Como deve ser a casa do futuro?

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Construir sem agredir o planeta: o desafio da arquitetura para as próximas décadas (Foto: Circuito Fora do Eixo/Flickr)

Quando eu era criança, imaginava o futuro com carros voadores, cidades suspensas, trabalho automatizado, aparelhos eletrodomésticos inteligentes, robôs que, além de cozinhar, lavar e limpar a casa, ainda dariam conselhos e cantariam para o bebê dormir. Com um toque no botão no meu “relógio-controle-remoto”, eu acionaria luzes, controlaria a umidade e temperatura do ambiente, prepararia a hidromassagem com meus sais prediletos, trancaria janelas e portas, controlaria as cortinas, ligaria o som, regaria o jardim e prepararia uma recepção com abraço apertado e cachorro abanando o rabo (ops. acho que não existe essa função).

Na minha imaginação, o humano teria pouca participação nessa casa do futuro, além de desfrutar e monitorar.

O ano 2000 seria a data do evento – “O futuro chegou!”– e no dia 1º de janeiro de 2000 o futuro entraria pela porta da frente do planeta.

Estamos em 2017 e não vejo carros voando, não tenho nenhum robô fazendo meu suco, apenas um liquidificador pilotado por mim mesma; ainda acendo as luzes no interruptor e ligo o som com meu dedo indicador. O futuro tem menos casas inteligentes do que eu imaginava, menos abundância e muito mais pessoas, lixo e carências. Mudou o futuro, ou mudei o conceito de futuro?

Algumas questões são fundamentais para entender um pouco a respeito da casa e do futuro – dois conceitos que mudam a cada novidade tecnológica.

A primeira delas é: “Qual a quantidade de pessoas que a Terra consegue abrigar e alimentar?”

A segunda: “Como construir casas e produzir alimento para uma população de 7 bilhões de pessoas sendo que a tendência da população mundial é de dobrar a cada 35 anos, aproximadamente?”

E, por fim: “Como abrigar toda essa população em uma moradia adequada, na qual o cidadão possa ter atendidas as suas necessidades básicas e fundamentais de subsistência, com dignidade e sem causar danos ao planeta?”

Somos sete bilhões de pessoas organizadas em tribos, completamente diferentes em seus hábitos, crenças, expectativas, ambições, dogmas, relação com o planeta e com o grupo em que está inserido. Muita diversidade para um planeta que pede socorro e uma população de seres vivos que agoniza junto com ele.

O cenário é desafiador, tanto para a casa quanto para o futuro:

  • no Brasil, o déficit habitacional gira em torno de 6 milhões de unidades;
  • o setor da construção civil consome 75% dos recursos naturais extraídos, gera 80 milhões de toneladas de resíduos por ano devido à queima de combustíveis fósseis, sua cadeia produtiva contribui de forma significativa para a emissão de gases de efeito estufa (GEE), como o CO2, e também responde por 40% do consumo mundial de energia e por 16% da água utilizada no mundo;
  • estima-se que, atualmente, um bilhão de pessoas passam fome no mundo.

De acordo com Lester Brown, “a questão não é o quanto consumimos, mas como produzimos o que consumimos.” Podemos acrescentar, ainda, “como descartamos o que consumimos”. Diante desse cenário, como seria a casa do futuro? Um projeto arquitetônico de uma casa de baixo custo, orientado a partir de diretrizes gerais relacionadas a projetos sustentáveis, inclui:

  • Acessibilidade: todos os espaços de passagem e banheiros permitem a movimentação segura de idosos e cadeirantes, com “possibilidade e condição de alcance, percepção e entendimento para a utilização com segurança e autonomia de edificações, espaço, mobiliário, equipamento urbano e elementos” (ABNT, 2004).
  • Adequação climática: adequação ao local e ao clima, visando amenizar a radiação solar excessiva e privilegiar a ventilação e iluminação natural.
  • Águas: captação e utilização de água de chuva, redução do uso e tratamento de águas residuárias.
  • Energia: redução do consumo de energia e desenvolvimento de tecnologias de baixo custo para utilização de energia solar e eólica, de acordo com a região.
  • Materiais e tecnologias de construção: identificar os materiais locais e recursos naturais, bem como desenvolver novos materiais e componentes; proporcionar a interação dos moradores da comunidade e seus saberes com o processo construtivo.
  • Saneamento eficiente: desenvolver fossa séptica mais eficiente e, ao mesmo tempo, acessível às populações mais pobres.
  • Sistema construtivo: adoção de sistemas de construção otimizados que possibilitem a autoconstrução e a diminuição de perdas de material.
  • Horta caseira: cultivar e produzir alimentos livres de agrotóxicos. Além de contribuir para uma alimentação saudável, cultivar alimentos em casa simboliza a conexão com o próprio planeta – aprender a cuidar de uma horta é aprender a cuidar da vida e dos seres do planeta.

A crise pela qual passamos não é apenas ambiental; é também civilizacional. O planeta retoma seu equilíbrio, mas a humanidade não. Nossa carência não é unicamente de casas e educação ambiental, mas de valores, ética, identidade e respeito pelo planeta.

A arquitetura é um instrumento para ajudar nesse processo de cura do planeta e resgate da dignidade e qualidade de vida do ser humano. Nossa casa é nosso primeiro abrigo e pode se tornar a porta para a descoberta de ser e estar no mundo. Construir casas que permitam essa experiência, sem agredir o planeta, é o desafio da arquitetura. O grande desafio da Sustentabilidade e Humanização da Arquitetura é adequar a casa ao lugar, em harmonia com a natureza, respeitando a cultura e as expectativas da comunidade; é atender as necessidades de sobrevivência e dignidade.