Novo acordo internacional pode ser maior salto já dado contra o aquecimento global

Encontro foi realizado em Kigali, capital de Ruanda. (Foto: Rwanda Environment Management Authority/Flickr-CC)

Encontro foi realizado em Kigali, capital de Ruanda. (Foto: Rwanda Environment Management Authority/Flickr-CC)

Meses atrás, a revista Science publicou um estudo que afirma que o buraco da camada de ozônio na Antártida já teria diminuído mais de 4 milhões de quilômetros quadrados. Parte dessa grande conquista global é resultado do Protocolo de Montreal, assinado em 1987 e considerado um dos mais bem-sucedidos acordos na questão climática. Para dar continuidade a esse esforço, 197 países assinaram, no último dia 15, um novo tratado que visa reduzir as emissões dos hidrofluorcarbonos (HFCs), gases com uma potência de reter o calor mil vezes maior que o gás carbônico (CO2).

O encontro, realizado em Kigali, capital da Ruanda, pode ter um resultado para o meio ambiente tão ou até maior que o acerto feito após 21ª Conferência do Clima (COP 21), no ano passado, em Paris. Os HFCs são os gases usados em refrigeradores e aparelhos de ar condicionado. Segundo especialistas, a redução do uso desses poluentes é o meio isolado mais rápido para diminuir o aquecimento global.

O tratado de Kigali foi formulado ao longo de sete anos durante diversos fóruns técnicos e políticos, e o compromisso foi assumido pelos países mais quentes do planeta, ricos e pobres. Entre eles estão nações onde a compra de ar-condicionado só está se tornando viável atualmente. Países desenvolvidos irão suspender a produção dos HFCs mais depressa, mas algumas nações pobres, incluindo as da África, deverão tomar atitudes mais rapidamente do que o exigido devido às grandes ameaças resultantes das mudanças climáticas.

7154621834_25d203920e_kO processo gradual de redução do uso de HFCs inicia em 2019 para os países ricos, em 2024 para os países em desenvolvimento, como a China, o maior poluidor mundial, e em 2028 nos países mais pobres. Um pequeno grupo de nações que inclui Índia, Paquistão e alguns estados do Golfo Pérsico conseguiram adiar o início das ações para 2028.

A meta é que o consumo total de HFC tenha caído de 80% a 85% até 2047. Segundo os cientistas, o acordo de Kigali tem o potencial de impedir a alta da temperatura atmosférica em 0,5°C até o final do século. O crescimento do uso dos HFCs tornaria impossível atingir as metas do Acordo de Paris, por exemplo, que prevê a contenção do aumento da temperatura global a menos de 2°C, com esforços para ficar em no máximo 1,5°C. Ou seja, agir para reduzir a emissões de HFCs contribui diretamente para que seja possível evitar o aumento da temperatura do planeta.

O acordo de Kigali é “ainda mais forte do que o de Paris. Esse é trato vinculativo. Os governos são obrigados a cumprir”, disse Durwood Zaelke, presidente do Instituto de Governança e Desenvolvimento Sustentável, uma organização de pesquisa. “Com a emenda do Protocolo de Montreal, nós passamos das promessas em Paris para ações concretas.”

O texto inclui metas e prazos bem específicos sobre a substituição dos HFCs por alternativas menos agressivas ao meio ambiente, sanções comerciais para punir violações, e um acordo onde os países ricos se comprometem a ajudar os países pobres a financiar a substituição dos produtos. Como um todo, estima-se que o tratado vá reduzir o equivalente a 70 bilhões de toneladas de dióxido de carbono da atmosfera, o mesmo que duas vezes a poluição por carbono produzida anualmente no mundo todo. “É provavelmente o mais importante passo que podemos tomar nesse momento para limitar o aquecimento do nosso planeta para as gerações que estão por vir”, exaltou o secretário de Estado dos Estados Unidos, John Kerry. “É a maior coisa que podemos fazer em um salto gigantesco.”