Reconhecendo a abordagem incremental como parte de uma maior política de habitação

O projeto de habitação Quinta Monroy (Foto: Pontificia Universidad Católica de Chile/Flickr)

O projeto de habitação Quinta Monroy (Foto: Pontificia Universidad Católica de Chile/Flickr)

Surpreendendo muitos na comunidade de arquitetos, o prestigiado prêmio Pritzker deste ano foi para o arquiteto chileno Alejandro Aravena. Apesar de o prêmio ser considerado recorrentemente o prêmio Nobel da arquitetura – o que sugere imagens de arranha-céus icônicos ou centros culturais, Aravena alcançou a fama pelo trabalho de sua empresa com a comunidade Quinta Monroy, um projeto de habitação a preços acessíveis, que adotou um processo “gradual” para criar casas para 100 famílias.

A premiação destacou a importância da habitação a preços acessíveis. Estima-se que sejam necessários um bilhão de lares para atender às demandas do mundo para a habitação urbana. Enquanto as soluções tradicionais de habitação a preços acessíveis tem focado em habitação social – que é frequentemente cara e muitas vezes leva à deterioração social das comunidades criadas pelo governo – ou na produção privada –  que possui um histórico ruim na satisfação da população urbana pobre –  os projetos de Aravena e outros arquitetos provaram que há outro jeito. Uma abordagem “gradual”, em que os pobres urbanos estão envolvidos na construção de suas próprias casas, lentamente ao longo do tempo, pode reduzir os custos de habitação ao mesmo tempo em que dá voz  aos membros da comunidade na concepção de suas próprias residências.

Muitos exemplos ao redor do mundo mostram que a construções graduais apoiadas pelo governo e com opiniões dos residentes (inclusive com sugestões para os projetos)  podem criar uma habitação acessível e digna para comunidades carentes.

Projetando para o Crescimento Incremental no Chile

Em 2002, o programa Chile Barrio, uma iniciativa nacional liderada pelo Ministério da Habitação e Urbanismo do Chile, contratou a empresa de Aravena, Elemental, para encontrar uma maneira de criar novas casas para uma comunidade de 100 famílias que vivia em um assentamento precário na cidade costeira do norte de Iquique. O governo subsidiaria os custos de habitação em US $ 7.500 por família e os moradores poderiam continuar a viver na mesma área de 5.000 metros quadrados.

Através de envolvimento da comunidade e planejamento de oficinas, Aravena teve a ideia de tomar uma abordagem incremental, construindo apenas o físico: fundações, paredes, escadas, cozinha e banheiros. Esses elementos compreendem a metade de uma casa, o que é normalmente o mais difícil para uma família bancar. As famílias poderiam, então de forma incremental projetar e construir o resto de suas casas ao longo do tempo.

O esquema permitiu à equipe de Aravena, dentro de uma relação custo-eficácia, construir casas de custo-efetivo, e garantiu aos moradores uma moradia estável para viver e que pudessem personalizar a seu gosto. Alguns foram mesmo capazes de alugar quartos extras e desenvolver meios de vida baseados na casa, e as crianças ganharam novos espaços abertos para brincar bem em frente às suas casas. Aclamado como um sucesso, o projeto garantiu aos membros da comunidade que as propriedades não fossem nem alienadas nem deslocados para a periferia urbana. E os valores de propriedade, divulgados neste PDF, ultrapassaram U$ 20.000 em um ano.

Planejamento liderado pela comunidade na Tailândia

O programa tailandês Mankong Baan também oferece aulas de habitação progressiva através de um processo descentralizado, liderado pela comunidade. Lançado em 2003 pelo Instituto de Desenvolvimento de Organizações Comunitárias (CODI), o programa dirige pequenos, mas flexíveis subsídios governamentais e concede empréstimos para as comunidades e grupos de poupança com ênfase no processo inclusivo, coletivo. Recebendo sugestões de todos os membros da comunidade, esses grupos permitem aos residentes decidirem como gostariam de investir o dinheiro, desde a reconstrução ou atualização das casas até a realocação de bairros inteiros. Além disso, o Programa Mankong Baan oferece apoio técnico e financeiro através do governo, bem como arquitetos e planejadores da comunidade, quando necessário. Permitindo que os residentes tenham atendidas as suas necessidades de segurança de posse, de redistribuição de terras, melhorias habitacionais, de prestação de serviços e muito mais.

Com o controle na mão dos residentes e apoio financeiro flexível, o processo coletivo na essência de Baan Mankong permitiu às comunidades construir unidades maiores com a metade do custo da contratação de um empreiteiro. Em cinco anos, o programa se envolveu com mais de mil comunidades em centenas de cidades e vilas e, a partir de 2014, já tinha alcançado a marca de 100 mil famílias.

 

Casas informais e negócios construídos ao longo dos trilhos e abaixo de uma rodovia elevada, em Bangkok, Tailândia. (Foto Michael Coghlan/Flickr)

 

Reconhecendo a abordagem incremental como parte de uma maior política de habitação

Tais programas ilustram uma mesma lição: que dar o controle aos habitantes tanto na construção quanto no financiamento pode ser uma solução efetiva para atingir à demanda de habitação. Como referenciou, ainda em 1972, o pesquisador de habitação John Turner, “a satisfação das necessidades de habitação por instituições centrais é uma impossibilidade para os governos com orçamento muito pequeno e encontra confronto com o rápido crescimento da massa de pessoas com pequenos rendimentos”.

Embora este tipo de abordagem, certamente, não sirva a todos os moradores urbanos – pois pode levar mais tempo do que os esforços de habitação social convencionais, e pode ser limitado pelo nível de apoio recebido do setor público – qualquer política de habitação inclusiva deve considerar processos incrementais liderados pelos moradores

Um documento a ser lançado pelo WRI analisa a habitação informal no contexto mais amplo do acesso à habitação a preços acessíveis dentro dos desafios da cidade e dos serviços urbanos. O trabalho fará parte do próximo Relatório de Recursos Mundiais (WRR) sobre Cidades Sustentáveis, que explora como as cidades podem se tornar mais economicamente prósperas, ambientalmente sustentável e socialmente justas.

Esse post escrito por  Foi publicado originalmente no TheCityFix.Com