Em cidades com alta poluição do ar, caminhar e pedalar já faz mais mal do que bem à saúde

 

Em Deli, na Índia, o limite de tempo antes que pedalar faça mal para a saúde seria de uma hora (Foto: Travis Wise, Flickr)

Em Deli, na Índia, o limite de tempo antes que pedalar faça mal para a saúde seria de uma hora (Foto: Travis Wise, Flickr)

O transporte ativo, além de colaborar com o meio ambiente, também faz bem para a saúde e serve para tirar muitas pessoas do sedentarismo. Por isso, caminhar ou pedalar nos deslocamentos é cada vez mais estimulado nas cidades. Mas há um inimigo muitas vezes invisível a esse hábito: a poluição do ar. Como o ar não é puro, será que os benefícios da atividade física são maiores do que os malefícios da maior exposição? Segundo alguns pesquisadores, pedalar até o trabalho em algumas cidades muito poluídas pode ser pior para a saúde do que nunca pedalar.

Em cidades como Allabahad, na Índia, ou Zabol, no Irã, o prejuízo a longo prazo por respirar as pequenas partículas tóxicas pode ultrapassar os ganhos comuns de usar a bicicleta por um tempo maior do que 30 minutos. Em Riyadh, na Arábia Saudita, 45 minutos de pedalada diária em uma via bem ocupada é o suficiente para os danos. Já em Deli, na Índia, ou na cidade chinesa de Xingtai, o limite seria de uma hora. Outros exercícios com a mesma intensidade, como uma corrida leve, podem ter os mesmos efeitos.

O estudo foi originalmente publicado na revista Preventive Medicine e levou em conta os níveis das pequenas partículas PM 2.5, poluentes que podem se incorporar ao pulmão. Além disso, a pesquisa levou ao entendimento de que os ciclistas usam estradas com o dobro dos níveis de poluição do ar, o que pode subestimar os resultados em muitas cidades em desenvolvimento. As emissões dos motores de veículos e da indústria são as principais fontes desse tipo de poluição.

Os resultados mostram 15 cidades que teriam o nível anual de PM2.5 de 115μg/m3 ou mais, de acordo com os níveis apresentados na base de dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), onde o ponto de virada, ou seja, quando o transporte ativo se torna mais prejudicial do que bom para a saúde, seria de uma hora. Em outras 62 cidades, os níveis atingiam 80 μg/m3, aumentando o tempo para duas horas.

Os 30 minutos seriam o ponto de virada apenas em Zabol, no Irã, Allahabad e Gwalior, na Índia. No entanto, como muitas cidades em desenvolvimento não medem adequadamente a poluição do ar, não estão na base da OMS e não entraram na análise. Por outro lado, os pesquisadores descobriram que ciclistas das cidades de Londres, Paris e Nova York nunca devem chegar ao ponto de que o exercício nas ruas faça mais mal do que bem em longo prazo.

Em 2012, estudo semelhante foi realizado em São Paulo. Publicada na revista “Medicine in Science and Sports Exercise”, do Colégio Americano de Medicina do Esporte, que fica em Indianápolis (EUA), a pesquisa mostrou que quem se exercita continuará tendo pulmões mais saudáveis que aqueles que ficam parados, mesmo respirando fundo um ar carregado como o da capital paulista. Isso porque os pulmões mais fortes inibem os efeitos da poluição.

Nenhuma cidade brasileira está na lista dos maiores níveis de concentração de PM2.5 no ar, o que garante que no país o transporte ativo ainda é benéfico para a saúde. De qualquer forma, o ideal é ficar atento aos caminhos e evitar pontos com grande circulação de caminhões e ônibus, quando possível. Assim, caminhadas e pedaladas seguirão como uma alternativa saudável e sustentável para os deslocamentos diários.