Participação social e place branding: missões para as novas gestões municipais

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Conhecer a vocação da cidade e ouvir os cidadãos ajuda a tornar as cidades mais eficientes e melhores para as pessoas (Foto: Caio Esteves)

O Brasil vive um cenário político e econômico conturbado, no qual as cidades carecem de propostas e soluções concretas para as questões urbanas. Nesse contexto, um ponto relevante para as novas administrações municipais é a “visão de cidade”. Além de estabelecer as metas para o futuro, essa visão precisa ser compreendida pela população, a fim de que possa traduzir seus anseios.

O envolvimento das pessoas nas discussões e processos de tomada de decisão é fundamental. Ao engajar a comunidade, o poder público passa a entender melhor o que deve ser feito, de que maneira e, principalmente, onde deve ser feito. Trata-se de um caminho para obter os inputs necessários a uma tomada de decisão mais assertiva – afinal, ninguém conhece melhor os problemas e desejos (sonhos, arrisco dizer) da população do que ela própria. Isso não significa que as pessoas conheçam a solução para tudo; a premissa, aqui, é que profissionais técnicos e gestores públicos não serão capazes de chegar a ela sozinhos, sem um processo de participação social bem estruturado.

Participação popular vai além de informar os cidadãos ou perguntar o que pensam. Envolver é engajar, co-criar. Engajar é garantir que a opinião das pessoas será levada a sério e dar a elas a certeza de que são uma peça-chave no processo contínuo de transformação do ambiente urbano.

Dois casos confirmam que o envolvimento popular não é uma utopia e mostram que as pessoas, juntas, podem sim ajudar a transformar suas cidades. O primeiro é a reconstrução de Christchurch, na Nova Zelândia, após o terremoto que devastou o lugar em 2011. O projeto Share an Idea contou com a participação de uma parcela significativa da comunidade, gerando um total de 106 mil ideias. Outro exemplo vem de Reykjavik, na Islândia. O projeto Better Reykjavik, uma plataforma colaborativa online, conecta cidadãos e prefeitura para avaliar os projetos que serão feitos na cidade. Mais de 70 mil pessoas dos 120 mil habitantes participaram da plataforma desde que foi lançada e já submeteram 3.300 ideias, das quais 165 foram formalmente aceitas pela administração municipal.

Em ambos os casos, assim como em todos os processos de participação social bem conduzidos, o que vemos não são apenas sugestões para a gestão municipal, mas a formação de algo que podemos chamar de senso de pertencimento: uma relação entre pessoas e lugares que cria elos afetivos, fortalece a vida comunitária e, em última instância, eleva a qualidade de vida das pessoas envolvidas.

São Paulo, participação social

Conhecer os anseios e necessidades da população é fundamental para uma boa administração municipal (Foto: Victor Moriyama)

Junto à participação, outro elemento que as novas gestões devem ter em mente para os mandatos que se iniciam é a vocação dos lugares. Qual a vocação de cada cidade?

A identificação dessa vocação é um dos eixos centrais da abordagem de place branding e é trabalhada a partir de uma pesquisa aprofundada, na qual são mapeados os vetores econômicos, existentes e possíveis, e a identidade do lugar, que, por sua vez, é reflexo da identidade da própria população. Essa compreensão é capaz de fortalecer um lugar investindo em sua vocação e em sua identidade, fortalecendo aquilo que só ela tem, o que a torna uma cidade única.

A mensagem por trás do conceito de place branding é de que todas as cidades tem uma singularidade, algo que as tornam únicas. Por muito tempo, essa singularidade era vista como um privilégio apenas das cidades turísticas, mas essa crença vem mudando. No último prêmio City Nation Place, na Inglaterra, a cidade premiada como a melhor “Expressão de Identidade de Marca”, ou a cidade que melhor trabalhou sua singularidade, foi Edmonton, do Canadá.

A cidade, pouco conhecida internacionalmente, realizou uma pesquisa que revelou a falta de identificação dos moradores com a cidade – apesar de relatarem gostar do lugar onde viviam, não se sentiam representados pela identidade desenvolvida pela prefeitura.

Segundo a breve história contada na premiação:

Anos atrás, quando éramos um lugar isolado, nos reinventamos. Criamos nossas próprias soluções. Esse espírito permanece até hoje. Os que assumem riscos, as pessoas com ideias, prosperam em uma cidade cooperativa. Edmonton é um lugar sem hierarquia. Cinco minutos aqui e você é um de nós.

O projeto Make Something Edmonton, que renovou a vocação da cidade, foi abraçado por moradores e empresários locais. O exemplo da cidade canadense, com reconhecimento internacional, comprova a ideia de que todos os lugares podem ser únicos e trabalharem seus diferenciais em benefício dos próprios moradores.

Ao integrar no processo de planejamento urbano uma estratégia de participação social e o investimento em place branding, a fim de fortalecer a vocação e a identidade da cidade, as administrações municipais têm a oportunidade de reforçar a essência de suas cidades e fazer delas um lugar acolhedor tanto para a população quanto para as cidades.

  • Andre Miranda

    Em alguns lugares em meu bairro observo esse “potencial singular” e em uma cidade como São Paulo a ideia de Edmonton poderia ser aplicada utilizando suas subprefeituras e suas lideranças locais e pensar essa singularidade para atender a demanda local sem precisar a população ir tão longe para ter educação, trabalho, saúde, entretenimento, etc. Cada local atender sua demanda e assim trocar experiências com as outras regiões. Temos uma dificuldade em uma cidade como São Paulo imagina o restante do país? É um grande desafio mas também uma grande oportunidade.

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