Táxi e Uber autônomos: emoção ou medo?

carro autônomo da nutonomy

Veículo da nuTonomy (Foto: ghruffo/Flickr)

Este texto foi escrito por Dario Hidalgo e publicado originalmente no TheCityFix México.

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O futuro chegou ou pelo menos está muito próximo: no último mês de agosto, a nuTonomy – uma empresa tecnológica criada no MIT -, deu início aos testes comerciais de táxis autônomos em Cingapura e a Uber começou um serviço “sem condutor” em Pittsburg, nos Estados Unidos. Esses desenvolvimentos se antecipam bastante às previsões de diferentes empresas e especialistas, que acreditavam que os carros autônomos estariam disponíveis entre 2018 e 2022. Do ponto de vista tecnológico, estes anúncios são emocionantes, ainda que não esteja claro se será uma tendência de rápido crescimento ou seguirá o caminho de outras inovações na indústria automotiva, como os veículos movidos a hidrogênio ou os carros elétricos, cujo crescimento tem sido muito mais lento do que o esperado.

Ao ler os anúncios de nuTonomy e Uber de forma mais detalhada, fica claro de que se trata de testes e não de operações comerciais totalmente autônomas. Embora oferecendo serviços gratuitos a terceiros, os veículos levam funcionários nos carros: um “condutor” pronto para retomar o controle e um especialista anotando os dados em seu computador para gerar relatórios completos. Por enquanto, a regulamentação não permite que os carros andem por aí sozinhos. De qualquer forma, as experiências são passos grandes na automatização de carros e serão úteis para reduzir medos, após os graves incidentes do piloto automático (condução assistida) da Tesla nos Estados Unidos e na China.

Como indica Robin Chase, fundadora da companhia de carros compartilhados ZIP Car, a chegada dos carros autônomos pode ser um sonho que não só nos devolverá o tempo perdido na direção, como também irá gerar trilhões de dólares de economia, salvar vidas e reduzir emissões. A redução de emissões se daria pelo uso de propulsão elétrica a partir de fontes limpas (hidroelétrica, eólica, solar e geotérmica). Por outro lado, também pode ser um pesadelo com “carros zumbis” movidos a gasolina, sem ninguém dentro, dando voltas ao redor da quadra (enquanto esperam o dono) ou voltando para a garagem de casa.

A chave para isso, de acordo com as suas análises, é contar com a regulação adequada para as novas tecnologias, do zoneamento urbano e do sistema tributário. Ela sugere eliminar os espaços mínimos de estacionamento, exigir que os novos veículos autônomos sejam compartilhados e elétricos, e substituir os impostos da propriedade de tarifas por uso, de acordo com os quilômetros de utilização da malha viária. Robin Chase acredita que é melhor reconhecer a mudança do que enfrentar o alto custo de não fazer nada. Isso é muito importante nos Estados Unidos, onde mais de 90% dos deslocamentos são feitos em carros.

E isso importa para nós? De certa forma sim, mas precisamos ser cuidadosos. Nossas viagens seguem sendo principalmente a pé, em transporte público e, de forma crescente, de bicicleta. Isto é algo que devemos preservar e não substituir por carros-robôs-elétricos-compartilhados. É difícil acomodar mais carros em nossas ruas, mesmo que sejam “inteligentes”. Já suportamos altos níveis de congestionamento, imaginem com “carros zumbis” vazios dando voltas. E o que fazemos com a força de trabalho?

Ignorar a chegada das novas tecnologias como os serviços autônomos da Uber e da nuTonomy é um erro, mas centrar as políticas públicas nesse caminho seria um erro ainda maior. Podemos nos concentrar no básico: um bom e compacto desenho urbano, de uso misto, com espaços seguros para a circulação de pedestres e bicicletas, e transporte público de qualidade. No fim, o transporte público é a forma mais eficiente de compartilhar veículos e usar um espaço viário limitado. Também já existe transporte coletivo elétrico e autônomo, no caso, de 37 metros, e em experiência em pequenos ônibus. O papel dos carros autônomos elétricos e compartilhados pode ser a conexão do último quilômetro em viagens curtas de zonas de menor densidade, não um serviço completo para toda a cidade.

Essa pode ser a base de uma visão “zero triplo”: zero mortes em acidentes de trânsito, zero emissões e zero propriedade individual. Em um quadro de prioridade para a circulação segura de pedestres, bicicletas e transporte público, os carros autônomos da Uber e da nuTonomy (e da Google, da Volkswagen, da GM, da Ford, da Toyota, da Tesla, da BMW, da Daimler etc.) são bem-vindos. De qualquer forma, é preciso uma regulação forte e um processo de transição adequado, como sugere Robin Chase.