Nossa Cidade: ônibus responsivos à demanda como solução de mobilidade

Nossa-Cidade_TRANSPORTE-COLETIVO

O projeto Nossa Cidade, do TheCityFix Brasil, explora questões importantes para a construção de cidades sustentáveis.

A cada mês um tema diferente.

Com a colaboração e a expertise dos especialistas do WRI Brasil Cidades Sustentáveis, os posts trazem artigos especiais sobre planejamento urbano, mobilidade sustentável, resiliência, segurança viária, entre outros. A cada mês, uma nova temática explora por ângulos diferentes o desenvolvimento sustentável de nossas cidades.

Ônibus responsivos à demanda como solução de mobilidade

O desequilíbrio entre oferta e demanda de transporte coletivo é um dos principais problemas enfrentados pelas cidades brasileiras hoje. Como tantos outros países do mundo, o Brasil tem a maior parte de sua população morando em áreas urbanas, o que eleva a demanda de uso do solo das cidades para deslocamentos diários ao patamar de desafio. Nos últimos vinte anos, inovação e tecnologia se tornaram conceitos que permeiam e atuam em todas as áreas. A premissa do avanço tecnológico no campo da mobilidade urbana abre, portanto, um leque de possibilidades para que as cidades sejam melhores para quem vive nelas.

 (Foto: Mariana Gil/WRI Brasil Cidades Sustentáveis)

(Foto: Mariana Gil/WRI Brasil Cidades Sustentáveis)

No primeiro post desta série, as evidências da ineficácia que a infraestrutura de transportes pode causar foram apresentadas. O crescimento desordenado das cidades e as políticas voltadas ao carro tornaram as cidades palco de congestionamentos que abocanham parte do PIB nacional. A demanda de usuários das zonas periféricas da cidade acaba por não ser satisfeita devido às longas distâncias, às tarifas altas e ao baixo nível do serviço prestado. Fatores que servem, muitas vezes, de incentivo para que os usuários do transporte coletivo alimentem a ideia de adquirir um carro particular.

Como, então, a tecnologia pode atuar para aprimorar os serviços de transporte coletivo e auxiliar na contrução de cidades mais sustentáveis? A referência à tecnologia aqui, importante ressaltar, não acontece por utilização de redes Wi-Fi ou elétrica para carregar a bateria do celular dentro do ônibus. Essa premissa, evidenciada por uma pesquisa da Transit Center, ressaltou como o cruzamento de opções tecnológicas e transporte coletivo não é imperativo no quesito de facilidades dessa ordem. O que se busca é maior efetividade para o público com transporte coletivo pontual, rápido e acessível.

A inovação tecnológica na mobilidade necessita de atuação com inteligência e socialmente orientada para mitigar os congestionamentos e melhorar a qualidade do ar, o que, como se sabe, resulta em impactos econômicos, sociais e de qualidade de vida.

Transporte sob demanda

Muitos fatores que influenciam a demanda são levados em conta para calcular o número exato de ônibus nas ruas para atender às necessidades públicas. No entanto, muita coisa mudou desde que foram instauradas as legislações sob as quais os transportes operam. A tecnologia, o estilo de vida cada vez mais urbanizado, e o número de pessoas que têm automóveis são fatores a ser levados em conta. A partir dessa mudança cultural surgiram aplicativos de caronas, compartilhamentos de carros, funcionalidades para ciclistas, mapas colaborativos, sistemas de transporte coletivo, entre tantos outros. Neste contexto de novas soluções de transporte, uma que tem despontado é o transporte coletivo sob demanda, um dos métodos que pretende garantir melhores níveis de mobilidade, acessibilidade e sustentabilidade.

Esse tipo de transporte se caracteriza, de um modo geral, como um ônibus ou minivan que não se limitam aos percursos tradicionais, a horários fixos e não possuem uma tabela de horários a ser seguida. O transporte sob demanda engloba todos os serviços públicos de transporte coletivo, mas com características flexíveis. Além da flexibilidade de rotas e horários, a facilidade com que pode ser solicitado, por meio de um smartphone, permite aos usuários uma maior aceitação a esse tipo de serviço. A diferença desse transporte coletivo para os ônibus regulares é exatamente a total resposta aos interesses do indivíduo. Não é o passageiro que se adapta à rota do ônibus, mas ele que flexibiliza a rota para atender o passageiro. Além disso, esses serviços precisam ser agendados com no mínimo trinta minutos de antecedência.

