Secretário nacional de Acessibilidade e Programas Urbanos sobre cidades inteligentes: “Não podemos ficar para trás”

No centro, o secretário nacional de Planejamento Urbano do Ministério das Cidades, Eleoterio Codato (Foto: Caroline Donatti/WRI Brasil Cidades Sustentáveis)

No centro, o secretário nacional de Planejamento Urbano do Ministério das Cidades, Eleoterio Codato (Foto: Caroline Donatti/WRI Brasil Cidades Sustentáveis)

O WRI Brasil Cidades Sustentáveis promoveu, na última semana, uma missão técnica com gestores públicos brasileiros ao Reino Unido para que eles conhecessem conceitos e boas práticas de cidades inteligentes. O secretário Nacional de Acessibilidade e Programas Urbanos, Eleoterio Codato, foi um dos participantes.

Eleoterio trabalhou no Banco Mundial entre 1991 e 2013 e foi convidado a assumir o cargo no Ministério das Cidades em setembro deste ano. Tem como áreas de especialização e interesse o financiamento municipal e de infraestrutura, a participação do setor privado na prestação de serviços de infraestrutura e o planejamento estratégico de cidades. Graduado em Engenharia Civil pela Universidade Estadual de Londrina, possui Mestrado em Planejamento Comunitário e Regional pela Universidade da Columbia Britânica, no Canadá.

Qual á o principal desafio para que as cidades se tornem mais inteligentes?

Eu vejo duas dificuldades. Primeiro, o próprio reconhecimento por parte das autoridades locais, os prefeitos, de que esse é um tema que pode realmente trazer vantagens ao aperfeiçoar a oferta de serviços públicos da cidade. Precisaria haver um trabalho de convencimento da utilidade deste tipo de trabalho. O segundo desafio, e que também talvez seja um pouco mais difícil de transpor, é a ausência nas universidades brasileiras de profissionais que sejam conhecedores do tema e que possam auxiliar na busca por soluções inovadoras. Eu percebi que, tanto em Glasgow quanto em Milton Keynes e em Londres, existe uma sinergia muito grande entre as áreas de conhecimento, as universidades, que geram conhecimento e informação, e quem utiliza esses instrumentos para gestão urbana. Eu não sei se existe alguma universidade que tenha se destacado no tema, mas pelo meu conhecimento, eu acho que ele ainda não foi abraçado com a devida atenção que merece nas universidades brasileiras.

Quais problemas urbanos que as cidades enfrentam hoje poderiam ser minimizados por sistemas mais inteligentes?

A questão da segurança pública é um problema seríssimo. O que vimos em Glasgow, e que me deixa muito animado em relação às soluções inovadoras, pode permitir um trabalho mais efetivo dos governos locais para garantir a segurança pública. Sem dúvida nenhuma a possibilidade da aplicação dessas tecnologias inovadoras para melhorar a gestão dos serviços públicos é quase infinita porque você pode ir avançando e incluindo outras áreas. Existe a possibilidade de ter um aplicativo em que a pessoa tira uma foto georreferenciada em uma disposição incorreta de resíduos sólidos, por exemplo. Isso poderia ser uma grande contribuição não só para o tratamento mais adequado dos resíduos sólidos, mas também no que vem em decorrência, que é melhorar a saúde pública. A gente sabe que, no Brasil, hoje, a disposição incorreta de resíduos sólidos pode gerar vetores de transmissão de doenças como chicungunha, zica e outros tantos. Os benefícios podem ir muito além do que vemos de imediato na aplicação.

(Foto: Caroline Donatti/WRI Brasil Cidades Sustentáveis)

(Foto: Caroline Donatti/WRI Brasil Cidades Sustentáveis)

Qual é o papel do governo federal para incentivar o desenvolvimento de cidades mais inteligentes?

O nosso papel principal dentro do governo federal seria de facilitar a troca de experiências. Eu penso em apresentar uma proposta em que nós estruturaríamos algo que permitisse essa troca de informação entre as cidades para poder recolher o resultado dessas experiências. Nós temos no Ministério da Cidades uma plataforma de conhecimento que é a capacidades.gov.br, que você acessa informações sobre diversas áreas do conhecimento. Essa plataforma é para os municípios e para quem quiser acessar, pois é uma plataforma aberta. Poderíamos criar uma área específica de smart cities e colocaríamos essas informações e iniciativas para divulgar na plataforma. Cada cidade já está fazendo uma coisa diferente. Podemos facilitar essa troca de experiências e desenvolver políticas públicas para apoiar isso.

Qual é a relevância desta missão técnica ao Reino Unido dentro de sua atuação profissional?

Conhecer essas iniciativas que já utilizam a tecnologia para melhorar os serviços públicos é fundamental para a construção das cidades do futuro. Precisamos aprender com o Reino Unido a desenhar programas e políticas nessa linha ou as cidades vão ficar para trás e nada vai melhorar. Temos que conhecer os caminhos que as cidades estão trilhando e ir nessa direção para começar a fazer parte desse novo mundo. Aqui vimos uma universidade muito engajada na busca por soluções dos problemas urbanos. As universidades brasileiras precisam se engajar mais e auxiliar as cidades a trilharem esse caminho.

Gostei também do contraste de formatos de cidade inteligente entre Glasgow e Milton Keynes. O que nós vimos em Glasgow foi um sistema de informações que permite você melhorar a qualidade dos serviços públicos, a satisfação dos usuários e a qualidade do governo local na administração dos serviços. Já em Milton Keynes, as ações são muito mais voltadas ao usuário final para escolher o modo de transporte, informação de tempo de viagem etc. Há uma política de governo para melhorar o uso dos dados. São duas maneiras de usar e disponibilizar informações de forma periódica de sistemas inteligentes. No Brasil, temos que melhorar a qualidade de serviços públicos. O foco até hoje em administração pública, a preocupação, é com a equidade. Essa preocupação é presente, mas a eficiência não pode ser descartada. O ideal é melhorar os serviços para todos. Eu vejo que a deficiência na prestação dos serviços poderia ter um salto de qualidade se a gente adotasse alguns sistemas como aqueles que vimos em Glasgow.

Leia mais sobre a missão:

Do governo nacional aos bairros: líder em cidades inteligentes, Reino Unido mostra força na governança;

As pessoas no centro do planejamento da rede de transportes das cidades;

O modelo britânico de Parcerias Público-Privadas

Como Glasgow se transformou na cidade mais inteligente do planeta

O que as cidades brasileiras podem aprender com o Reino Unido sobre cidades inteligentes?

A missão técnica ao Reino Unido é parte do projeto Cidades + inteligentes no Brasil, realizada em parceria entre WRI Brasil Cidades Sustentáveis e Future Cities Catapult e conta com o apoio da Embaixada Britânica.  Celio Bouzada, da BHTrans; Eleoterio Codato, do Ministério das Cidades, João Domingos Azevedo, do Instituto Pelópidas Silveira (Recife), Matheus Ortega, gerente de infraestrutura do Prosperity Fund da Embaixada Britânica e Guilherme Johnson, da Future Cities Catapult,  participaram de uma viagem de cinco dias ao Reino Unido  para conhecer boas ideias de cidades inteligentes que podem inspirar os municípios brasileiros a serem mais inovadores.