Construir cidades em harmonia com a natureza é chave para futuros desafios

Urbanista cita o Sistema BRT de Curitiba como exemplo a ser seguido. (Foto: Mariana Gil/WRI Brasil Cidades Sustentáveis)

Urbanista cita o Sistema BRT de Curitiba como exemplo a ser seguido. (Foto: Mariana Gil/WRI Brasil Cidades Sustentáveis)

Criar um mundo mais sustentável depende de construir cidades melhores, mais equitativas e prósperas. Para Jane Jacobs, em 1961, os planejadores urbanos deveriam se preocupar com as peculiaridades e diversidades das cidades para que elas se tornassem vibrantes e atraentes. Hoje, o urbanista Jonathan F. P. Rose vê na harmonia com a natureza um elemento-chave na construção urbana.

A atual falta de sincronia observada por Rose entre os espaços urbanos e os recursos naturais fez com que o americano relacionasse o conceito de “temperamento”, usado pelo compositor Johann Sebastian Bach, com a maneira com que as cidades poderiam harmonizar a relação entre as pessoas e a natureza dentro de um contexto urbano. Foi essa ideia que chamou de “The Well-Tempered City“, título do seu recém-lançado livro no qual descreve como a ciência moderna, as civilizações antigas e a natureza humana nos ensinam sobre o futuro.

Ao acreditar que as cidades podem ser fortes engrenagens de transformações positivas, Rose pede por planejamentos visionários e sistemas coerentes e integrados. Coerência é a primeira característica que Rose acredita ser necessária no planejamento urbano: saber aonde se quer chegar e poder medir o progresso. Circularidade, resiliência, coletividade e compaixão são os quatro outros atributos necessários, conforme o urbanista. Tudo na teoria de Rose gira em torno do uso correto e balanceado dos recursos naturais nas áreas urbanas e das inter-relações entre as pessoas.

Em entrevista ao Citylab, Rose descreve o que representaria a cidade perfeita: “Todas as cidades têm lições a aprender. Não existe uma perfeita, mas imagine uma com a habitação social de Singapura, com o sistema alimentar de Florença, uma integração com a natureza como Seattle, a arte e cultura de Nova York, o sistema de metrô de Hong Kong, o sistema BRT de Curitiba, a educação pública da Finlândia, o programa de bicicletas compartilhadas de Paris, a tarifação de congestionamento de Londres, o sistema de reciclagem de São Francisco, o programa de escoamento de águas pluviais da Filadélfia, o projeto de restauração do Rio Cheonggyecheon de Seul, a rede inteligente de energia de Austin, o sistema de reciclagem de água de Windhoek, a preparação para a elevação do nível do mar de Roterdã ou os ganhos em saúde de Tóquio”.

E ele vai além: “Imagine um lugar com a equidade de Estocolmo, a felicidade de Sydney, a paz de Reiquiavique, a produção urbana de comida de Hanói, a forma harmônica da Cidade Proibida, a vitalidade do mercado de Casablanca, a industrialização cooperativista de Bolonha, a cultura da bicicleta de Copenhague, a inovação de Medelim, as universidades de Cambridge e Boston, os hospitais de Cleveland e a habitabilidade de Vancouver”.

green infrastructure

(Foto: Takuya ASADA/Flickr-CC)

Infraestrutura verde

Quando fala em harmonia com a natureza, o urbanista também se refere ao poder já comprovado da infraestrutura verde. A presença dos espaços verdes no contexto urbano pode influenciar fortemente no bem-estar humano. O fenômeno conhecido como “ilha de calor urbano” é causado pela altura e espaço ocupado por prédios e a falta de vegetação. Em São Paulo, por exemplo, a temperatura pode variar em 13°C entre o centro da cidade e os Jardins, onde a arborização é mais presente. Árvores e plantas específicas podem ser muito eficientes em ambientes que precisam de resfriamento.

Em publicação sobre as razões de manter as árvores em centros urbanos, a zootecnista Maria Luiza Nicodemo e o engenheiro agrônomo Odo Primavesi destacam que entre os papéis desempenhados pela arborização urbana estão: “a redução da poluição do ar, interceptação da água de chuva, sombreamento e estabilização da temperatura, redução do ruído e promoção de melhorias no bem-estar psicológico e físico”.

Áreas arborizadas também têm o poder de passar a sensação de segurança. Segundo o mesmo documento, estudos mostraram a importância de áreas verdes públicas com estrutura física adequada (bancos, playground etc.), plantas bem cuidadas, e com boa iluminação e boa visibilidade, em comunidades carentes. “Moradores de áreas mais arborizadas relataram menos medo, menos problemas de convivência, e menos comportamento agressivo e violento.”

Rose afirma ainda que bairros com árvores registram taxas menores de moradores com problemas de saúde mental. “Tecer redes diversas de parques e jardins e restaurar margens dos rios nas cidades reduz custos de infraestrutura e aumenta o bem-estar. Os bairros mais amados pelas pessoas costumam estar em sintonia com a natureza”, destaca. “Cidade após cidade, vi líderes extraordinários fazerem coisas incríveis trabalhando para o bem comum. Precisamos que os valores de nossos prefeitos, conselheiros e planejadores se sobressaiam e que eles estabeleçam o diálogo nacional.”

“Muitas das qualidade que buscamos em ‘The Well-Tempered Cities’ estão, na verdade, atualmente vivas em cidades ao redor do mundo. Podemos aprender com elas, podemos captá-las e podemos duplicá-las em nossas próprias comunidades.”