Entre Belo Horizonte e a Cidade do México: impressões que ficam

Cidade do México, bicicleta, rua compartilhada

Via compartilhada no centro da Cidade do México: desafios e soluções semelhantes aos das cidades brasileiras (Foto: Priscila Pacheco/WRI Brasil Cidades Sustentáveis)

A primeira impressão que tive da Cidade do México foi às 06h15 do dia 20 de setembro, quando a aeronave em que estávamos se aproximou de uma grande mancha urbana. Mesmo a 500 pés de altura, foi possível perceber a enorme quantidade de automóveis nas avenidas que, àquela distância, assemelhavam-se a grandes artérias irrigando todo aquele organismo que se preparava para um novo dia. Mas o que de fato impressionou naquele momento foi a altimetria das edificações: prédios mais altos se destacavam com facilidade naquele cenário homogêneo de construções baixas.

A Cidade do México não é só mais uma cidade, é um organismo complexo, com relações tensas entre a malha urbana e os automóveis, e o caminho do aeroporto até a região de Condesa, onde nos hospedamos, deixou bem clara essa tensão. Nas primeiras horas em solo mexicano, enfrentamos grandes trechos de congestionamentos e percebemos, agora inseridas nas artérias que antes observamos de cima, o que realmente era se deslocar em uma das maiores cidades do mundo.

Minha companheira de viagem foi a Izabela Ribas, também mineira de Belo Horizonte, vencedora da Área 2 do Concurso Acessibilidade para Todos. Uma vez recuperadas do jatlag, fomos ao encontro da equipe. Ao adentrar na zona histórica, foi fácil perceber que ali a mobilidade era muito mais fácil e prazerosa que no caminho feito anteriormente, nas proximidades do aeroporto. Com o atraso de toda a chegada nos desencontramos do grupo, mas a cordialidade e gentileza do povo mexicano nos ajudaram: “Brasileños? Eran por esa calle!”. E assim, de direção em direção, enfim nos encontramos!

O primeiro encontro foi com Sônia Aguilar, do WRI México, que nos acompanhou pelo centro histórico. Vimos as vias exclusivas para pedestres e, na medida em que caminhava por elas, mais compreendia a importância de destinar espaço às pessoas dentro da cidade. Durante um longo trecho de caminhada foi possível ver a apropriação das ruas pelas pessoas, e o fato de serem niveladas e planas possibilita que sejam usadas por todos, independentemente de suas condições de locomoção.

Via no Centro Histórico da Cidade do México (Foto: Priscila Pacheco/WRI Brasil Cidades Sustentáveis)

Na sequência, visitamos a Alameda Central, uma grande praça arborizada no centro da cidade, e o que mais me impressionou foi a grande quantidade de pessoas a utilizá-la! Os bancos da praça estavam ocupados por pessoas conversando, casais namorando, executivos em seus celulares; todos estavam ali. E foi nesse cenário que conversamos com Edgar Guzman, da Fundação Hogares. De maneira bem despojada, nos sentamos no chão do coreto da praça, junto a outros grupos de pessoas; artistas de rua, estudantes e outros que apenas queriam fugir da fina chuva da tarde. Ali pudemos ouvir experiências interessantes sobre a possibilidade de o planejamento urbano controlar a violência ou disparidades culturais de uma cidade. E sim, estávamos bem no meio de um local acessível, neutro e plural, planejado com a intenção de ser um cenário de todos, onde a violência e a desigualdade seriam personas non gratas.

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Bate-papo com Edgar Guzman na Alameda Central (Foto: Priscila Pacheco/WRI Brasil Cidades Sustentáveis)

O segundo dia amanheceu frio, mas com uma energia renovada pelo sono. Logo nos encontramos com Laura Bermejo, que durante uma caminhada por Coyoacan mostrou-nos as dificuldades de acessibilidade para pessoas com problemas de mobilidade. Diferentemente de Belo Horizonte, as calçadas na Cidade do México são responsabilidade do poder público nas vias arteriais, que ficam sob jurisdição da prefeitura. IMG_20160921_102601415_HDRJá nas vias locais e coletoras, as calçadas são responsabilidade das diligências de cada regional (que formam sub administrações). Mesmo assim, percebemos que os problemas são semelhantes aos que enfrentamos aqui, na querida Beagá: calçadas em mau estado de conservação, raízes aéreas das árvores, rampas com inclinação muito acima do ideal (foto à esquerda).

Laura contou também sobre os Parques de Bolso da capital mexicana. A iniciativa se baseia em transformar espaços residuais na cidade em locais de encontro de pessoas, destinado exclusivamente ao pedestre. Devido à falta de recursos disponíveis para obras, muitas vezes os espaços não são inteiramente modificados, como o Café El Jarocho, onde foi possível pintar o asfalto, aumentando a área do pedestre e inserir bancos e vasos com vegetação, criando assim um local de encontro.

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Café El Jarocho: área do entorno é um dos parques de bolso da capital mexicana (Foto: Flavia Horta)

No terceiro dia nos encontramos com Marco Priego, também do WRI México, no Monumento a la Revolución, uma edificação grandiosa pousada sob um platô impressionantemente liso e imponente no coração da cidade. Nessa conversa, entendemos como começou o projeto do Metrobus, sistema BRT da Cidade do México que, a partir de uma ideia para melhorar a mobilidade da cidade, tornou-se um sistema consolidado de transporte coletivo. Marco falou sobre o lançamento do primeiro código de trânsito da capital mexicana, ferramenta essencial para modificar o status quo da cidade de priorização aos carros.

Por fim, fomos ao Laboratório para La Ciudad, um setor dentro da administração da Cidade do México destinado a observar, analisar e intervir na cidade a fim de garantir maior mobilidade urbana e segurança para os pedestres. Lá conhecemos Jorge Cañez, que nos levou a um passeio pela região para vermos o que já foi feito e o que ainda precisa ser modificado. Dentre os pontos positivos trazidos pelo especialista, estão as medidas para alargar as calçadas. A mudança reduz o espaço que as pessoas precisam percorrer para atravessar a rua, diminuindo a exposição dos pedestres aos carros. Cañez nos levou também a locais onde a travessia do pedestre é desfavorecida, seja pela falta de faixas ou pela má qualidade de inserção destas. O ponto alto da visita foi a presença ilustre do herói das ruas mexicanas, o Peatonito, um personagem criado por Jorge que atua em defesa dos pedestres realizando determinadas intervenções no trânsito – criando faixas zebradas, posicionando cones coloridos nas conversões para diminuir a velocidade dos carros e até mesmo parando o trânsito para que as pessoas possam atravessar a rua com segurança.

Grupo com Peatónito, no último dia de viagem (Foto: Priscila Pacheco/WRI Brasil Cidades Sustentáveis)

De início, a Cidade do México me pareceu assustadoramente grande – cheia, veloz e impenetrável. Mas, ao longo de nossa viagem, compreendi que a frenética cidade de tantas dualidades e embates pedestres vesus carros, de vias sempre congestionadas e ruas sempre cheias, nada mais é do que uma cidade em busca de maior qualidade de vida. Me despedi daquele organismo fervilhante e pude olhar, novamente a 500 pés de altura, de uma janelinha minúscula da aeronave, o imenso território irrigado por suas vias. Agora tão silenciosa, homogênea e distante, a icônica e inesquecível Cidade do México.