As mulheres e a cidade: o poder da nossa voz

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Mulheres reunidas no seminário que debateu a importância de considerar a perspectiva feminina no planejamento da mobilidade (Foto: Mariana Gil/WRI Brasil Cidades Sustentáveis)

“Eles ainda decidem por nós.”

A frase dita por Meli Malatesta, do blog Pé de Igualdade, reflete a situação da representatividade das mulheres nas esferas de decisão no Brasil. Somos mais de metade da população brasileira, mas ocupamos apenas 10,7% das cadeiras no Congresso Nacional (entre deputadas e senadoras), apenas 5% dos cargos de CEOs nas empresas do país. O baixo número de vozes femininas nos processos que definem grande parte do nosso dia a dia contribui para que as cidades se tornem ambientes hostis e pouco acolhedores. Sem a perspectiva de gênero no planejamento urbano, o medo é a palavra que define a experiência das mulheres ao se deslocarem em suas cidades.

Por outro lado, cada vez mais vemos exemplos de iniciativas, projetos e coletivos transformando a realidade por onde passam. Nessa segunda-feira (5), o WRI Brasil Cidades Sustentáveis se uniu a organizações parceiras para debater a mobilidade urbana a partir da perspectiva de gênero. As discussões, lideradas exclusivamente por vozes femininas, contaram com a participação de pelo menos 18 painelistas, entre especialistas dos setores de mobilidade e planejamento e mulheres atuantes nos debates contemporâneos sobre o ambiente urbano.

Conversei com algumas delas a respeito de dois pontos-chave que ganharam destaque nas conversas ao longo do dia:

  • por que aumentar a representatividade feminina nas tomadas de decisão é fundamental para a construção de cidades mais humanas;
  • e como deveria ser, em um cenário ideal, a relação das mulheres com a cidade ao seu redor.

Entre momentos de reflexão e sorrisos, resistência e positividade, as mensagens deixadas por essas mulheres são um exemplo para todas* nós: juntas somos mais fortes.

Ao finalizar a frase acima, uma linha azul sublinhou a palavra todas, e o corretor do Word sugeriu que eu a substituísse por seu equivalente masculino – todos. Mantive minha escolha inicial. Hoje, como mulher, escrevo acima de tudo para elas, para vocês, para nós: mulheres. Somos muitas, somos fortes, temos o direito e o poder de lutar para que a mobilidade urbana e as cidades como um todo sejam pensadas de forma a garantir nossa segurança e dignidade.

 

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 Meli Malatesta, do blog Pé de Igualdade

A diversidade de pensamento é fundamental na hora de pensar e planejar os espaços públicos da cidade. O comportamento das mulheres tende a ser mais seguro, e essa postura, assumida tanto no trânsito quanto no trabalho, contribui de forma significativa também para os processos de planejamento. Na cidade ideal, teríamos a participação efetiva das mulheres nos processos de tomada de decisão na cidade. Eu adoraria ver mulheres prefeitas, secretárias de mobilidade, ocupando mais cargos de chefia. Tenho certeza que os retornos seriam sentidos na prática, com ambientes melhores e mais bem planejados.

 

 

Marina Rara, jornalistamarina2

Ter voz nas tomadas de decisão é uma questão de garantir nossos direitos. É preciso que as mulheres ocupem esses espaços para que possamos ser devidamente contempladas. A violência, o desrespeito, os abusos – nada disso pode ser combatido a partir do olhar apenas do homem. A falta de segurança, a violência sexual, a dificuldade de acesso, tudo isso limita a autonomia das mulheres. Nós precisamos lutar contra o que nos limita.

O equilíbrio não está na relação um para um – equilíbrio é pensar a partir do ponto de vista do outro. Pensar na distância que cada pessoa tem de percorrer de seu ponto de partida até a linha de chegada. Em uma sociedade ideal, todos teriam condições de chegar juntos a essa linha de chegada. Não só em termos de condições de vida, mas de direitos.

 

kamilaKamila Gomes, Conselho Participativo

Nós somos maioria em quase todos os espaços – não é justo que não tenhamos voz nas decisões sobre eles. Quando nós não fazemos parte das tomadas de decisão, essas decisões estão sendo tomada por nós pelos homens. Nas audiências públicas, nos conselhos, em diferentes tipos de reuniões, nós precisamos fazer nossa voz ser ouvida para garantir nossos direitos.

Em um cenário ideal, as mulheres estariam em todas as diferentes estruturas de governo. O que vemos, normalmente, é que o secretário é homem – a mulher é a adjunta, a que está do lado, que anota e não fala. Ocupar os espaços de representação é ter voz.

 

Jamile Santana, do bike-café La Fridajamile

Equidade. É a palavra que resume. Equidade de gênero, equidade social, equidade racial. Alcançando a equidade conseguiríamos atingir o ponto principal em todas as discussões. Se falamos, por exemplo, sobre feminismo ou racismo, se falamos sobre mobilidade urbana e criamos um evento para debater o assunto a partir da perspectiva das mulheres – é porque existe a necessidade de se falar sobre isso, porque há uma desigualdade de direitos na sociedade. Há uma quebra muito significativa dos direitos das mulheres na mobilidade urbana. E nós precisamos mudar isso. É um processo contínuo de luta e resistência – na mobilidade, nas discussões sobre gênero, no acesso à cidade, na igualdade de direitos, na saúde, na educação. O recorte de gênero nas discussões sobre mobilidade urbana não é só importante, é essencial. Na mobilidade e em todas as outras esferas sociais.

 

anacarolAna Carolina Nunes, do SampaPé

Não é possível falar em cidade para todos com os mesmos atores envolvidos nas tomadas de decisão desde sempre. Existem problemas pelos quais só nós passamos e dos quais consequentemente temos um entendimento próprio, o que se aplica também na busca de soluções. As soluções precisam ser pensadas em conjunto, considerando a perspectiva das mulheres. Especificamente nos casos de violência e assédio sexual, nós somos as principais vítimas, conhecemos essa experiência. Logo, para que se chegue a uma solução realmente efetiva, nós precisamos ter voz nesse processo.

Na minha cidade ideal, sair de casa não deveria ser uma questão para a mulher. Não deveria ser algo que exige cuidados especiais. Uma cidade em que tanto eu quanto meu cônjuge, meu pai, meu avô, meu filho se um dia eu tiver um, pudéssemos pensar da mesma forma nos nossos deslocamentos. Esse é o meu ideal de cidade: onde a gente não tenha medo. E aí eu incluo medo de tudo – de assédio, de assalto, de ser atropelada. Uma cidade onde nós possamos escolher o horário e o trajeto dos nossos deslocamentos.

 

Gabriela Vuolo, do projeto Cidade dos Sonhosgabriela

Enquanto não participarmos de forma efetiva das decisões sobre como a cidade é planejada, desenhada e construída, essa não será uma cidade que atende às necessidades das mulheres.

Em um mundo ideal, nós deveríamos nos sentir seguras e acolhidas, gostar dos espaços por onde passamos, e nossos deslocamentos deveriam ser feitos sem preocupações. Quando eu penso em uma cidade ideal eu penso em uma cidade onde eu possa me deslocar sem ter que me preocupar – sem que o deslocamento fosse um fator de risco.

 

 

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Mila Guedes, do blog Milalá

Sem as mulheres, a cidade não existe. Nós precisamos participar para que o próprio espaço das cidades seja mais humano e seguro. Nossa relação com a cidade pode e precisa ser mais ativa, mais forte. Precisamos ter voz e de fato ocupar os espaços urbanos, os espaços de tomada de decisão.