O que torna uma cidade inteligente?

Ao tomar como base as estimativas da Organização das Nações Unidas que projetam megacidades de até 35 milhões de pessoas até 2050, é indiscutível o fato de que as novas demandas de infraestrutura, serviços e economia irão exigir mudanças significativas nas cidades. O uso de novos recursos pode garantir o sucesso das respostas que as cidades darão diante dessa rápida urbanização. E é por isso que uma cidade precisará ser inteligente.

Cidade de Songdo, na Coreia do Sul. (Foto: Andy Nelson/Flickr-CC)

Cidade de Songdo, na Coreia do Sul. (Foto: Andy Nelson/Flickr-CC)

A ideia de uma cidade inteligente vem se disseminando não apenas graças ao avanço tecnológico em curso nas últimas décadas, mas também devido aos crescentes desafios impostos às prefeituras. Com o aumento populacional e até territorial ocorrido nas cidades, os comandos municipais podem perder a capacidade de controle e também de atender a todas as demandas. A fragmentação das cidades em regiões pode enfraquecer estratégias e prejudicar a leitura holística da corrente situação. Ponto fundamental para uma cidade ser inteligente é ela trabalhar com tecnologias que agreguem informações, que façam dela um sistema interconectado, um conjunto orgânico.

Para garantir resiliência e sustentabilidade, uma cidade inteligente precisa interligar diversos fatores como eficiência energética em construções, transporte integrado e multimodal, manejo de resíduos, projetos de governança, entre outros. A tecnologia, neste caso, é o meio para isso.

Uma cidade inteligente pode ainda ter diversas definições. O que se entende por cidade inteligente no Brasil pode não ser o mesmo que na Dinamarca, por exemplo, já que o conceito varia conforme o patamar de desenvolvimento, recursos e tecnologia que se encontra o local. O Ranking Connected Smart Cities, um projeto elaborado com o objetivo de mapear as cidades com maior potencial de desenvolvimento do Brasil, leva em conta 11 setores para avaliar cada um dos 700 municípios: segurança, economia, energia, governança, empreendedorismo, mobilidade, saúde, educação, meio ambiente, tecnologia e urbanismo.

Classificada como a primeira cidade inteligente do mundo pelo jornal inglês The Guardian, Songdo, na Coreia do Sul, foi construída do zero. Seu projeto teve início em 2003 com o objetivo de promover o desenvolvimento sustentável através do uso da tecnologia. As edificações são todas planejadas para a eficiência energética, com controle de temperatura automático e acesso informatizado, as estradas e o sistema de fornecimento de água e de eletricidade são densos, com sistemas eletrônicos que permitem ao “cérebro” da cidade monitorar e responder aos movimentos dos moradores. Sensores detectam as condições do trânsito e reprogramam os semáforos, um sistema pneumático de gestão de resíduos passa por toda a cidade, o que quase elimina a necessidade de coleta de lixo, entre tantos outros dispositivos dignos de filmes de temática futurística. Em Songdo tudo é conectado e voltado para o correto uso dos recursos. A cidade é arquitetada para ser uma cidade verde, possui extensos caminhos para pedestres, 25 quilômetros de ciclovias e estações para recarga de veículos elétricos.

Não apenas novas cidades podem ser inteligentes. Eleita por dois anos seguidos a cidade mais inteligente da Europa pela revista Fast Company, uma das mais respeitadas sobre negócios e inovação, Copenhagen executa projetos de inovação há alguns anos na busca por eficiência energética em construções, expansão de espaços verdes e do transporte coletivo e crescimento do uso de energia renovável. Além da famosa cultura de uso da bicicleta, Copenhague tem como objetivo ser a primeira capital mundial a tornar-se neutra em termos de emissões de carbono até 2025. Pelo ranking da publicação, a cidade também está no topo da categoria “pessoas inteligentes”, que mede indicadores de inclusão social, educação e criatividade, por exemplo.

Nave do Conhecimento, no Rio de Janeiro. (Foto: Agência Brasil Fotografias/Flickr-CC)

Nave do Conhecimento, no Rio de Janeiro. (Foto: Agência Brasil Fotografias/Flickr-CC)

O Intelligent Community Forum (ICF), um laboratório de ideias com sede em Nova York, define como cidades e regiões inteligentes as que utilizam a tecnologia não para economizar dinheiro ou fazer as coisas funcionarem melhor, mas também para criar empregos de qualidade, aumentar a participação dos cidadãos e tornar os lugares atraentes para viver e trabalhar. O ranking das sete comunidades mais inteligentes do ano passado inclui cidades de cinco diferentes países escolhidas de acordo com os indicadores de sucesso das comunidades desde 1999.

O Rio de Janeiro ganhou um lugar na lista. Por ser cidade-sede da Copa do Mundo de 2014 e sediar os Jogos Olímpicos, a cidade recebeu a chance de se revitalizar, aprimorar seus sistemas de transporte e lidar com problemas antigos de infraestrutura. Segundo o ICF, a informação e a comunicação estão no cerne da transformação na Cidade Maravilhosa. A entidade destaca alguns projetos: a criação do Centro de Operações, uma espécie de quartel-general de dados da prefeitura de onde é possível monitorar a cidade e reagir com rapidez a diversas situações; as Naves do Conhecimento, espaços presentes em diversas comunidades dos subúrbios onde são oferecidos cursos de inglês, uso de computadores, diferentes treinamentos e momentos de entretenimento, tudo gratuitamente; e as Casas Rio Digital, espaços de capacitação on-line e presencial distribuídos pela cidade.

Segundo o colaborador em Inovação de Dados e Ferramentas do WRI Ross Centro para Cidades Sustentáveis, Diego Canales, o desconhecimento sobre as novas tecnologias pode ser a principal barreira no processo de construção de uma cidade inteligente. “Formatos e protocolos abertos e padronizados, dados abertos e interfaces abertas e documentadas e componentes modulares (software). Esses princípios ajudam a evitar que as soluções e tecnologias escolhidas não representem um atraso no futuro próximo. Outra barreira é saber como colocar dentro de uma agência de governo pessoas que tenham essas capacidades técnicas, qual o tempo para inovar e como escolher as melhoras tecnologias”, afirma Canales.

Ainda que uma invasão tecnológica crie receio sob inúmeros aspectos, novos dispositivos podem ser a chave para alcançar a sustentabilidade no contexto urbano. As urgentes necessidades de cortar emissões de CO2, de fazer melhor uso dos recursos naturais, assim como lidar com a falta deles, o dever de tratar dos resíduos, entre muitos outros desafios que são acentuados a cada ano, podem ser mensurados e combatidos em uma cidade inteligente. A vantagem da inteligência para a população é ter a possibilidade de viver em um contexto de interfaces inteligentes, que garantem serviços personalizados e eficientes. A vantagem para as cidades é poder entregar serviços eficazes, fazer uso competente da infraestrutura e ter as informações completas de como a cidade está sendo vivida pelos seus cidadãos e quais necessidades precisam ser atendidas.