Comunidade de São Miguel Paulista conhece um novo conceito de rua

“Vai ser sempre assim? Toda sexta-feira?”

A pergunta feita por tantos moradores de São Miguel Paulista ao perceberem a nova aparência da Rua Américo Gomes da Costa nesta sexta-feira é um indicativo dos anseios do bairro: um ambiente feito para as pessoas, onde todos têm o seu espaço e podem estar em segurança.

capa

(Foto: Otávio Almeida)

Assim foi a tarde na quadra de São Miguel que recebeu as atrações musicais, rodas de conversa, oficinas, feiras, horta comunitária e atividades lúdicas da Rua Para Todos. A ação organizada pelo WRI Brasil Cidades Sustentáveis dentro da Virada Sustentável envolveu a comunidade local em uma atmosfera alegre e vibrante. Embalados pelo ritmo dos hits populares que soaram pela rua ao longo de toda a tarde, os moradores tiveram a oportunidade de vivenciar um novo conceito de rua, em que o espaço urbano pode ser compartilhado por todos.

A Escola Estadual D. Pedro I, no centro da quadra, foi também o centro de transformação da rua. Os mesmos alunos que pela manhã acompanharam uma das oficinas de participação social do projeto de redesenho de São Miguel, à tarde voltaram para ver a fachada do colégio onde estudam se transformar. O muro, antes pichado, ganhou cor e vida nas mãos dos ministrantes das oficinas de grafite. “Nós já tentamos outras vezes pintar esse muro, mas nunca conseguimos por falta de recursos. Eu fico muito feliz quando coisas assim acontecem, ações que trazem mudanças boas para o bairro”, comemorou Beatriz Luz Silva, aluna do ensino médio no D. Pedro I.

muro

(Foto: Otávio Almeida)

Cento e cinquenta metros entre a Rua Padre Francisco Marcondes Improta e a Avenida Marechal Tito foram ocupados pelas atividades da programação. A caminhada começa pelo Espaço Bikes, onde além dos bicicletários à disposição do público, os adeptos da bicicleta puderam participar de uma oficina de conserto e manutenção ao longo de toda a tarde. Na sequência, o Espaço de Bate-Papos e Shows foi palco de alguns dos destaques da programação: a roda de conversa São Miguel + Humana e as participações de Rene Silva e Luana Hansen.

No bate-papo que apresentou aos moradores alguns detalhes do projeto da Área 40 de São Miguel, Hannah Machado e Pedro de Paula, representantes da Iniciativa Global para Segurança Viária da Bloomberg Philanthropies, chamaram a atenção das pessoas para os benefícios das alterações pelas quais o bairro passará nos próximos meses, com a primeira fase prevista para começar no final de setembro, O projeto olha para os pontos mais críticos de São Miguel Paulista: vias e interseções que registram um alto índice de ocorrência de acidentes e mortes. Nesses locais, acontecerão as principais alterações previstas.

pedrohannah

Pedro de Paula e Hannah Machado falaram sobre algumas das alterações que irão melhorar a segurança nas ruas de São Miguel (Foto: Otávio Almeida)

reneRene Silva (à esquerda) e Luana Hansen encerraram as atividades no espaço de bate-papos da Rua Para Todos. O criador do jornal Voz da Comunidade atraiu dezenas de jovens interessados em ouvir sua história e, no momento em que começou a falar, viu diante de si rostos atentos, tomados por um sentimento de identificação. Rene ficou conhecido em 2010, quando usou o Twitter para fazer uma cobertura em tempo real do cerco e invasão da polícia ao Complexo de Alemão. No espaço da Rua Para Todos, contou como o reconhecimento inesperado mudou sua história e deixou uma mensagem para os jovens que o assistiam: a juventude tem voz e espaço e pode usá-los para melhorar o lugar onde vivem. “Os jovens têm o poder de fazer uma contribuição valiosa para as cidades por meio da conscientização. Movimentos como esse que está sendo feito hoje propiciam essa mudança, dão mais segurança e vida para o bairro e com certeza inspiram os jovens a ocupar seu espaço e a não deixar de acreditar em um futuro melhor”.

publicorene

Jovens acompanham o relato de Rene (Foto: Otávio Almeida)

Na sequência, Luana Hansen preencheu a rua com um som poderoso. A MC, DJ e produtora musical lança mão do poder de suas letras para denunciar o racismo e a violência contra a mulher, problemas ainda recorrentes nos centros urbanos. “A sociedade aponta e mata todos os dias. Mas juntos nós podemos mudar isso”, bradou a cantora. Dona de uma voz forte, Luana acredita que estar na rua, ocupar os espaços públicos da cidade, é uma forma de moldar as cidades ao nosso redor e mudá-las para melhor: “É gratificante estar em um ambiente assim, conversando de igual para igual. Nós precisamos criar mais e mais oportunidades como essa, reunir pessoas nas ruas, dar mais vida à cidade”.

 

luana

Luana Hansen e sua parceira de banda, Drica (Foto: Otávio Almeida)

Em uma rua para pessoas é preciso contemplar todas as idades. Seguindo a caminhada, vemos que as crianças encontraram seu espaço em atividades pensadas especialmente para elas. Com a orientação dos ministrantes e sob o olhar atento dos pais, divertiram-se com apresentações teatrais, pinturas e mosaico e aprenderam a criar bombas de semente com argila. “Gostei de colocar as sementes na argila. Porque assim vão nascer muitas árvores novas”, comenta o pequeno João, de sete anos, ao terminar a atividade.

Os adultos não ficaram de fora e aprenderam com o grupo Aorta Comunitária a cultivar pequenas hortas em casa. Para começar, o estímulo veio com as mudas doadas ao final da oficina. “Construir uma horta não é um bicho de sete cabeças. Ter uma horta em casa é acessível a qualquer um, com o bônus de ser uma atividade extremamente prazerosa”, avaliou Ângela Ferreira, uma das participantes da oficina e mãe de Mariana, que acompanhava uma das atividades infantis.

criança

(Foto: Otávio Almeida)

aorta

Oficina cheia para aprender a cultivar uma horta (Foto: Otávio Almeida)

A música discotecada ao longo de toda a tarde deu o ritmo dos passos dos dançarinos de break e das acrobacias dos skatistas. E, no segundo extremo da rua, a feira de artesanato e orgânicos oferecia uma amostra do trabalho da comunidade de São Miguel. Entre muitas cores e interação, o dia chegou ao fim e com ele a certeza de que a comunidade de São Miguel Paulista viveu uma rua diferente. Uma rua para todos – como hão de ser tantas outras a partir das mudanças que ocorrerão daqui para a frente.