WRI)

Custos iniciais elevados, o risco da tecnologia e modelos de aquisição distorcidos mantêm a demora

A primeira grande barreira que impede a transição para ônibus limpos nas cidades é o custo inicial dos veículos. Ônibus elétricos podem custar entre 120% e 150% a mais do que os veículos a diesel, especialmente se as baterias estiverem incluídas no custo total. Os desincentivos financeiros também podem adicionar custos indiretos, tanto antecipadamente quanto durante o ciclo de vida de um ônibus. No Brasil, por exemplo, as tarifas de importação destinadas a proteger a produção local e os empréstimos de baixo custo para a produção local interferem nas decisões para os investimentos. Subsídios para o diesel também são um fator importante, pois tornam o combustível financeiramente atrativo para os proprietários de ônibus.

Segundo, muitos operadores de ônibus acreditam que as novas tecnologias são arriscadas e questionam se elas serão capazes de fornecer o mesmo nível de serviço que os ônibus a diesel. Existem poucos exemplos de operações de ônibus elétricos de longo prazo pelo mundo, por isso ainda persistem questões sobre sua adequação para operar em condições latino-americanas. Ainda não está claro se com as baterias atuais os operadores precisam de mais ônibus para obter a mesma cobertura de rotas atendida atualmente por ônibus a diesel, nem se os ônibus e as próprias baterias durarão mais de dez anos, como esperado. Os operadores não estão apenas preocupados com a forma como a tecnologia vai responder, mas também com a mudança na cadeia de abastecimento que eles construíram ao longo dos últimos 40 anos ou mais operando com diesel. Essa cadeia de produção inclui o abastecimento de combustível, o fornecimento de peças sobressalentes e a oferta de pessoal para manutenção – tudo isso pode ser bastante difícil de mudar.

Finalmente, é necessário garantir que compromissos como a Declaração de Intenções para Ônibus Urbanos Limpos de 2015 sejam devidamente refletidos nos contratos de concessão que estão sendo desenvolvidos atualmente em toda a região. Os sistemas de transporte público e de Bus Rapid Transit (BRT) da América Latina costumam ser contratados por processos de licitação aberta que priorizam as opções de menor custo. Embora esse modelo tenha muitos benefícios (pode incentivar a competição e a inovação do setor privado), desqualifica frequentemente tecnologias mais caras. É necessário introduzir alterações no modelo de contratação para garantir condições equitativas para os ônibus limpos.

O que a região precisa para a transição?

Existem várias opções para enfrentar a combinação de desafios que inclui os custos iniciais, o risco da tecnologia e os modelos de licitação. As administrações públicas, os fornecedores de tecnologia e de serviços e a comunidade financeira têm um papel importante a desempenhar para construir um mercado de ônibus limpos na região.

  • O poder público pode dar sinais para fortalecer o mercado

Várias ações do setor público podem criar confiança no mercado emergente de ônibus limpos. Compromissos públicos – como Paris fez ao anunciar que irá avançar para frotas de emissões zero no médio prazo – são fundamentais, mas o discurso ganha força quando se fala em financiamento. No Reino Unido, um fundo para tecnologia de ônibus limpos disponibilizou bolsas de capital para as cidades, totalizando cerca de 7 milhões de libras esterlinas (US$ 8,56 milhões) em 2015, para pagar os custos mais elevados de tecnologia. Subsídios e incentivos fiscais sobre a compra de veículos, a operação e a manutenção são formas importantes de o setor público indicar que valoriza os benefícios ambientais, sociais e econômicos dos ônibus limpos.

A revisão dos quadros institucionais e dos processos de contratação pode ser transformadora. As novas contratações do Transantiago estão exigindo um número mínimo de ônibus de emissão zero. A nova licitação prevê períodos de depreciação mais longos para tecnologias limpas, o que ajuda os operadores a amortizar os custos iniciais mais altos em períodos de retorno mais longos. Esses são sinais claros para o mercado, e são boas medidas iniciais para alcançar a implementação.

  • Fabricantes e fornecedores de serviços precisam confiar na tecnologia

Fabricantes de veículos, empresas de serviços públicos e outros prestadores de serviços auxiliares têm um papel fundamental para ajudar o mercado a ajustar as percepções sobre o risco das novas tecnologias. Locações de baterias – como os fabricantes ofereceram à cidade de Shenzhen (China) – podem diminuir o risco para os operadores. Além disso, ofertas de pacotes em que os fabricantes incluem manutenção e treinamento podem ajudar a superar a percepção de risco na transição para novas tecnologias. Projetos-piloto podem ajudar os operadores a entender melhor as tecnologias, incluindo suas vantagens e desvantagens em relação às operações atuais. Os fabricantes também podem ajudar a reduzir custos. Em 2014, a BYD instalou sua primeira fábrica latino-americana em Campinas para fugir das tarifas de importação, ao mesmo tempo em que injetou mais de US$ 65 milhões na economia e criou mais de 450 empregos no processo.

  • Uma mescla de financiamento público e privado

A união entre financiadores públicos e privados poderia destravar o setor de ônibus limpos. O problema não é simplesmente a falta de financiamento para investimentos em ônibus limpos, mas o fato de existirem outras oportunidades menos arriscadas e mais atrativas aos investidores. Nesse caso, as instituições financeiras públicas podem desempenhar um papel transformador, fornecendo empréstimos subsidiados, garantias de crédito e capital semente para fundos de investimento visando alavancar o capital privado. Por exemplo, o Fundo de Tecnologia Limpa (CTF, na sigla em inglês), através do Banco Interamericano de Desenvolvimento, forneceu um empréstimo em condições favoráveis para os operadores de Bogotá para a compra dos primeiros ônibus híbridos que operam na cidade. Esse mecanismo forneceu crédito disponível, acessível, que de outra forma não estaria disponível no mercado devido ao alto risco.

A hora da transição é agora

A transição para ônibus limpos na América Latina depende da capacidade de três atores-chave de reequilibrar os modelos de negócio existentes para que haja um retorno aceitável para todos os envolvidos, apesar do risco dos investimentos. Criar espaço um para o diálogo, em que todos tenham conhecimento das opções disponíveis, é importante. Isso é essencial para o desenvolvimento de modelos de negócio adequados às circunstâncias locais. Se os três atores convergirem, novos modelos de negócio permitirão que o setor público atinja seus objetivos de serviço, os operadores satisfaçam seus lucros e os financiadores obtenham retorno sobre o investimento.

O contato entre as autoridades públicas, os operadores de ônibus, os fornecedores de tecnologia e os financiadores deve ocorrer no início do processo de investimento, para que o interesse de todos seja levado em consideração. Ônibus limpos já são uma realidade em diversas partes do mundo, e as cidades da América Latina precisam fazer parte dessa tendência antes que fiquem para trás.

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Financing Sustainable Cities é uma iniciativa do WRI Ross Centro para Cidades Sustentáveis e do C40, financiado pela Citi Foundation, focada em ajudar as cidades a desenvolver modelos de negócio que possam acelerar a implementação de soluções urbanas sustentáveis.

O projeto Climate Technology Transfer Mechanisms, realizado pela WRI com o apoio do Banco Interamericano de Desenvolvimento e do Fundo para o Meio Ambiente Mundial (GEF), auxilia os governos latino-americanos a superar as barreiras à implementação de tecnologias de transporte de baixo carbono.