Por que transformar dados em projetos visuais contribui para a sustentabilidade urbana

(Divulgação - London Data Streams)

(Divulgação – London Data Streams)

Seria pretensão afirmar que todos entendem a importância de uma conferência que reúne 167 países para assinar uma Nova Agenda Urbana. Afinal, os desafios que as cidades enfrentam são complexos. Motivo que torna fundamental que os esforços da Nova Agenda Urbana e dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável sejam voltados para a inclusão social e cultural no desenvolvimento das cidades. Apesar de evidências alarmantes e estudos temerosos, para muitas pessoas aquecimento global e mudanças climáticas são apenas termos entreouvidos no discurso de agradecimento do Oscar e na cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos.

Escutar um termo repetidas vezes, porém, é diferente de compreendê-lo essencialmente.

Para ter uma ideia, o mesmo movimento que nos impulsiona em direção à urbanização acelerada serve de incentivo para comunidades científicas estudarem tanto os pilares dessas mudanças como seus paradigmas e suas potenciais consequências. A Habitat III foi reiteradamente citada no último mês, não somente por ser a maior das conferências organizadas pela ONU, mas pela pontualidade do encontro que acontece de vinte em vinte anos. Afinal, nas duas últimas décadas, a humanidade presenciou mudanças sem precedentes na história da civilização. Mudanças climáticas, desafios urbanos e inovações disruptivas estão, pouco a pouco, sendo inseridas no vocabulário de quem habita as cidades e na pauta das pesquisas científicas.

“Entendeu ou quer que desenhe?”

Por esse motivo, há quem busque facilitar o entendimento dos inúmeros artigos científicos. Precisamos, por exemplo, além de entender como as ilhas de calor estão crescendo nas cidades, compreender como esse aquecimento influenciará nossa dinâmica social, a infraestrutura urbana e o impacto na vida diária de todas as pessoas. Na maioria do tempo, essa compreensão não ocorre pela leitura de artigos científicos. Está acontecendo tudo ao mesmo tempo: urbanização, mudanças climáticas, degradação ambiental e diminuição dos recursos mundiais – como bem ressalta o pesquisador urbano Timon McPhearson, em entrevista ao FutureEarth. Para McPhearson, precisaremos ser “ambiciosos, criativos, interdisciplinares e, inclusive, transdisciplinares” para lidar com os desafios reservados às cidades no futuro.

No âmbito das discussões acadêmicas, políticas e sociais, existem esforços para tornar visíveis conceitos sociais e urbanos, bem como elementos emergentes e ocasionais como, por exemplo, enchentes e criminalidade. O clássico “entendeu ou quer que eu desenhe?” é dito aqui sem a soberba normalmente atribuída, mas para exemplificar um esforço genuíno feito por algumas pessoas para que os dados gerados por pesquisas possa ser visualizado pela sociedade civil e tomadores de decisão com a maior clareza possível. É o caso do Visualizing Cities, uma plataforma global de produção de conhecimento visual.

Por que (e como) visualizar as cidades?

O nome do projeto é um indicativo para o que propõe: o Visualizando Cidades, em tradução livre, parte, segundo seus criadores, de um esforço para compreender os processos subjacentes e subliminares que permeiam os centros urbanos. “Desde a expansão das estruturas físicas que formam as cidades até o crescente número de seres humanos que enchem esses espaços de vida e significado”. O principal objetivo do projeto é orientar os incontáveis dados em um formato visual que transmita a informação e comunique de maneira efetiva.

Um dos criadores do Visualizing Cities, Sebastian Meier, pesquisador do Laboratório de Design Interativo da Universidade de Ciências Aplicadas de Postdam, na Alemanha, afirma: “A complexidade das cidades pede que tenhamos novos métodos e ferramentas para aprimorar nosso entendimento sobre a realidade urbana e seus mecanismos ocultos. A visualização está se tornando uma ferramenta para análise, exploração e comunicação para tornar nossas cidades mais compreensíveis, além de encontrar melhores maneiras de administrar e planejar nosso futuro”.

Aproveitando a reunião de quarenta mil pessoas em Quito para a Habitat III, o Visualizing Cities criou um espaço colaborativo para conectar os pontos entre ciência, visualização e design para o futuro das cidades. O painel chamado Habitat x Change promoveu uma competição para que pesquisadores, designers e demais profissionais interessados na área enviassem visualizações de cidades concebidas a partir de dados. Foram selecionadas cinco, que foram exibidas no espaço da Habitat X Change durante a conferência.

