Pokémon Go estimula a conexão entre pessoas e cidades

Pokémon Go

(Foto: Penn State/Flickr)

Explorar o espaço urbano ganhou uma nova conotação desde que elementos virtuais passaram a surgir nas cidades com o lançamento do Pokémon Go, no início de julho. O jogo brinca com a distinção entre a fantasia e o mundo real, dispondo na rua, ao apontar de uma câmera de celular, personagens antes só vistos em desenho animado. Ao diluir as fronteiras que separam realidade e ficção, a quebra de paradigmas provocada pelo novo aplicativo é comparada à mesma desencadeada pelo Atari na década de 1970.

A realidade aumentada, porém, sistema utilizado pelo jogo, não consta no rol de inovações tecnológicas recentes. O termo foi usado pela primeira vez em 1989 por Tom Caudell e, do modo como é compreendido atualmente, designa a integração de elementos do mundo real com informações virtuais em um processo interativo e em tempo real. Embora tenha perdido força nos últimos anos, a tecnologia foi agora ressuscitada pelo jogo – e pode impactar o modo como as pessoas se relacionam umas com as outras e com suas cidades.

Foto: Topher McCulloch/Flickr

Em pelo menos 26 países do mundo, os jogadores que baixaram o aplicativo se veem às voltas com a caça aos pokémons. Mas o jogo não fica restrito ao celular; interage, também, com o espaço público: os pokémons estão espalhados pelo mundo, visíveis para todos que tenham o app instalado. Na tela do celular, o mapa da cidade exibe a localização do jogador, obtida pelo GPS, além das chamadas PokeStops (pontos onde os jogadores adquirem instrumentos do jogo) e, claro, dos pokémons. Para conseguir pegar os monstrinhos, as pessoas precisam caminhar.

Deixando de lado a discussão sobre se vale a pena jogar ou se estamos diante apenas de uma nova febre momentânea, cabe a reflexão sobre o potencial do jogo de conectar pessoas e cidades.

Explorando detalhes e espaços

O Pokémon Go encoraja as pessoas a duas práticas vitais quando se trata de criar ambientes urbanos mais humanos e conectados: estar na rua e conviver com outras pessoas. Desde o lançamento da brincadeira, já circularam na internet dezenas de relatos de pessoas contando como a novidade as fez “sair de casa”, “caminhar”, “ser menos sedentárias”, “passar por áreas da cidade que não conheciam”, “falar com outras pessoas”.

O jogo oferece aos usuários a oportunidade de conhecer o ambiente urbano de uma forma diferente, levando-os a apreciar tanto espaços públicos comuns e de certa forma inesperados quanto pontos turísticos. Isso acontece porque a escolha da localização das PokeStops não se limitou aos lugares óbvios da cidade. O mapa utilizado pelo aplicativo foi criado via crowd-sourcing, e muitos dos locais escolhidos fazem referência a detalhes do ambiente urbano que podem passar despercebidos no dia a dia, como, por exemplo, a parada chamada “The Face Above the Door” (“O rosto acima da porta”, referência a uma escultura em alto-relevo acima de uma porta).

Foto: Hideya HAMANO/FlickrAlém dos locais onde estão PokeStops e pokémons, há os espaços onde os jogadores se reúnem para jogar. Em todos os casos, os pontos escolhidos não precisam de nenhum predicado especial além de conexão com a internet. E o que torna esses lugares atrativos e bem-sucedidos em sua proposta é o mesmo que buscamos em qualquer espaço público: um ambiente aberto, agradável, de fácil acesso, onde as pessoas gostam de estar. Como aponta Patrick Lynch, Editor de Notícias do ArchDaily nos Estados Unidos, os “espaços pokémon” são inteiramente democráticos.

O resultado é que a busca desenfreada vista em muitos países mostrou-se, também, um meio de descobrir as minúcias da arquitetura que tornam único aquele espaço da cidade em particular. Ao caminhar à procura dos pokémons, as pessoas necessariamente interagem com o meio urbano e – mesmo que através das telas de seus celulares – são obrigadas a olhar para ele. Mais do que isso: o que vem com a tecnologia por trás do jogo é a capacidade de mapear quantas pessoas estão ocupando os espaços públicos e por quanto tempo. “Por essa perspectiva, não é nenhum absurdo pensar que as pessoas passarão a questionar mais o desenho urbano na vida real”, pondera Lynch.

Ao longo das últimas décadas, vimos a tecnologia evoluir no desenvolvimento de inúmeras formas de conectar os seres humanos. Diferentes redes sociais e aplicativos de trocas de mensagens e de compartilhamento de fotos sucedem-se uns aos outros, ancorados na mesma finalidade: facilitar o contato entre as pessoas. Agora, com o movimento desencadeado pelo Pokémon Go, uma nova porta de possibilidades foi aberta. A tecnologia tem pela frente um novo desafio: explorar o potencial de ferramentas que deem às pessoas novas maneiras de se conectarem também com suas cidades e, principalmente, de ter influência sobre os espaços que ocupam nessas cidades.

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Espaço Pokémon em Moscou (Foto: Artem Svetlov/Flickr)

Se não for a pé, vá de ônibus

É verdade que há quem esteja circulando de carro atrás dos pokémons e até contratando motoristas para evitar longas caminhadas. Na primeira semana após o lançamento, o jogo foi baixado mais do que qualquer outro aplicativo na história, e, na última terça-feira (26), o número de downloads atingiu a marca de 75 milhões. Para evitar que tantas pessoas optem pelo carro na busca aos monstrinhos – e, assim, gerem mais emissões e congestionamentos –, o Moovit, aplicativo que auxilia os usuários do transporte coletivo a traçar rotas, lançou nesta semana uma nova função, específica para os jogadores de Pokémon Go. Ao digitar “PokeStops” no planejador de viagens do app, o mapa indica os melhores caminhos – via transporte coletivo.