Como os londrinos se locomovem quando o Tube falha

(Foto: Tom Page/Flickr-CC)

(Foto: Tom Page/Flickr-CC)

Não seria delírio afirmar que Londres se locomove a uma média de 30 km/h. Na área central da cidade, para onde a grande parte dos residentes se desloca todos os dias, a maioria dos londrinos utiliza metrô ou trem para suas viagens diárias, meio de transporte que circula a uma velocidade média de 33 km/h. E isso não é um problema. O sistema de transporte da capital inglesa é indiscutivelmente eficiente e referência mundial. Porém, são as regiões onde predominam o uso da bicicleta ou o caminhar que indicam as falhas do famoso London Underground.

Há mais de 150 anos, Londres inaugurava o primeiro metrô do mundo. Hoje, o sistema, apelidado de “Tube” chega a alcançar um status de atração turística com seus 402 quilômetros de extensão e 270 estações espalhadas em 11 linhas diferentes.

Ao usar dados do censo nacional de 2011, o Consumer Data Research Centre produziu um mapa interativo que mostra como são os hábitos de trânsito dos moradores de Londres. Ao observá-lo, Londres se transforma em um mar laranja, cor que representa áreas em que as pessoas utilizam o metrô e os trens. Atualmente, o Tube atende 4,8 milhões de viagens por dia.

Mapa de como Londres se locomove. (Foto: CDRC Maps/Reprodução)

Mapa de como Londres se locomove. (Foto: CDRC Maps/Reprodução)

No entanto, também é possível observar grandes áreas em verde e lilás, que representam mobilidade a pé e uso de ônibus, respectivamente, e uma predominância do azul, que simboliza carros ou vans, nas adjacências da metrópole. Como esperado, o uso do ônibus é mais comum nas zonas em que o metrô não alcança principalmente em locais no sul e leste de Londres como Peckham, Stoke Newington, Camberwell e Hackney.

De acordo o pesquisador responsável pelo estudo, Oliver O’Brien, ao remover os dados sobre o uso do carro no Reino Unido, é possível perceber algumas conclusões sobre a mobilidade do país. Em Londres, segundo ele:

  • Áreas em verde (a pé) coincidem quase que perfeitamente com as zonas em que são aplicadas taxas de congestionamento;
  • Três das quatro maiores áreas em lilás (predominância do uso do ônibus) – Burgess Park, Hackney, Lea Valley e a enorme área ao redor do Aeroporto de Heathrow – são mal abastecidas pelo sistema de metrô e trem. A quarta delas, Lea Valley, é a mais interessante delas. O tipo de emprego mais popular da área é a limpeza, ou seja, os limpadores ou faxineiros, que normalmente trabalham no turno da noite ou madrugada, quando o ônibus é a único opção de transporte público. Ou seja, apesar de ter acesso a duas linhas férreas, os moradores utilizam predominantemente os ônibus.

A porção verde do mapa, em que a caminhada é a principal prática, está localizada na região chamada de Cidade de Londres, o núcleo da metrópole, onde funciona o distrito financeiro. Lá, mais de 7 mil pessoas moram em ruas dominadas por escritórios e, portanto, não têm necessidade de veículos para ir ao trabalho.

Mais pessoas ao nível do solo

Apesar do mapa interativo mostrar uma predominância do uso do metrô, os dados do TfL indicam uma preferência ao ônibus. Em 2014, conforme o TfL, 21% das pessoas optaram pelo ônibus diariamente, enquanto apenas 11% escolhem o Tube. Isso ocorre, principalmente, nas áreas mais afastadas do centro da cidade, onde as estações do metrô não são tão próximas umas das outras e as pessoas acabam tendo que completar suas viagens de ônibus, já que 90% dos londrinos vivem a menos de 400 metros de um ponto de ônibus.

Atualmente, Londres procura incentivar o hábito do transporte ativo na população. Segundo o TfL, no período entre os anos 2000 e 2014, 10% no total de pessoas trocaram seus carros particulares por transporte coletivo ou optaram pela bicicleta ou por caminhar nos seus deslocamentos diários. As três formas de transporte correspondiam, em 2014, a 63,5% das viagens na cidade.

(Foto: Tejvan Pettinger/Flickr-CC)

(Foto: Tejvan Pettinger/Flickr-CC)

Ainda que em pequena proporção e bem localizado, o uso da bicicleta em Londres vem crescendo. Na Zona 1, a mais central da cidade, durante a hora de pico da manhã, 32% das viagens são realizadas por bicicleta. Em algumas ruas principais, mais de 70% dos veículos são bicicletas, segundo o programa Human Streets. No ano de 2000, a proporção era de 11 carros para cada 1 bicicleta. Em 2014, foram dois carros para cada bicicleta. Segundo o TfL, se a tendência continuar, o número de pessoas se dirigindo ao centro de Londres de bicicleta irá superar o número de carros até 2018.

A prefeitura de Londres também investe em campanhas pela caminhabilidade. Algumas estações do metrô da cidade dão a falsa impressão de estarem separadas por grandes distâncias, mas nem sempre isso condiz com a realidade. O sistema Legible London instala mapas em totens próximos das estações e em pontos de ônibus com indicações das ruas próximas e tempo de caminhada dentro de um raio de 5 e 15 minutos. Até 2020, a cidade quer ter instalado 3 mil desses informativos.

Um outro Tube

O arquiteto dinamarquês Nille Juul-Sorensen, Diretor de Arquitetura da multinacional Arup, quer transformar estações de metrô em ambientes mais saudáveis. “Londrinos merecem mais”, diz ele. A empresa trabalha atualmente em um projeto na estação de Canary Wharf que prevê a instalação de um shopping e um parque público no terraço. Todos os projetos são pensados para oferecer melhores experiências aos usuários, acabando com possíveis perturbações. “Eu, na verdade, odeio transporte público quando ele não é bom o suficiente. Então quero mudar isso”, afirma.

Algumas das ideias do arquiteto para as estações de metrô londrinas sugerem: tentar aproveitar a luz natural da rua mesmo em estações mais profundas; elementos de design mais intuitivos e coloridos nas estações que ajudam os usuários a chegarem às plataformas; acabar com catracas com o desenvolvimento de um sistema automático de cobrança que debita os passageiros via smartphone; usar materiais mais fáceis de limpar nas estações; introduzir galerias de arte, lojas, bibliotecas ou até piscinas nas estações.