Três lições para cidades mais eficientes

(Photo by zekedawg00 / Flickr)

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Este post foi escrito por  e originalmente publicado no TheCityFix.

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Eficiência urbana diz respeito a conectar o potencial, a energia e a infraestrutura dos edifícios para criar cidades inteligentes e sustentáveis. Mas como são as experiências bem-sucedidas e como as cidades chegam lá?

Em junho passado, prefeitos de 34 cidades, diretores de sustentabilidade e profissionais de eficiência energética se reuniram em Washington para uma mesa redonda, durante o National Press Club de D.C., liderado por Johnson Controls, para discutir essa questão – como se dá a implementação de medidas de eficiência urbana nas cidades norte-americanas?

Três mensagens-chave apareceram e se repetiram ao longo da discussão: a necessidade de envolver os membros da comunidade na tomada de decisões, a capacidade do governo de desempenhar diferentes papéis em diferentes contextos e a importância de demonstrar os muitos impactos positivos dos projetos de eficiência energética: ambientais, sociais e econômicos.

Envolvendo a comunidade na tomada de decisão

Frequentemente, decisões sobre comunidades são feitas sem a participação de seus membros no processo. Vários representantes de prefeituras presentes na mesa redonda expressaram o quanto é importante mudar esses métodos de governança, observando que, se a liderança e tomada de decisão não refletem os interesses da população, os projetos comunitários não serão bem-sucedidos. No entanto, para que isso aconteça, os governos precisam estar abertos para o trabalho conjunto. Envolver – e não apenas engajar – a comunidade nas decisões que terão impacto em seu dia a dia é a única maneira de garantir o apoio da população e, assim, criar laços de a confiança e conscientização.

No início do evento, Francis Slakey, da Universidade de Georgetown, contou uma história sobre a construção de confiança para envolver a comunidade. “Glenda e a transformação de oito dólares” conta a história de uma mulher de um bairro de baixa renda no Tennessee que estava relutante em implementar “soluções” de uma organização local para suas altas contas de energia elétrica. Quando eles se aproximaram, ela imediatamente desconfiou, pois sentia que há muito tempo havia sido abandonada pelas agências governamentais e organizações. No entanto, com a continuação da conversa e o comprometimento da comunidade, a mulher seguiu a sugestão da organização e, para sua surpresa, acabou por ter uma redução de 66% em sua conta de energia elétrica no mês seguinte. Com isso, a confiança foi reestabelecida.

Quando a conta de energia diminuiu substancialmente, ela contou aos vizinhos sobre essa transformação. Estes, por sua vez, contaram a outros vizinhos, e de repente um sentimento de comunidade se estabeleceu, resultando em churrascos de bairro, algo que há muito tempo não acontecia. Histórias como essa mostram a importância de estabelecer confiança em uma comunidade, o primeiro passo na construção de sensibilização e aceitação de moradores para que se efetuem mudanças na comunidade.

Encontrando o papel certo para o governo

Conforme descrito em um relatório recente do WRI, Acelerando Eficiência: 8 ações de líderes urbanos, os governos podem desempenhar vários papéis para melhorar a eficiência urbana: 1) como reguladores, 2) como proprietários ou investidores e 3) como organizadores ou facilitadores.

Em primeiro lugar, quando o governo serve como um regulador na área de eficiência energética, torna-se responsável pela adoção e aplicação de códigos de energia de construção, que estabelecem um nível mínimo de desempenho energético. No entanto, esses códigos são geralmente escritos como normas prescritivas, e vários participantes notaram que esse rigor pode inibir a inovação e uma maior eficiência em nível de sistemas. Eles podem “travar” os métodos existentes, e, caso não sejam atualizados regularmente, podem não representar a melhor prática ou tecnologia.

Como regulador, o governo também pode ser uma fonte de subsídios ou incentivos. Os participantes discutiram a possibilidade de utilizar programas governamentais inovadores, tais como os programas de Propriedade-Avaliada de Energia Limpa, para aliviar a carga financeira dos proprietários de edifícios. Eles notaram que muitos proprietários de casas e organizações enfrentam dificuldades na obtenção de financiamento para empréstimos voltados às melhorias de eficiência energética, mas acrescentaram que as cidades podem fornecer esse financiamento (empréstimos rotativos) ou reforços de crédito com base na economia de energia e programas de incentivo com serviços públicos locais.

Em segundo lugar, como proprietários de edifícios e infraestrutura, os governos podem dar o exemplo. Um dos prefeitos na mesa redonda destacou a importância da apresentação de projetos de eficiência energética – como, por exemplo, exibir publicamente informações de desempenho energético em edifícios municipais e investir em escolas que envolvam esse tipo de projeto. Outro integrante da mesa debateu sobre a instalação combinada de energia solar e tecnologia de calor para transformar lodo de esgoto em energia, a fim de cumprir as metas de energia renovável da cidade. Eles perceberam que a comunidade poderia se beneficiar dos novos recursos e serviços de energia limpa e, ao mesmo tempo, criar uma nova fonte de receita e aumentar a eficiência da cidade.

Por fim, na posição de convocadores, os governos podem mobilizar recursos e facilitar a interação entre as partes interessadas, a fim de melhorar a eficiência energética. Um dos presentes mencionou que, em sua cidade, nomearam um Chief Information Officer (em português, algo próximo a Presidente de Informação) para servir como o ponto focal de iniciativas de sustentabilidade e de relações com a comunidade. Outro representante destacou como as cidades podem se comprometer a cumprir o nível mínimo de demanda em um contrato de compra de energia de longo prazo a fim de permitir mais instalações solares para as organizações residenciais e sem fins lucrativos.

Eficiência não é apenas energia

Além dos muitos benefícios ambientais de projetos de eficiência energética, muitos dos prefeitos da mesa redonda notaram os benefícios econômicos e sociais também. Um prefeito referenciou uma iniciativa de iluminação urbana de uma cidade que converteu 6.900 postes tradicionais em postes com luzes LED. Uma pesquisa realizada na cidade mostrou que 10% dos postes não eram funcionais – o que acabava por configurar uma realidade sombria para a segurança pública em alguns bairros. Esse projeto permitiu à cidade economizar 60% em energia e a melhorar a iluminação pública, criando um ambiente mais claro para os moradores.

Iniciativas como essa são energeticamente eficientes, mas também podem impactar felicidade dos cidadãos, como foi observado por outro prefeito da mesa, que viu as taxas de satisfação comunitárias quase quadruplicarem. Além disso, em algumas cidades, os postes estão indo além de sua função tradicional de iluminação, fornecendo dados de medição de energia para prefeituras e empresas de serviços públicos. Um participante observou que os sistemas de controle de iluminação pública LED recém-instalados reportaram problemas de voltagem na rede que anteriormente não haviam sido detectados.

Aprender uns com os outros para superar os desafios comuns

Apesar dos exemplos inspiradores, os desafios de alavancar a eficiência urbana ainda existem. Os problemas mais comuns incluem acesso aos dados e privacidade, processos tomada de decisão complexos envolvendo edifícios multi-familiares e o fraco desempenho dos edifícios de “baixo valor energético”.

A mesa redonda de Eficiência Urbana ofereceu a cidades de diferentes partes dos Estados Unidos um espaço para estabelecer novas conexões, compartilhar experiências e discutir oportunidades para o futuro. No final, é esse tipo de diálogo aberto e comunicação que será a chave para tornar nossas cidades mais eficientes em termos de identificar, replicar e ampliar as melhores soluções.