Para apresentar melhor a visualização de cidades enquanto instrumento comunicacional, separamos os cinco projetos exibidos em Quito:

  1. Urbanismo em Conflito: Colômbia

Os padrões de migração na Colômbia são diferentes de outros lugares por conta dos conflitos entre guerrilheiros e militares. Criado por Laura Kurgan, Juan Francisco Saldarriaga, Dare Brawley e Anjali Singhvi, do Centro para Pesquisa Especial da Universidade de Columbia, o mapa mostra uma visão geral das rotas de deslocamento internos do país, entre 1985 e 2015, que foram principalmente das zonas rurais para as zonas urbanas. O projeto ilustra como os padrões de urbanização também são impulsionados por fatores de conflito, sejam de ordem militar, política, social, econômica, religiosos, ecológicos etc.

Este projeto faz um mapeamento da separação racial em 14 cidades dos Estados Unidos. As formas pelas quais os distritos urbanos se afastaram gradualmente uns dos outros, evidenciam a segregação encontradas entre bairros de maioria negra e maioria branca. O projeto oferece uma visão das desigualdades urbanas. Nesse caso, mostra como a distribuição das cidades norte-americanas está vinculada ao tratamento empregatício recebido pelos negros, latinos e asiáticos residentes.

segregação racial

(Reprodução/Bocoup)

  1. Redes de dados de Londres

“Podem os dados que produzimos nos dizer o que Londres está pensando, vendo e sentindo?” – Com base nessa premissa, o projeto é voltado para visualizar, ao vivo, os ritmos de dados de Londres que vão desde postagens no Twitter e fotos Instagram até atualizações do sistema de transporte da cidade. Os conjuntos de dados foram representados em vários níveis de transformação e agregação. O projeto é uma apresentação com alta qualidade estética e profundidade conceitual.

 

  1. Mapa de Inundações de Chennai

Chennai é uma cidade do sul da Índia. Em 2015, a cidade sofreu com uma série de chuvas sem precedentes, que ocasionou a pior enchente da história da cidade, com perda econômica estimada em $ 3 bilhões. Durante a elevação do nível das águas, os boletins midiáticos não deram conta de determinar a escala e os locais que estavam sendo afetados pelas enchentes. Um grupo de ativistas criou, portanto, com um código aberto de mapas, uma ferramenta de comunicação massiva para que a população pudesse sinalizar quais eram as estradas inundadas. No primeiro dia, o mapa tinha mais de 1 milhão de visualizações e recolheu mais de 15.000 relatórios de segmentos de ruas inundadas, e foi amplamente usado para a pesquisa. Esse esforço ilustra a grande utilidade que a visualização pode ter em situações graves e como ferramenta de resiliência.

Divulgação/OpenStreetMap India)

(Divulgação/OpenStreetMap India)

  1. Mapas inclusivos

O conceito desse projeto é ilustrar como cada mapa é específico e nenhum mapa pode ser universalmente útil para todos. O interesse e a necessidade dos usuários deve ser considerado. O time de estudantes por trás do projeto propõe um novo conceito de mapa, especialmente para pessoas com deficiências. Segundo os criadores, o objetivo não é criar mapas distintos entre si, mas propor um sistema que possa ser utilizado para criar mapas inclusivos.

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(2015, University of Applied Sciences Potsdam)

Os desafios que as cidades enfrentam precisam ser comunicados, sejam em níveis econômicos, políticos ou ecológicos; sejam complexos ou simples. O desafio de transmitir a imensidão de dados gerados a cada segundo de nossas vidas urbanas pode se valer, portanto, de ferramentas como a visualização de dados. O potencial desse instrumento é exatamente o aprofundamento e o maior alcance que pressupõe as composições gráficas em vez de números e fatos diversos sobre as crises contemporâneas.

Frente às evidências do impacto que o aquecimento global terá para a espécie humana, há quem se pergunte por que continuamos utilizando os recursos naturais como se fossem infinitos e insistimos em manter uma identidade contrária aos preceitos do desenvolvimento sustentável. Em parte, podemos atribuir isso à necessidade de uma mudança cultural, vigente há décadas. Entretanto, é preciso refletir sobre como estamos comunicando os dados científicos. Dessa forma, para além dos relatórios científicos, poderemos ampliar nossa compreensão sobre nós mesmos, sobre os seres humanos e, principalmente, sobre a realidade que nos cerca, hoje, nas cidades.