O pedestre no centro do debate sobre a mobilidade urbana

(Foto: Mariana Gil/WRI Brasil Cidades Sustentáveis)

(Foto: Mariana Gil/WRI Brasil Cidades Sustentáveis)

Andar a pé ou de bicicleta, visto como interesse minoritário por muito tempo, pode ser um desafio no Brasil e em outros países. A mobilidade ativa vem gradualmente se evidenciando nos debates públicos. A bicicleta, ainda que de maneira tímida, tem conquistado espaço. Porém, andar a pé continua tão esquecido quanto o planejamento, construção e manutenção das calçadas. Em Brasília, no entanto, o pedestre ganhou, no último mês, representação pública na implantação da Diretoria de Mobilidade a Pé. Pioneira no Brasil, a iniciativa será coordenada pela administradora e mestre em transportes, Adriana Souza. Entre os papeis desempenhados pela Diretoria está a introdução de novas formas de pensar a cidade, a reflexão sobre espaço do pedestre e a criação de um Plano de Mobilidade a Pé.

Em décadas de planejamento urbano direcionado ao carro, a iniciativa desponta como oportunidade para repensar não apenas Brasília, mas todos os municípios brasileiros – e a humanização de seus espaços – que, hoje, apresentam desigual uso do solo. A Diretoria, se copiada em outras cidades brasileiras, pode fomentar políticas públicas efetivas para quem caminha. Afinal, os deslocamentos a pé não recebem infraestrutura adequada. É fácil encontrar falta de sinalização, tempo de semáforo insuficiente ao pedestre, pouca qualidade e espaço das calçadas, ausência de acessibilidade. E não é preciso caminhar ou procurar muito.

Em matéria do Estadão, Adriana destacou como “a disputa da mobilidade a pé com meios motorizados de transporte, já deveria ser coisa do passado. Todos nós entendemos que as cidades são feitas para as pessoas, porém precisamos começar a colocar isso em prática. Quando falamos de Brasília, especificamente, o incentivo da mobilidade a pé esbarra em uma cultura de dependência do automóvel, para o deslocamento, que chega a ser absurda. O que precisamos imediatamente em Brasília é parar de repetir que a capital não foi feita para os deslocamentos a pé, pois isso todo mundo já sabe, precisamos reverberar que mesmo sendo uma cidade planejada para o automóvel, Brasília se transformará em uma cidade mais humana e mostrará ao mundo que as cidades sempre serão o maior espaço de troca e convívio dos seres humanos”.

Em Lisboa, por exemplo, foi desenvolvido um Plano Pedonal que visa diagnosticar os desafios e identificar os pontos críticos que os pedestres enfrentam nos espaços urbanos. Na cidade, muitas calçadas apresentavam tipos de barreiras por lacuna de infraestrutura criada ou por carros estacionados em cima da calçada. Portanto, o plano de Lisboa foca em três objetivos: impedir a criação de novas barreiras, adaptar as edificações existentes e mobilizar a comunidade.

A ANTP (Associação Nacional de Transportes Públicos) tem uma Comissão Técnica de Mobilidade a Pé e Acessibilidade com o intuito de fornecer subsídios e diretrizes para o desenvolvimento de legislação e políticas públicas ao pedestre.

“Além de tudo isso, pode-se afirmar sem medo de erro que carro faz mal à saúde, e não apenas por causa do ar poluído e da poluição sonora. As doenças que o sedentarismo tem provocado – hipertensão, obesidade e diabete –, perfilam ao lado dos distúrbios psiquiátricos como as epidemias do século 21. O remédio? Caminhar, pedalar, usar transporte público… Não cura, mas diminui em muito os riscos”, ressalta o caderno técnico sobre Cidades a Pé, publicado pela ANTP em 2015.

A coordenação dos diferentes setores da política de transporte é, portanto, uma forma de facilitar a construção de cidades caminháveis. Em tempos que a mobilidade urbana tem sido cada vez mais debatida, é imprescindível para a busca de uma cidade mais sustentável e equânime que o pedestre esteja no centro desses debates.