Inovações disruptivas provocam a reflexão sobre falhas nos modelos tradicionais de mobilidade

(Foto: Mariana Gil/WRI Brasil Cidades Sustentáveis)

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Um estudo da ONU afirma que 64% de todos os quilômetros percorridos globalmente são em áreas urbanas e esse número deve triplicar até 2050. Além do fato de que a maioria das cidades não está preparada para isso, será que essa quantidade de quilômetros é realmente necessária ou é consequência de falhas de mobilidade? Inovações disruptivas podem ser eficazes para identificar problemas que o planejamento de transporte baseado em modelos tradicionais não enxerga.

O que os novos aplicativos de transporte fazem para obter tantos usuários em tão pouco tempo? Qual a fórmula do sucesso? Talvez a resposta para isso seja que eles apenas enxergaram “brechas” que se transformaram em possibilidades. O rápido crescimento da população que vive nas cidades gera uma explosão de novos usuários para os meios de transporte convencionais, que, por consequência, tornam-se insuficientes para atender à demanda. Isso acaba incentivando ainda mais o uso do carro particular, fenômeno que deve ser combatido nas cidades do futuro. As tendências atuais indicam que mais pessoas vão optar por utilizar o transporte motorizado privado até 2025, levando a 6,2 bilhões de viagens motorizadas particulares todos os dias.

O evento Debates sobre Inovações em Mobilidade Urbana, organizado pelo WRI Brasil Cidades Sustentáveis em parceria com a Embaixada Britânica, e realizado em Belo Horizonte nos dias 17 e 18 de agosto, buscou discutir como as transformações tecnológicas são inseridas nos sistemas de mobilidade dentro dos modelos já praticados. “Temos um cenário de possibilidades com essas inovações em mobilidade urbana em que elas vêm para agregar e trazer benefícios para as cidades”, destacou o Especialista de Mobilidade Urbana do WRI Brasil Cidades Sustentáveis, Guillermo Petzhold.

(Foto: Paula Tanscheit/WRI Brasil Cidades Sustentáveis)

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Estudos afirmam que ao dobrar a oferta do transporte coletivo ao redor do mundo até 2025 – em comparação com os números de 2005 –, as cidades serão capazes de aumentar seu crescimento, ajudar a combater as mudanças climáticas e criar um ambiente positivo para as pessoas e os negócios prosperarem. Porém, com a dificuldade de encontrar espaço e gerar infraestrutura para isso, as cidades precisam encontrar novas soluções. “O mais importante de ser avaliado é o nível de satisfação da sociedade. Se a população está buscando outros serviços diferenciados, é porque ela não está satisfeita com o que tem hoje. Esse é o principal fator a ser analisado”, afirmou Geraldo Ferreira da Silva, do Ministério Público de Minas Gerais.

Inovações disruptivas em transporte podem gerar consequências positivas para além do próprio uso. A análise que é feita em cima do uso de aplicativos como o Uber, tão polêmico e, na mesma proporção, disseminado em tantos países, pode dar respostas aos planejadores de transporte urbano. “Existe uma diferença muito grande entre a percepção da população e a reação do poder público em relação aos transportes compartilhados. Cria-se um descompasso. Mas a questão é como ter parâmetros de planejamento para os novos sistemas que surgem com a tecnologia”, afirmou Sideney Schreiner, do Instituto da Cidade Pelópidas Silveira (ICPS), da Prefeitura de Recife.

Inovações podem facilmente sofrer resistência do poder público. A regulamentação de novos serviços pode gerar grandes discussões e postergar possíveis benefícios para a mobilidade urbana. Por outro lado, autorizar novas alternativas, muitas vezes sem estudos de impacto, pode gerar efeitos negativos a longo prazo. “Todas as redes de transporte público das cidades brasileiras estão sob uma linha tênue entre o equilíbrio econômico e financeiro. O mercado de transporte coletivo precisa ter alguma restrição à livre iniciativa. É a partir dessa restrição que você consegue atender pressupostos de serviço público e que se consegue manter esse serviço funcionando de acordo com o direito do cidadão. É fundamental que o transporte coletivo de passageiros seja regulamentado pelo poder público”, disse Marcos Bicalho dos Santos, Diretor Administrativo e Institucional da Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos (NTU).

(Foto: Mariana Gil/WRI Brasil Cidades Sustentáveis)

“Acredito que tenha um mercado de demanda dispersa que pode ser atendido por serviços ‘diferenciados’ como, por exemplo, um que pegasse as pessoas não porta a porta, porque é inviável, mas que coletasse as pessoas concentradas em algum ponto. Isso seria um transporte público, no sentido em que é um ônibus, em que o passageiro pagaria uma tarifa, seria agregada uma tecnologia que consegue definir custos variáveis e o concessionário poderia explorar o serviço. Quem desenvolve a tecnologia poderia ser prestador desse serviço”, sugeriu Ramon Victor César, presidente da BHTrans.

“É uma oportunidade de servir pessoas que de maneira alguma utilizam o transporte público tradicional. Tudo o que queremos é que as pessoas usem um tipo de transporte coletivo, seja ele organizado da forma que for, de itinerário fixo ou variável.

Além de disponibilizar o serviço de transporte a mais pessoas, a tecnologia pode ajudar ainda a desenvolver a acessibilidade, como lembrou Kátia Ferraz, coordenadora da Rede Mineira de Tecnologia Assistiva, da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Ensino Superior de Minas Gerais (SECTES). “Para pensarmos em inovação também temos que refletir sobre como a sociedade vai usufruir desse serviço. O serviço público às vezes tem dificuldade de pensar nas questões de acessibilidade. Muitas vezes pensa-se que a solução se resume a uma rampa de acesso enquanto existem outros recursos de tecnologia assistiva a serem pensados”, afirmou. “Se não houver esse pensamento de enxergar a sociedade e o que ela precisa, nós não termos atendimento bom para a sociedade usufruir.”