“Vivemos em uma era de transição, onde pessoas valorizam mais os serviços que possam ser colaborativos, de alta qualidade e sustentáveis. Serviços como ônibus responsivos à demanda e autos compartilhados são as mais recentes alternativas e ganham, a cada dia, mais adeptos no mundo”, destaca Luis Antonio Lindau, Diretor do WRI Brasil Cidades Sustentáveis.

Um serviço entre o tradicional transporte coletivo fixo e um serviço de táxi flexível talvez seja o ideal para suprir as necessidades de áreas urbanas. As vantagens de um serviço dessa ordem foram projetadas em uma simulação na cidade de Lisboa. A capital portuguesa, com sistemas de “táxi-ônibus” com oito (minivans) e 16 (micro-ônibus) lugares, acionados sob demanda por um aplicativo de celular acabaria com os engarrafamentos, além de reduzir as emissões em um terço, e liberar 95% do espaço de estacionamentos da cidade.

O que a pesquisa pontua é como esse tipo de transporte poderia resultar no fim dos congestionamentos. Com minivans e micro-ônibus, o transporte da cidade seria mais igualitário. Com o sistema de transporte público compartilhado aliado aos transportes sob trilhos já existente mais de 75% dos moradores poderiam chegar ao trabalho em menos de 30 minutos. Mesmo aqueles de zonas periféricas. O que resultaria em equidade de acesso às ofertas dos centros urbanos (empregos, cultura, educação, serviços de saúde, além de interação social). A pesquisa, disponível aqui, levou em conta toda a área geográfica da cidade, utilizando cada ponto como uma área de origem.

(A projeção de transporte coletivo sob demanda feita em Lisboa: No mapa da esquerda, a atual situação de acessos. No mapa da direita, como seria com o sistema de transporte sob demanda compartilhado)

(A projeção de transporte coletivo sob demanda feita em Lisboa: No mapa da esquerda, a atual situação de acessos. No mapa da direita, como seria com o sistema de transporte sob demanda compartilhado)

Algumas cidades do mundo já implantaram sistemas de transporte coletivo sob demanda. Entre elas, Helsinki, na Finlândia, com o serviço Kutsuplus, disponível desde 2013, que oferece uma frota de micro-ônibus que funciona sob demanda e permite que os passageiros determinem as suas próprias rotas e horários personalizados e paguem pela viagem através do smartphone. O serviço tem um custo maior do que uma passagem convencional de ônibus, mas menor do que custaria a tarifa de táxi ao percorrer a mesma distância.

Em Gênova, na Itália, a empresa de transporte público local introduziu, ainda em 2002, o ônibus Drin. São vans que funcionam sob demanda e acomodam entre 8 e 13 passageiros. Os usuários fazem reserva por uma central de atendimento telefônico, afinal, em 2002, os aplicativos e a geolocalização não eram tão utilizados. O uso do automóvel particular foi reduzido na cidade, bem como foi percebido um maior uso do Drin por estudantes, donas de casa, trabalhadores, idosos, etc. Pessoas que teriam mobilidade reduzida em circunstâncias ditas regulares do sistema de transporte.

O sistema de Gênova na época em que foi lançado não contava com o desenvolvimento recente das tecnologias de informação e comunicação que, hoje, permitem automatizar o agendamento das viagens pelo toque do celular. Sem contar os dados emitidos pelos passageiros que podem, inclusive, auxiliar na melhoria do serviço.

É com base no estudo de algoritmos possíveis para calcular as alternativas de viagem que um grupo de empreendedores está elaborando na cidade de Porto Alegre um novo Transporte Coletivo sob Demanda: o Bora ainda não foi lançado, mas surge como uma alternativa em consideração às condições atuais das cidades brasileiras.

(Reprodução: Bora)

A qualificação dos serviços através da tecnologia pode beneficiar as cidades de diversas formas, pois estabelecem formatos diferentes de locomoção, comunicação e acessibilidade. A mais simples mudança na forma com que vamos de um ponto a outro pode resultar não apenas em maior qualidade de vida para nós enquanto pessoas, mas para a cidade como um todo. Essa mudança de paradigma que envolve transporte e tecnologia deve permitir experimentações que fomentem o desenvolvimento urbano sustentável para, assim, além de fornecer uma mobilidade inteligente, reduzir o consumo de energia e as emissões e elevar o acesso dos cidadãos à própria cidade.