Por que apenas 6% das mulheres pedalam em São Paulo?

Ciclista no Rio de Janeiro

(Foto: Mariana Gil/WRI Brasil Cidades Sustentáveis)

“Ela tem feito mais para emancipar as mulheres do que qualquer outra coisa no mundo.” A frase dita em 1896 pela líder feminista Susan B. Anthony mostra o significado da bicicleta, desde o século 19, para as mulheres. Pedalar proporcionou às mulheres um meio igualitário de se locomover. Porém, uma pesquisa revela que, em São Paulo, apenas 6% dos ciclistas são do sexo feminino. Quais seriam as razões para esse baixo número?

A Ciclocidade – Associação dos Ciclistas Urbanos de São Paulo criou, em 2015, o Grupo de Trabalho de Gênero para estudar e fazer um diagnóstico específico sobre a situação das mulheres ciclistas na capital paulista. O fruto desse trabalho é a pesquisa inédita “Mobilidade por bicicleta e os desafios das mulheres de São Paulo”, que surge para abastecer os escassos conteúdos sobre o assunto.

A partir de questionários estruturados, o grupo percorreu todas as 32 subprefeituras de São Paulo nos meses de junho e julho deste ano para entrevistar mulheres que utilizam a bike como meio de transporte e também as que não utilizam, mas que têm contato próximo. Ao todo, foram 332 mulheres ouvidas, sendo 128 ciclistas e 206 não-ciclistas.

O número tão baixo de mulheres utilizando a bicicleta se deve, possivelmente, aos três principais motivos apontados por aquelas que não pedalam: risco de acidentes (21%), medo de compartilhar a via ou medo do trânsito (19%) e risco de assalto (15%). No levantamento, as três razões mais citadas coincidem com os principais medos das que pedalam regularmente. Quando perguntadas sobre os principais desafios enfrentados pelas mulheres ao pedalar pela cidade as respostas com maior percentual foram: medo de compartilhar a via/falta de respeito no trânsito (27%), risco de colisão, queda ou atropelamento (26%), risco de assalto (14%) e falta de infraestrutura (14%).

Para 45% das entrevistadas, é “muito perigoso” compartilhar a via com veículos em São Paulo. O medo faz 56% das ciclistas se dizerem “cautelosas” ao usar a bicicleta na cidade. Mulheres que pedalam há mais tempo – entre 2 e 5 anos, por exemplo – se dizem mais destemidas (36%), enquanto as que pedalam há apenas 6 meses se identificam mais como cautelosas (61%). Todas essas razões negativas, portanto, se sobrepõem às razões apontadas pelas ciclistas como principais motivos para escolher a magrela como meio de transporte: é mais rápido (22%), é mais saudável (20%), é mais econômico (17%).

ciclista em Belo Horizonte

(Foto: Mariana Gil/WRI Brasil Cidades Sustentáveis)

Talvez o dado mais surpreendente e animador seja o de que 52% das ciclistas afirmam ter um carro, mas mesmo assim optam pela bike. Os principais destinos das mulheres que pedalam é trabalho (28%), supermercado (23%) e lazer (23%). Dentre as ciclistas, 28% pedalam todos os dias da semana e 23% usam a bicicleta 5 dias por semana.

Os motivos para não pedalar evidenciam como é necessário ampliar ainda mais a infraestrutura cicloviária da cidade. Das 12 razões apresentadas pelas mulheres, cinco estão relacionadas a falta de um bom espaço dedicado às bicicletas e somam 57% das justificativas. A realidade de São Paulo pode representar a situação de todo o país ao analisarmos os desafios e os medos enfrentados pelas mulheres ciclistas. Mas esse panorama ainda pode mudar no país ao aprendermos com experiências dos locais mais cicláveis do mundo. Uma pesquisa da Universidade de Rutgers, dos Estados Unidos, analisou o perfil dos ciclistas na América do Norte, Europa e Austrália e concluiu que os países com mais mulheres se deslocando sobre duas rodas são a Holanda (55% do total de ciclistas), a Alemanha (49%) e a Dinamarca (45%).

Segundo a pesquisa americana, mulheres preocupam-se mais com a segurança do que os homens, o que sugere que seja essa a razão de haver menos mulheres no pedal. Em cidades da Holanda, Dinamarca e Alemanha, o destino das bicicletas foi determinado por políticas públicas que, desde a década de 1970, limitaram o uso do automóvel e promovendo a bicicleta, o pedestre e o transporte público. “Os índices de uso da bicicleta subiram bruscamente, chegando a dobrar ou triplicar em algumas cidades (como Munique, Colônia e Berlim)”, diz o levantamento.

Malhas cicloviárias precisam ser conectadas, separadas do tráfego de alta velocidade, pensadas para possibilitar a integração com transporte público, com sinalização específica. O guia O Desenho de Cidades Seguras – Diretrizes e Exemplos para Promover a Segurança Viária a partir do Desenho Urbano, lançado pelo WRI Brasil Cidades Sustentáveis, aborda diversos problemas de infraestrutura a partir de evidências técnicas. “As evidências mostram que, através de um melhor projeto viário, os acidentes e lesões de ciclistas podem ser reduzidos significativamente”, diz a publicação.

24113074949_bffd817075_kO guia também evidencia como é essencial dar atenção especial ao desenho das interseções para obter aumento real da segurança. Isso inclui melhorar a visibilidade entre ciclistas e condutores de veículos e solucionar conflitos nas interseções através de sinalização horizontal e semafórica adequada. A combinação dessas medidas garante um trânsito de bicicletas mais seguro, mais agradável e mais convidativo.

“Ela dá à mulher um sentimento de liberdade e de autonomia. Eu apoio e me alegro toda a vez que vejo uma mulher em uma bicicleta… a imagem da feminilidade livre e irrestrita”, exaltou Susan há mais de cem anos. Hoje, precisamos falar mais sobre isso. É necessário falar em infraestrutura, em instalações urbanas melhores para o uso da bicicleta em educação no trânsito e, principalmente, em priorização da bicicleta e do pedestre. A bicicleta precisa ocupar as ruas e, sem as mulheres, esse processo não será possível.