(Vida)³ na Praça: domingo para falar de participação social e refletir sobre as cidades

 (Foto: Victor Moriyama)

Praça Alexandre de Gusmão ganhou outra cara neste domingo (Foto: Victor Moriyama)

Organismos vivos que são, as cidades são construídas todos os dias, pelas pessoas, por suas atitudes e formas de interpretar o espaço urbano. Neste domingo, no segundo dia de (Vida)³ na Praça, organizado pelo WRI Cidades Sustentáveis na Praça Alexandre de Gusmão, em São Paulo, o público presente teve a chance de pensar em novas maneiras de fazer isso.

Proposta para que as pessoas aproveitassem o espaço público de uma forma diferente e pudessem se informar sobre como as cidades podem ser melhores, a ação trouxe exposições e rodas de conversa sobre temas relevantes para as cidades, como a mobilidade urbana nas eleições, debatida no sábado. Neste domingo, o assunto principal foi a participação social. O dia foi cheio de atrações ao redor do cubo que deu nome à intervenção, entre elas jogos propositivos sobre as cidades, caminhadas temáticas e brincadeiras para as crianças, que encheram a praça de alegria.

A relação das famílias com a cidade foi o tema principal de uma atividade que começou às 10h na Praça do Ciclista e terminou às 12h na Praça Alexandre de Gusmão. Coordenada pela Cidade dos Sonhos, o Mater[na]cidade tinha o objetivo de levar pais, mães e seus filhos para uma caminhada em que fosse possível ver como o desenho da cidade interfere no cotidiano. Na chegada, Ana Neca, representante da Cidade dos Sonhos, comentou algumas das coisas que pais e mães viram durante o passeio, como calçadas estreitas, pontos de ônibus sem acessibilidade e até mesmo a falta de sombra e bancos, que poderiam atender a esse público.

Rodrigo Tardivo Coury Camara, 32 anos, contou como o seu olhar mudou depois que virou pai. “Hoje, quando saio de casa, percebo a falta de bancos para sentar, as calçadas difíceis de andar com o carrinho do bebê. Seria interessante se fossem pensadas estruturas que incentivassem as famílias a virem para essa praça, por exemplo”, contou.

Pais, mães e filhos fizeram caminhada para discutir interação com os espaços públicos (Foto: Victor Moriyama)

Pais, mães e filhos fizeram caminhada para discutir interação com os espaços públicos (Foto: Victor Moriyama)

Deise Ferreira da Silva, 32 anos, que estava com o filho pequeno, lembrou das vezes em que fica irritada dirigindo. “Hoje vimos um motorista com pressa, querendo passar, e às vezes fazemos isso sem nem nos darmos conta. Essa caminhada ajudou a aumentar nossa conscientização como pedestres”, explicou.

Ainda pela manhã, as pessoas puderam saber um pouco mais sobre outro tema caro aos brasileiros: a mobilidade urbana. Para ajuda-las a entender conceitos às vezes complicados e até mesmo estatísticas de uso dos modais, o Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (IDEC) e o Fast Food da Política montaram jogos de tabuleiro interativos.

Jane (à direita) brincou no jogo sobre mobilidade urbana (Foto: Victor Moriyama)

Jane (à direita) brincou no jogo sobre mobilidade urbana (Foto: Victor Moriyama)

Jane Soares, 66 anos, se surpreendeu ao saber que os ônibus transportam mais gente do que o metrô na capital paulista. “Os mais jovens têm que saber que devem se locomover pelo transporte coletivo, se não vão ficar apenas no carro como os seus pais”, lembrou, durante a brincadeira no jogo Como São Paulo se Move?. As pessoas também brincaram de escrever decretos, como se fossem prefeitos. Surgiram ideias como priorização dos ônibus nas principais avenidas e até o ensino da mobilidade urbana como disciplina nas escolas.

Você constrói a cidade

O tema da roda de conversa deste domingo no (Vida)³ na Praça foi “você constrói a cidade”. Uma discussão sobre como fortalecer o engajamento das pessoas na construção das cidades e como o poder público poderia incentivar isso. Todos são responsáveis, todos os dias, por atitudes que influenciam na vida urbana. Daniely Votto, Gerente de Governança Urbana do WRI Brasil Cidades Sustentáveis, Bruno Torturra, idealizador da Mídia Ninja e atualmente líder do Fluxo, Caio Tendolini, do Update, e Carla Link, do Coletivo Ocupe & Abrace e cofundadora do Talking City, discutiram a participação social e as inovações possíveis nessa área.

“Os gestores públicos até querem fazer a participação social, mas não sabem como. Para eles é um grande mistério, pois muitas vezes é feita sem planejamento, sem começo, meio e fim. O nosso trabalho sempre foi ajudar para quem sim, se escute as pessoas, utilizando-se de um método. É preciso planejamento e um diálogo que não seja uma via de mão única. As cidades são o terreno mais fértil para isso” explicou Daniely.

Daniely Votto participou de debate com Caio Tendolini, Carla Link e Bruno Torturra (Foto: Victor Moriyama)

Daniely Votto participou de debate com Caio Tendolini, Carla Link e Bruno Torturra (Foto: Victor Moriyama)

A participação social é uma forma de incluir os cidadãos no acompanhamento, na proposição e no controle das decisões de uma cidade. E pode aumentar a efetividade de políticas públicas ao fazer com que as pessoas se sintam parte das escolhas que interferem diretamente no seu dia a dia.

Caio Tendolini, representante do Update, uma plataforma que mapeou mais de 700 projetos em 12 países da américa Latina, chamou a atenção de que no ambiente municipal é mais fácil gerar um engajamento, pois as decisões afetam o cotidiano mais próximo das pessoas. Carla Link lembrou da sua experiência na gestão comunitária da Praça da Nascente e de como qualquer pessoa pode transformar a sua cidade, se estiver realmente interessada. Veja a cobertura completa do debate aqui.

Mas para participar da mudança das cidades também é necessário conhece-las bem. O grupo Desbravadores de Sampa tem uma proposta bem criativa para isso: organiza corridas e caminhadas para que as pessoas deem outro olhar para os espaços públicos. Partindo da praça Alexandre de Gusmão, um grupo percorreu o bairro observando prédios históricos e locais às vezes esquecidos no dia a dia. “Queremos quebrar o paradigma do medo de estar na rua e disseminar o conhecimento sobre a São Paulo ao andar pelos lugares oferecendo um novo olhar, garimpando coisas diferentes, estabelecendo uma nova relação”, explica Hugo Peroni, 35 anos, um dos contadores de histórias do coletivo, que organizou a corrida junto a Marina Pereira, 47 anos, psicóloga.

Elas pedalam, elas consertam: oficina de conserto de bicicleta para mulheres (Foto: Victor Moriyama)

Elas pedalam, elas consertam: oficina de conserto de bicicleta para mulheres (Foto: Victor Moriyama)

Depois de um dia intenso de atividades, com oficinas de horta urbana, conserto de bicicletas para as mulheres, promovida pelo Bike Anjo, e muitas brincadeiras com as crianças, o sol se pôs na Praça Alexandre de Gusmão. Talvez, depois deste final de semana, a praça e o resto da cidade serão vistos com outros olhos por quem curtiu São Paulo de uma maneira diferente.

Público vivendo a praça (Foto: Victor Moriyama)

Público diverso participou da ação na praça (Foto: Victor Moriyama)