Manifesto pela segurança dos ciclistas em um futuro de veículos autônomos

Quem pedala está acostumado aos percalços de conviver em ruas ocupadas majoritariamente por carros. As iniciativas em prol da bicicleta apesar de estarem em crescente evidência nos debates públicos são, ainda hoje, insuficientes para garantir a segurança e a saúde de quem escolhe a bicicleta como meio de transporte. Mas e quando os carros não forem mais dirigidos por humanos? A segurança dos ciclistas tende a aumentar ou piorar?

É isso que um grupo de pesquisadores está projetando por meio de pesquisas e acompanhamento dessas tecnologias emergentes. É preciso trabalhar, desde agora, para que a segurança dos ciclistas seja garantida quando chegarmos ao ponto em que as promessas de um futuro com veículos autônomos for realidade. Como os carros autônomos e ciclistas vão continuar a dividir as estradas é preciso, segundo os autores, estabelecer como isso vai acontecer. Portanto, um manifesto foi elaborado como base para regular essa convivência e o direcionamento de políticas públicas.

(Divulgação/Bosch)

(Divulgação/Bosch)

As empresas envolvidas com o mercado de veículos autônomos são muitas. Google, Apple, Tesla são alguns dos principais nomes que aparecem na mídia, tanto por testes realizados em cidades aleatórias ao redor do mundo quanto por acidentes de alto valor e impacto midiático. Aos poucos estamos nos acostumando com a ideia e os carros autônomos vão se instalando no status quo. Enquanto isso, as empresas (aqui o TecMundo listou quarenta delas) prometem o aprimoramento da inteligência artificial, menos erros e mais segurança viária. No entanto, com ou sem motorista o uso do solo deve ser pensado para todos – o que evidencia a importância do manifesto desenvolvido pelos pesquisadores para servir como base de diálogo para discutir as interações entre veículos autônomos e ciclistas.

Sobre isso, recentemente, o Google informou que seus veículos autônomos terão visão de 360°, o que os capacita a identificar os ciclistas e as sinalizações que fazem para indicar conversões. Essa informação está no Relatório de junho do self-driving car Project. Além disso, um relatório da NACTO do mesmo mês destaca que a segurança viária deve ser uma prioridade das regulamentações envolvendo veículos autônomos. O tópico número um do relatório destaca a importância de veículos autônomos promoverem a segurança para “pedestres, ciclistas, motoristas, passageiros de outros veículos autônomos, e todos os usuários das ruas no contexto multi-modal das cidades”.

A programação desses veículos deve ser feita com base nos pedestres e ciclistas, sim. A alternativa tecnológica não deve ser implementada ignorando as lições do passado e as batalhas ao redor do mundo para estimular e prover infraestrutura para ciclistas. Um artigo do New York Times indicou como a tecnologia autônoma desses carros “ainda é incapaz de reagir a muitos fatores incertos das estradas, como perigos e eventos súbitos, particularmente sob clima ruim. Experimentos em locais de teste tentam resolver alguns desses desafios, mas ainda há muito trabalho a ser feito”. O que coloca em prova (ou torna um pouco assustadoras) as projeções de que teremos esse tipo de tecnologia circulando nas ruas em 2020.

Carro e bicicleta

(Foto: Bilobicles Bag/Flickr)

Confira os 13 princípios estabelecidos em forma de manifesto para ciclistas em um futuro de veículos autônomos:

  1. Veículos autônomos devem ser capazes de detectar bicicletas, bem como entender as sinalizações cicloviárias e os desenhos nas pistas;

  2. Devem ser capazes de entender os sinais de mão feitos por ciclistas

  3. Devem liberar o lado direito para ciclistas;

  4. Devem ter habilidade de sinalizar (visual e audível) sua detecção e intenções básicas;

  5. Devem permanecer a uma distância segura dos ciclistas quando não conseguirem ultrapassá-los;

  6. Devem respeitar a regra de três metros de distância de ciclistas especialmente em velocidades mais altas;

  7. Devem deixar uma ampla margem de segurança quando realizarem decisões sobre converter, ultrapassar, ceder a estrada, e qualquer outra decisão feita em cenários envolvendo ciclistas;

  8. Devem ser capazes de detectar a aproximação de ciclistas e prevenir que, uma vez estacionados, as portas se abram e acertem ciclistas passando;

  9. Devem ser desenhados (formato, tamanho, peso, materiais) de forma a minimizar as lesões causadas a um ciclista caso ocorra impacto;

  10. Devem trafegar em velocidades apropriadas para as condições urbanas para promover a segurança de quem não está dentro de carros;

  11. Devem evitar trafegar em ruas em que haja alta circulação de ciclistas;

  12. As empresas que implementarem veículos autônomos compartilhados devem garantir o fornecimento de veículos equipados com racks e suportes para carregar bicicletas para atender à demanda.

  13. Empresas de veículos autônomos devem manter um banco de dados com todas as informações de colisões, compartilhado com as agências de trânsito locais, estaduais e nacionais.

 

Os treze itens são apenas um ponto de partida para pensar as políticas vindouras, afirmaram os autores na publicação do Planetizen. Para William Riggs e Michael R. Boswell, autores do manifesto, ambos do Departamento de Planejamento de Cidades na Universidade Estadual da Califórnia:

“Espera-se que essa lista sirva para iniciar um diálogo sobre as interações e as políticas necessárias para garantir a segurança de pedalar em um futuro de veículos autônomos”