Sua cidade também foi sequestrada pelos carros?

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Rua aberta para pedestres e ciclistas no centro da Cidade do México (Foto: Priscila Pacheco/WRI Brasil Cidades Sustentáveis)

Uma outra São Paulo. Era exatamente isso que esperávamos encontrar. Ao sermos convidados pelo WRI Brasil Cidades Sustentáveis para participar da missão técnica à Cidade do México, partimos da referência de cidade latino-americana que nos era comum: a de uma cidade cinza e de concreto na qual as calçadas são percorridas a passos apressados e, no asfalto, o limite de velocidade está sempre abaixo da urgência de motoristas e passageiros. Em uma percepção de tempo acelerada pela propulsão dos motores veiculares, o percurso entre origem e destino se torna algo mecânico, e o espaço público entre dois pontos é pouco vivenciado pelos cidadãos. A apreensão de tempo e espaço é algo cultural, e com esse olhar, chegamos à Cidade do México.

A grande quantidade de pessoas? Estava lá. A grande quantidade de veículos particulares? Lá também. A prioridade aos veículos motorizados? Não como conhecíamos. Muitos semáforos contabilizam apenas veículos no seu tempo; assim, o ritmo da cidade é o ritmo dos motores. Cabe às pessoas encontrar um intervalo para cruzar o asfalto. Não demorou muito para que compreendêssemos que a Cidade do México era diferente das nossas expectativa – e que a questão da prioridade aos veículos, também por lá, é cultural.

Durante três dias nos encontramos com planejadores urbanos que trabalham com a cidade sob diferentes aspectos. De entidades não governamentais a representantes da administração pública, todos decidiram ir de embate a cultura dos carros, e de maneira unânime todos tinham o mesmo desafio: construir um elemento físico, puramente material, para influenciar em algo imaterial, como a cultura. Edgar Guzman, Coordenador do Programa de Regeneração Urbana da Fundação Hogares, trabalha com projetos com participação comunitária em espaços públicos. Segundo Guzman, o trabalho da fundação é intervir fisicamente em áreas com alto índice de criminalidade para buscar resultados sociais. O desenho urbano, puro e simplesmente, não resolve o grau de violência de um lugar; todavia, o desenho do espaço público, seja uma praça ou uma rua, pode alterar a percepção de segurança. Articular a visibilidade, pela iluminação ou pela altura dos elementos do espaço, por exemplo, pode passar a imagem de segurança, e uma vez que isso acontece as pessoas se sentem mais seguras para vivenciar as ruas e praças, criando locais de permanência, em contraposição aos corredores de passagem da pressa cotidiana. Há dificuldade de financiamento, e os projetos implantados ainda precisam de ajustes, mas um ponto ficou claro: o projeto de uma cidade pedonal é um processo e é possível. Da mesma maneira que a velocidade de uma caminhada é diferente da velocidade de um carro, as mudanças sociais na sociedade automobilística acontecem em uma velocidade gradual, e essas mudanças estão se tornando visíveis em alguns dos projetos visitados.

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Encontro com Edgar Guzman (Foto: Priscila Pacheco/WRI Brasil Cidades Sustentáveis)

Mais do que a alteração física dos espaços, Marco Priego, Diretor de Mobilidade Urbana do WRI México, destacou a necessidade de subverter conceitos amplamente difundidos. Por muito tempo, segurança viária era definida apenas como placas nas vias e fluidez no trânsito veicular. Com o trabalho da WRI, o tema da seguridade está sendo alterada em uma ação integrada entre governo e sociedade. A agenda da mobilidade passou a incluir ciclistas e pedestres na pauta. A questão não era se ater apenas a adequação física dos espaços, mas trabalhar também com novos conceitos, como o projeto Safety First. Ao capacitar motoristas de transporte público, estes passam a guiar respeitando ciclistas e pedestres, uma ação simples com forte repercussão na vivência urbana. A mobilidade urbana passa a ser percebida como algo além das linhas de ônibus: também diz respeito ao acesso das pessoas aos pontos e estações. O que começou como um pedido do governo local para melhoria da qualidade do ar acabou como o projeto do Metrobus, sistema BRT da Cidade do México desenvolvido com apoio do WRI México e que trouxe um novo conceito de segurança viária para o transporte coletivo. Aos poucos, os agentes de trânsito passaram a entender os ciclistas e pedestres como componentes do espaço urbano; e os motoristas aceitaram algo antes impensável: a redução dos limites de velocidade nas vias.

Caminhada na Rua Regina

Caminhada na Rua Regina, que tem parte de sua extensão aberta exclusivamente para pedestres (Foto: Priscila Pacheco/WRI Brasil Cidades Sustentáveis)

A resistência dos motoristas e sociedade existiu em projetos que hoje são considerados modelos, como a Rua Regina, os arredores da estação Piño Suarez e a avenida 20 de Novembro. Bares movimentados em ruas 100% pedestrianizadas, urbanismo tático para aumentar o espaço dos pedestres, calçadas e mobiliário urbano cuidado por comerciantes, sem sinal de lixo no chão, e pessoas se movimentando de bicicleta como meio de transporte por toda a cidade, não apenas onde haviam ciclovias. Andando por esses espaços, com a bicicleta ao lado no Dia Mundial Sem Carros, Jorge Cañez, cientista político e coordenador do programa Ciudad Compartida do Laboratório de la Ciudad, pergunta ao grupo, já sabendo a resposta: “E as cidades brasileiras, também foram sequestradas pelos carros?”.

A Cidade do México, assim como tantas das cidades brasileiras que conhecemos, foi sequestrada pelos carros e tem o automóvel enraizado na cultura popular. Por três dias visitamos o front e observamos ações que buscam uma mudança de cultura. Ações que, gradativamente, estão mudando a maneira como a capital mexicana é vivenciada por seus habitantes. No caminho de volta ao aeroporto, o motorista pergunta o que fomos fazer no México. Contamos com entusiasmo: fomos estudar as iniciativas de mobilidade e de segurança viária. A pressa, como dissemos, é algo cultural, mas o orgulho nacional também. Nesse momento, o motorista deixa de avançar agressivamente sobre os pedestres e passa a respeitar os faróis e faixas de segurança. Uma cena banal, sem dúvida, mas quem sabe consigamos importar do México um pouco das inciativas que estão reconstruindo uma cultura, alterando a percepção de toda uma população, incluindo aquele motorista de táxi. A Cidade do México pertence a ele, dentro de seu veículo, mas também a todos que ocupam as ruas, pedestres e ciclistas. É tempo de as pessoas retomarem dos motores a cidade que pertence a elas!


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