Mudando a lógica: contabilizando não apenas os veículos, mas as pessoas

(Foto: Mariana Gil/WRI Brasil Cidades Sustentáveis)

(Foto: Mariana Gil/WRI Brasil Cidades Sustentáveis)

Medir o movimento das pessoas nunca foi prioridade para a definição das políticas públicas de trânsito nas cidades. O protagonismo do carro sempre foi o principal fator para os planejadores urbanos. Isso, somado ao aumento do poder aquisitivo da população, resultou em mais congestionamentos, maior poluição do ar e aumento do número de mortes no trânsito. Hoje, o número de carros nas vias urbanas ultrapassa a marca de 1 bilhão, com estimativa de crescimento para 2,5 bilhões até 2050. Esses números afirmam a importância de uma mudança de cultura, e é nesse sentido que o Departamento de Transportes dos Estados Unidos anunciou, no início deste ano, novas diretrizes para as agências de trânsito por todo o país, que devem passar a contar as pessoas, não apenas os veículos.

As novas diretrizes principais foram mapeadas pelo StreetsBlog U.S.A. A primeira muda o paradigma: os estados americanos devem medir o movimento das pessoas, não apenas de veículos. Antes, ao contabilizar o tráfego, se algum dos veículos fosse um ônibus com 40 pessoas, seria calculado da mesma forma que uma única pessoa dirigindo uma SUV. Agora, a medida indicada é contar o tráfego de pessoas por hora, ao contrário de veículos por hora. Outra mudança é que pessoas caminhando, pedalando ou de carona devem ser computadas. Essa regra cria uma “medida de desempenho multimodal”, segundo o StreetsBlog. Assim, o Departamento de Trânsito dos Estados Unidos cria uma unidade de medida para que os estados estabeleçam metas para aumentar o transporte ativo.

Nas diretrizes originais, o Departamento de Trânsito americano media o congestionamento por meio da comparação entre o tempo que os veículos demoravam para chegar ao destino durante a hora do rush e nas condições de pouco tráfego. Essa maneira de analisar fomentava a expansão das estradas e o espraiamento urbano. Agora, com as novas determinações para as análises, o governo americano pretende atender substancialmente as necessidades ambientais e humanas.

Outra diretriz determinada recentemente foi a obrigatoriedade de controlar as emissões de carbono. E isso é inédito. As agências de transporte terão de monitorar o impacto de seus projetos nas emissões de gases do efeito estufa. Ou seja, qualquer regra ou política pública implantada nas estradas americanas deve ser planejada já com o monitoramento de emissões em perspectiva.

Deslocamentos importam no planejamento da cidade

Uma medida no mesmo sentido surgiu em Portland no final do ano passado, quando o Conselho Municipal determinou a cobrança de taxas para os negócios locais considerando (com foco nos carros) o número de deslocamentos que geram. O planejamento de uma cidade é intrinsecamente ligado ao número de deslocamentos que ocorrem em seu território geográfico. São essas viagens que determinam como serão desenhadas as ruas, a quantidade de estacionamentos e para onde serão direcionados os impostos.

Portanto, a Prefeitura de Portland cobra uma taxa baseada no impacto que o novo edifício terá no sistema de transporte. No entanto, a metodologia de medição desses deslocamentos estava sendo baseada quase inteiramente nos veículos privados. Agora, o programa de cobrança de taxas será reestruturado para que sejam baseadas no número de pessoas por hora.

Assim, a cidade transforma sua metodologia ao focar na quantidade de pessoas que utilizam a rua “pessoas fazendo uma variedade de coisas – não apenas dirigindo um carro – o que indica que se olha para um nível de serviço multimodal e se planeja a cidade que queremos”, destaca o portal BikePortland.