Unidades de vizinhança: uma forma sustentável de promover a conectividade nas cidades

(Foto: Jarrett Stewart/Flickr-CC)

(Foto: Jarrett Stewart/Flickr-CC)

Nos anos 1920, o arquiteto e urbanista Clarence Perry desenhou um modelo de cidade que priorizava o pedestre. Infelizmente, a popularização do automóvel acabou sendo a responsável pela real transformação das áreas urbanas. No entanto, hoje, com o crescente reconhecimento do transporte ativo como fator fundamental para o alcance do desenvolvimento sustentável, talvez finalmente as ruas passem a tomar o formato próximo ao imaginado por Perry.

“Unidade de vizinhança” é o nome dado ao conceito introduzido pelo americano, que pensou em áreas residenciais autônomas, que abrigassem todas as necessidades diárias dos seus moradores. Mais que isso, todos os deslocamentos necessários nesses espaços, que seriam equivalentes a bairros, seriam realizados em 5 minutos de caminhada. Esse, segundo pesquisas, é o tempo médio que um pedestre está disposto a caminhar antes de optar pelo carro.

O plano de Perry foi concebido antes da popularização do automóvel, portanto, conta com um grande número de ruas estreitas, com uso misto do espaço viário. Ele centraliza áreas institucionais, como escolas e de serviços, orienta as áreas residenciais e bairros ao redor desses pontos focais e coloca shoppings e comércio local em cruzamentos de tráfego, nos arredores do perímetro da unidade e de preferência agrupados. Os espaços públicos estão presentes em forma de parques, que devem ocupar cerca de 10% da área da unidade.

ClarencePerryNieghborhoodUnitUma das implementações da unidade de vizinhança em um contexto real se deu no bairro de Radburn, em Nova Jersey. Os arquitetos Clarence Stein e Henry Wright criaram um ambiente seguro e verde. A escola foi instalada no coração do bairro, onde o acesso era feito através de parques e separado do tráfego de veículos.

O próprio projeto da cidade de Brasília teve influência do conceito de unidade de vizinhança. O Plano Piloto da cidade foi escolhido em um concurso e seu vencedor, Lúcio Costa, baseou-se na ideia de quadras auto-suficientes, que chamou de superquadras, para vencer o certame. Segundo o Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Brasil (CAU), apenas as quadras 107, 108, 307 e 308 seguem à risca o plano de Costa. Conforme o projeto original do urbanista, quatro superquadras formariam uma unidade de vizinhança.

Costa ainda projetou uma escola dentro de cada superquadra, fator também priorizado por Perry. A arborização da superquadra é uma das características principais, já que cada uma é cercada de 20 metros de faixa verde. A unidade em Brasília inclui prédios residenciais, comércio local, igreja, escola, posto de saúde, biblioteca, cinema, entre outros espaços de convivência.

Elementos-chave 

Todo o planejamento de Perry e também o que se tentou implementar em Brasília tem por objetivo a segurança e o bem-estar nas cidades, já que o desenho urbano desempenha um papel fundamental nesse contexto. Desenvolvido pelo WRI Ross Centro para Cidades Sustentáveis, O Desenho de Cidades Seguras é um guia que apresenta exemplos reais e técnicas baseadas em evidências para melhorar a segurança através do projeto de bairros e vias, com enfoque nos pedestres, ciclistas e transporte coletivo.

O guia trás cinco elementos-chave do planejamento urbano, todos eles se relacionam com o que Perry pensava nos anos 1920: tamanho de quadra, conectividade viária, largura das vias, acesso aos destinos e densidade populacional. As cidades podem elaborar planos locais que possam ser usados como orientação para a urbanização e desenho viário de certos bairros, como áreas de estações de transporte coletivo, corredores estruturantes e áreas novas ou existentes de desenvolvimento urbano. Barcelona caminha nesse sentido com o conceito de superquarteirões.

Além disso, a conectividade da malha viária também garante melhor acessibilidade, busca desestimular o uso do carro tornando as viagens locais a pé mais fáceis e agradáveis. “Projeção de bairros para incluir transporte coletivo, parques, escolas, lojas e outros usos, em curta distância, considerando um raio de caminhada de 500 metros para essas atividades”, diz o texto. “Uma variedade de destinos em núcleos locais e bairros estimula as pessoas a se encontrarem e a procurarem por instalações e serviços públicos perto de casa, poupando tempo e dinheiro. Usos mistos podem melhorar a vitalidade das ruas.”

 

 

  • Irene Quintáns

    Que bom que o tema Bairro volta a ser destaque. Casualmente eu escrevi faz uma semana no post do Mobilize “A unidade mínima de apropriação da cidade” http://www.mobilize.org.br/…/passos-e…/aunidademinima/